Nilce de Souza Magalhães

rio de janeiro, junho de 2019

 

Nicinha,

 

escrevo-te do meu exílio. eu, que atravessei o atlântico buscando o não-lugar, buscando pulverizar a terra em que nasci, o próprio significado do nascimento, que carrega o do pertencimento, sem com isso buscar nova terra para nascer… em vez disso, buscando uma terra permanentemente estrangeira, buscando eu mesma me tornar um exílio

andarilho — por todo e qualquer lugar… vendo e ouvindo e sendo tudo pela primeira e última vez… eu, caminhando assim, quase sem tocar o chão, esbarro como numa rocha na tua busca infinita pelo lugar. o teu lugar. sim, infinita, porque não termina em ti. assim como tu não terminas na tua morte. e é por isso que te escrevo, porque ainda estás por aqui, precisas estar.

vejo-te, Nicinha, crescendo pelas margens do rio madeira, virando menina, entendendo as estações das frutas, o manejo do açaizeiro, a medição do tempo pela gana com que a luz rasga as copas das árvores, vejo-te

virando mulher ribeirinha que ainda sorri ao lembrar de imitar o canto da mãe-da-lua, o pássaro preferido. ribeirinha. é o que és e é bom saberes o que és — eis tua força, e teu fôlego. o teu rio mede exatamente metade do atlântico que me trouxe até aqui, de onde te escrevo agora. olhei cinco vezes no google para ter a certeza disso, e ainda estou desconfiada, confesso. três mil trezentos e oitenta quilômetros. uma grandiosidade de curso que, assim de repente, parece não caber no meu pensamento ibérico — e eis que, distraída, me flagro pertencendo afinal.

és ribeirinha, mulher-deusa desse rio-oceano, senhora do teu lugar, das tuas frutas, das tuas árvores, dos teus pássaros, do teu sol que te nutre a pele, do silêncio da tua planície embalado pelo marulho, dos teus olhos que adivinham a amplidão do espelho de água doce, essa que traz a teus pés pedaços de madeira depois das chuvas e que esconde a abundância dos peixes vindos das corredeiras. perdoa-me se cometo algum erro. as informações chegam-me de forma superficial e confusa — sou alguém que te fala de longe, de muito longe. o único direito que me cabe aqui é o da imaginação. eis como me permito espreitar as profundezas de teu mundo, de tua história.

um dia, a deusa das margens de Abunã, feita pescadora, e mãe, e avó, é expulsa do seu paraíso tão simples, como todos os paraísos. arrastada pela avalanche bruta da usina, vês teu templo derrubado. não há mais casa, perdes o cheiro da tua terra, aquele açaizeiro que tinha nome de gente. tu e tua gente, agora, não têm mais onde plantar um pé de macaxeira. lanças tuas redes, esperas, teus olhos penetram as águas que sempre te foram gentis, quase não respiras, quase não consegues mais peixes. com tanta água desordenada pela mão do homem, não tens água para beber. para gerar luz e mais luz para a cidade distante, deixas tu de ter qualquer luz. na barraca de lona do acampamento provisório, com a aura do luar abrindo uma fresta no breu cerrado, aguças os ouvidos buscando o canto da mãe-da-lua. silêncio, que ensurdece. decides, então, que pelo menos tu não calarás. tu não calarás.

tornas-te, Nicinha, Nilce de Souza Magalhães, a voz do Movimento dos Atingidos por Barragens, a voz

que arromba o silêncio da opressão e da injustiça com cara de lei. querias estar no teu barco, pescando, sabendo que, ao final, voltarás para casa, a tua casa que ali te espera, no teu bocado de chão que conheces desde sempre: antes de entrares, ainda passas a mão no açaizeiro a que deste nome, para, então, sentares à mesa onde jamais falta a comida da terra e do rio, e no movelzinho a pequena televisão, que ligas à noite para saber o que as brisas não te contam dos mundos de além. apenas isso. simples, tão simples, mais simples não existe no mundo. mas

estás com um microfone encostado na boca denunciando o simples que te negam. juras para ti mesma que não cansarás. não tens medo, nem hesitas. ferves, isso sim. ainda verás amanhecer o dia de conseguir o justo. o dia de voltares ao teu lugar. pisar teu chão, reerguer tua casa e tuas árvores, reencontrar o açaizeiro. e levarás contigo teu povo inteiro. tens força que chegue na voz, para falar por todos. até lá, vives em suspenso, jogada no limbo, onde não páras, não páras de esbracejar. todas as noites, o silêncio da mãe-da-lua te reabastece de voz. tens tanta voz que começas a ecoar longe, a perturbar o descanso ultra-iluminado da cidade.

tens cinquenta anos quando, à covardia, te calam, no fundo do teu rio. tens pedras amarradas nos pés, pedras

amarradas nas mãos — que de outra maneira, eles sabiam, não cessariam de crescer, em todas as direções. onde está Nicinha? onde, o corpo de Nicinha? já é junho. no teu corpo submerso por cinco meses, ainda, a marca do disparo.

há muito tempo, tua mãe, seringueira, contou-te a lenda da mãe-da-lua: uma índia havia sido transformada em pássaro para ser impedida de revelar um assassinato. mal sabiam eles que, assim calada, tua voz viraria canto, a estremecer as noites.

conto-te eu agora a tua história, deste jeito torto aqui da minha lonjura, para que saibas que eu a soube, eu que estou aqui tão longe, e que vim de mais longe ainda. e que, com esta tocha que me coube, a da poesia, sou, a partir de hoje, mais um a amplificar teu canto.

tua esperança ainda vive, era isto que queria te dizer, Nicinha — para mim, nome de rocha, que, após o esbarrão, me assenta, por momentos, os pés no chão. e o chão me traz um espanto insuspeito: pertencemos à memória dos lugares. eles, os lugares, é que nos desenham, e tal contorno vazio de nós nos define. contigo, neste lugar necessariamente suspenso que é uma carta, penso mais uma coisa: a esperança de pousar é o que faz voar. tu — força de rocha, fôlego de pássaro — levas consciências para o seu lugar. e era isto que queria te dizer, Nicinha, Nilce de Souza Magalhães.

 

calí boreaz