A gente quer comida, diver$ão e arte

A gente quer comida, diver$ão e arte

por Brisa de Souza* 

Você já percebeu que a média de tempo que usa-se em filmes brasileiros para anunciar os patrocinadores da obra dura 2 minutos? Pra mais ou pouco pra menos, isso só materializa ao público o quanto foi difícil conceber a produção… 

É bastante comum não reconhecermos de frente o que, basicamente, é necessário de equipe para realizar uma produção cinematográfica:

maquiadores – diretores – produtores – assistentes – serviços gerais – figurinistas – atores – carregadores –  roteiristas – cenotécnicos – locação – câmeras – editores – comunicadores,

etc etc etc. 

Todos esses carecimentos precisam ser supridos por profissionais (ou amadores/amantes) da linguagem; e essas pessoas precisam ser pagas

O setor movimenta mais de R$ 20 bilhões, gera empregos diretos e indiretos, e a cada R$ 1 investido, temos um retorno de R$ 2,60 em tributos; é uma atividade da indústria cultural estruturada. E ainda assim, a quantidade de filmes que demoram anos de espera pela dificuldade de conseguir estar minimamente em circulação, é imensa. 

Cada vez mais os setores privados precisam de projetos voltados ao áudio visual. Para ser bem honesta, voltado à cultura – o país Brasil de 2020 não é amigável aos seres pensantes. Em meio à pandemia, temos milhares de profissionais do áudio visual (e outros tantos) desamparados. 

Mas é também no meio da pandemia que a classe privilegiada mais consome arte. Cinema enquanto séries, documentários, longas, curtas, independentes, novelas, performances, espetáculos disponibilizados na internet… O que me assola: nós podemos pagar por isso, é estatístico! É a atividade mais consumida durante o caos, gera lucro econômico, e a que também está permeada pela miséria intelectual do desgoverno. 

Mas o que podemos fazer? Consumir de forma responsável. Consumir nosso país. Cobrar que os valores sejam devidamente distribuídos e, como todo sempre em todas as categorizações, não esteja direcionado à apenas uma possibilidade de produtora/elenco e afins.

Podemos pesquisar plataformas (existem algumas gratuitas) que ofereçam o que produzimos e exaltemos essas produções de forma que cresçam e se multipliquem para que então tenham acesso ao que lhes é de direito. 

Numa pesquisa feita pela Ancine em 2018, do 163.454.506 de público em salas de cinema, somente 24.239.873 eram destinados à filmes nacionais, ou seja, menos de 15%. 

Entendendo que um projeto audiovisual tem um ciclo médio de dois a quatro anos, um longa metragem considerado de “baixo orçamento” é de R$ 1,8 milhão, uma produtora para se manter precisa de captar três a quatro filmes e esse seria o perfil de uma produtora pequena com perfil de fazer quatro filmes “pequenos”; para isso precisaria de um teto de captação de R$ 7,2 milhões – números médios e superficiais, porém que representam bem essa economia.

Considerando que poucos filmes de baixo orçamento têm reconhecimento e desses que puderam prosseguir com grandes produções, apenas 15% dos consumidores de áudio visual têm olhos voltados à obras da casa. De 2018 para 2019, o público de cinema cresceu em 7,6% mas o público de filmes nacionais diminuiu… As grandes bilheterias são para Hollywood – estamos enriquecendo a Disney.

Artistas são pessoas. Pessoas que pagam contas, pessoas que são consumidores. Apoiar o audiovisual nacional é uma forma de fazer circular nosso dinheiro entre a gente – além de nos permitir conhecer o tanto de cultura e questões que temos espalhadas por 8.515.767,049 quilômetros quadrados. 

Isso é anticapitalista? Não. Mas é contracultura apreciar a costa, o sertão, a beirada, a borda – da margem ao centro. 

Quero que vocês parem de assistir produções estrangeiras? Longe de mim! Mas se organizar direitinho, todo mundo tem vez, né?! Até porque, veja bem que o que não falta ao ser humano é cultura. É inerente a nós a necessidade de criar! 

Deixo então umas dicas para que vocês apreciem o que a gente têm de múltiplo:

O filme da minha vida, dirigido por Selton Mello
> Abrindo as janelas do tempo, dirigido por Santiago José Asef
> Catadora de gente, dirigido por Mirela Kruel
> Mateus, dirigido por Dea Ferraz
> Um salve, doutor, dirigido por Rodrigo Sousa & Souza
> Orin: Musica para os Orixás, dirigido por Henrique Duarte
> Ilha, dirigido por Ary Rosa e Glenda Ninácio
> Boi Neon, dirigido por Gabriel Mascaro
> Todas as razões para esquecer, dirigido por Pedro Coutinho
> Domesticas, dirigido por Fernando Meirelles
> A história da eternidade, dirigido por Camilo Cavalcante
> João, o galo desregulado, dirigido por Alê Camargo
> Desterro, dirigido por Guilherme Weber
> Mulheres Alteradas, dirigido por Luis Pinheiros
> Som e fúria, dirigido por Toniko Melo
> Contos de Edgar, dirigido por Pedro Morelli
> Filhos do Carnaval, dirigido por Luciano Moura
> O caminho das nuvens, dirigido por Vicente Amorim
> Viajo porque preciso, volto porque te amo, dirigido por Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
> Minhocas, dirigido por Paolo Conti e Arthur Nunes
> Garoto Cosmico, dirigido por Alê Abreu
> Até que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan
> Fim de Festa, dirigido por Hilton Lacerda
> Superoutro, dirigido por Edgar Navarro
> Sábado, dirigido por Ugo Giorgetti
> Òrun àyé, dirigido por Cintia de Souza
> Cabeça de Papelão, dirigido por João do Rio
> Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado
> Teus olhos meus, dirigido por Caio Sóh
> Corpo Elétrico, dirigido por Marcelo Caetano
> Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal
> A festa da menina morta, dirigido por Matheus Nachtergaele
> Boi Neon, dirigido por Gabriel Mascaro
> Amarelo Manga, dirigido por Cláudio Assis
> Bixa Travesty, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman
> O menino e o mundo, dirigido por Alê Abreu
> O som ao redor, dirigido por Kleber Mendonça Filho
> A febre do rato, dirigido por Cláudio Assis
> Reza a lenda, dirigido por Homero Olivetto
> Luz, Anima, Ação, dirigido por Eduardo Calvet
> Jonas, dirigido por Lô Politi
> Praia do Futuro, dirigido por Karim Aïnouz
> Piconzé, dirigido por Ypê Nakashima
> A frente fria que a chuva traz, dirigido por Neville d’Almeida


Espero que algum agrade, muito provável que vários desses estejam em resenhas futuras. 
Bom filme!

*  escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_ 

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