Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?

Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?

por Brisa de Souza* 

Percebi que semana passada comecei a coluna direta, bruta, sem apresentar a mim ou a proposta do que já é. Faço fotografia e escrevo, assim como produzo – tudo está associado, interligado, são codependentes. As artes se encontram quase sem querer, como o teatro, que estudei quando tinha 13-14 anos e reencontrei fora do papel de público, em 2019 quando produzi o Palco Giratório** (Sesc Paraty); nessa ocasião, ao final de cada espetáculo, comentava com um amigo minhas impressões sobre cada qual e um dia tivemos o seguinte diálogo

Eu: bla bla bla, mas longe de mim dizer o que é bom ou não, eu não entendo tanto sobre teatro pra dar opinião.
Ele: Mas você gosta de teatro? Você sente? Assiste com atenção? Tem uma opinião sobre? Então você sabe sobre teatro. A técnica pode dessensibilizar o crítico muitas vezes; assistir e sentir é essencial.

Claro que não foram nessas palavras, mas em mim ficou muito marcada a importância de trocar sobre a experiência. Público sensível, público histórico, público interpretador, público analítico, público crítico, público detalhista, público macro, público micro…

E é disso que
1) surgiu a proposta de escrever sobre cinema nacional, mesmo não tendo nenhuma formação na área de audiovisual;
2) decidi falar hoje sobre o curta/web-filme Amarillas.

Sob roteiro e direção de Johnny Massaro, Amarillas (“amarelo” em espanhol) é um curta metragem de 12 minutos filmado em 2012 que só tomou forma, finalização e divulgação no início de junho de 2020. Em entrevistas, Johnny afirma que achava ter perdido as imagens, e em confinamento não só achou os arquivos como reeditou o filme – e lançou!

Como o nome sub-indica, o filme se apropria da frase “Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?”, do ‘Livro das Perguntas’, de Pablo Neruda.

O curta está disponível no instagram (@curtamarillas) e conta com um elenco bacana e uma trilha sonora muito boa, além das questões que provoca: o fim do mundo e suas derivações. Estamos prontos pro fim? E depois do fim, o que acontece? E se o fim não acontece concretamente, ainda assim algum fim chega? Ou não?

Johnny fez uma descoberta feliz nessa quarentena porque o período de confinamento é super compactuante com as imagens do curta que se dão numa Paraty 97, ou na estrada – saudades de sair por ai, né minha filha?! 

Salvo todas as questões “técnicas”, apesar da gravação amadora fazer parte do estímulo, o que cortejo aqui é essa formatação do audiovisual que é o web-filme, e isso é uma concretização da rebeldia artística. Porque o país está com todas suas gravações paradas e no meio de uma pandemia, Johnny Massaro e equipe, lançam uma obra inédita.

Amarillas me surge como contra cultura, como filosofia de enfrentamento. Pro meu total gosto, funde a literatura ao cinema do começo ao fim sem ser óbvia; é uma adaptação abstrata, epistemológica.
Recomendo que direcionem doze minutos do dia de vocês numa experimentação jovem e reflexiva, coadunável aos nossos questionamentos tantos dos últimos 100 dias ou mais.

**Palco Giratório é o maior encontro de artes cênicas do Brasil, no qual o Sesc patrocina a circulação de espetáculos, oficinas, bate papos e experimentações cênicas pelo país.

*  escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_

1 comentário


  1. Que ótima reflexão, gostei muito da indicação! Assisti e depois vim aqui ler, puts amiga, senti quebrar vários paradigmas, muito interessante.

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