O futuro é salgado e seco

O futuro é salgado e seco

por Brisa de Souza* 

“Praia do Futuro” – logo de cara o letreiro do filme é neon, nos levando à uma estética punk, mesclada com uma trilha sonora interessante e envolvente. Pasmem, num filme que começa na solar Fortaleza, temos David Bowie passeando nos nossos ouvidos.

Aliás, recomendo que assistam com fones de ouvido e absorvam o máximo de barulhos que o filme trás já que é um longa muito singular:

o tempo do filme é outro: enquanto algumas críticas sentem falta de ação (humana, e não no sentido de bang bang), respeito muitíssimo o tempo sensorial das sequencias, devagar e eufórico, como se tudo fosse filmado instintivamente, quase cortando cenas. O roteiro por sua vez é de uma peculiaridade impecável: seriam monólogos que se encontram se chegassem a ser monólogos; os diálogos são pontuais, ousados pela simplicidade e densos por serem tão secos.

Karim Aïnouz divide opiniões entre quem não conseguiu assistir até o final e quem não queria que findasse. Somado à parceria com Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa, que se estendem brasileiramente até Berlim, e com brasileiramente aqui quero dizer: quente. É quente nas atuações impecáveis que se circulam basicamente entre o trio de atores, com participações de outras personagens enquanto passagem.
Donato (Wagner Moura), salva-vidas em Fortaleza se encontra com Konrad (Clemens Schick) por causa de um acidente entre o alemão e seu amigo na praia. Eles se aproximam e Donato vai à Berlim, num passeio que se torna casa.

A história acontece quando Ayrton (Jesuita Barbosa) atravessa oceanos e vai atrás de seu irmão. Apesar de ser uma narrativa que se envolve na relação de dois homens, não é um filme gay, já que as tensões existentes entre as pessoas supera o que poderia ser um direcionamento pró-comunidade – mesmo que por esse mesmo motivo eu considere uma super representação de que “relacionamentos na comunidade lgbt são tão comuns quanto qualquer outro relacionamento”. E mais, o longa não defende qualquer direcionamento de qualquer personagem, é mais uma narrativa geral, de forma que todas as perguntas não respondidas (e são muitas, acreditem) não fazem a história menos conversável; dividido em três partes: “O Abraço do Afogado”, “Um Herói Partido ao Meio” e “Um Fantasma que Fala Alemão”; cada uma delas é centrada na vida de um personagem; é quase orgânico, como se os personagens se levassem e Karim só estivesse ali para acompanhar os corpos que se movimentam. 

Muita atenção na delicadeza da cena em que Donato e Konrad dançam na sala de casa e no olhar furioso de Ayrton no elevador. Depois voltem aqui e me digam se não vale a pena cada minuto do longa.

De 2014, com uma lindíssima fotografia e direção de arte, num tom de experimentação profissional, num silêncio constrangedor que fala olho no olho: o futuro é salgado e seco. 

**   escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_

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