Treze coisas que aprendi fazendo o Lá na Laje: clube do livro sem livro e com autoras negras durante dois anos

Treze coisas que aprendi fazendo o Lá na Laje:  clube do livro sem livro e com autoras negras durante dois anos

Clube foi idealizado no Sesc Pompeia e, mais recentemente, levado ao Sesc Osasco em São Paulo

Em 2017, recebi um convite do Sesc Pompeia para montar, junto com as programadoras de lá, um clube do livro. A proposta era unir a minha pesquisa em literatura marginal/periférica a um projeto novo, que fosse um clube do livro para discutir a literatura para  além dos suportes tradicionais. O local também era inusitado: as lajes de leitura que existem no prédio da Lina Bo Bardi, onde, religiosamente, idosos jogam xadrez e dominó durante as noites e há um grande fluxo de pessoas. Daí, nasceu o Lá na Laje.

Pensar a curadoria compartilhada deste projeto foi um desafio e tanto. Eu, que já tinha feito trabalhos na área da literatura, montado algumas programações e comprado algumas (várias, na verdade) brigas por mais representatividade feminina, negra, etc. No entanto, fiquei muito animada com o convite e, ao lado das incríveis Ludmila Almeida e Soraya Idehama, montamos a primeira temporada, que incluía quatro mesas. Depois, foi estendida para mais quatro mesas e fechamos o ano com oito edições e diferentes temas trabalhados.

Eis o que aprendi

1) Arriscar:
A literatura nasce do caos e respeitar as diferenças é fundamental 

A primeira edição foi aprovada para acontecer em março de 2018 e estreou no dia mais lindo de todos: 21 de março, Dia da Poesia. A mesa “Do balcão do bar aos muros: tinha uma rede social no meio” teve os convidados foram Pedro Gabriel (eu me chamo antônio) e Ryane Leão. Foi uma tarde de muita chuva (as costumeiras águas de março para fechar o verão) e a tensão da estreia: será que teremos público? será que vão gostar? será que os dois participantes, juntos, pela primeira vez, vai dar jogo? Eis a primeira lição: ARRISCAR.

Quando pensei na composição da mesa, pensei que seria interessante começar com dois nomes fortes e que tivessem algum ponto que os ligasse, mais do que os pontos que os separava. Pensei que ambos começaram fora das redes. Pedro começou desenhando em guardanapos no bar Lhamas, no Rio de Janeiro. Ryane começou em blog,s migrou para lambes nas ruas e depois publicou o primeiro livro, que em pouco tempo se tornou um best-seller de poesia contemporânea brasileira.

Numa curadoria como essa, considerar a história pessoal e a biografia dos escritores é tão importante quanto valorizar a obra e discutir sobre ela. Repensar os caminhos que os levaram até ali foi um exercício importante. E, diferente do que eu temia, eles não se estranharam, me mostrando que respeitar as diferenças é fundamental.

O Pedro Gabriel é incrível como autor. E como ser humano é melhor ainda. Ele deu uma aula prática de respeito, ao dizer para a Ryane: quero te ouvir falar. E ouviu de fato. Mas, para além disso, a maior conquista da noite foi ver uma das colaboradoras do Sesc (daquelas que vestem uniforme cinza, pra ficarem praticamente invisíveis enquanto trabalham) parada, ouvindo a Ryane declamar uma de suas poesias com toda força, vida e ferocidade.

Naquele momento, soube que o ciclo valeria a pena, tal qual as viagens que eu viria a fazer para realizar  as mesas, tal qual as infinitas leituras, contatos, contratos, idas e vindas e desencontros. As lições foram muitas, mas, a mais importante delas, foi saber que a poesia transcende qualquer barreira, até mesmo as invisíveis que nos são impostas.

 

2) Misturar 
romper as barreiras geográficas é um dever da curadoria 

Ao pensar no ciclo, me propus o desafio de promover encontros entre pessoas que, naturalmente, não se encontrariam em outras mesas. Uma das ideias sempre foi levar ao Sesc pessoas que não eram naturais de São Paulo, a fim de promover um intercâmbio entre as vivências diante de um mesmo tema. A premissa foi que as trocas, desta forma, poderiam ser sempre mais ricas, tanto para quem está compondo a mesa como para quem está ouvindo.

Na segunda mesa, pensei no controverso e polêmico tema da pichação. Arte? Vandalismo? Pra mim, expressão e poesia. E convidei as autoras Lâmia Brito, de São Paulo, que estava com o recém-lançado “todas as funções de uma cicatriz” e Giovanna Lima, de Curitiba, poeta que viralizou ao pichar diferentes frases de amor e fotografar para as redes sociais.

Esse foi o dia que chamamos a atenção do Metrópolis, da TV Cultura, para falar do tema do clube.

 

3) Precisamos mesmo de um livro impresso para fazer literatura?

Essa foi a grande pergunta deste ciclo do clube. Minha resposta, como curadora é: não, não precisamos. Na terceira mesa, convidei a poeta baiana que vive em São Paulo, Jô Freitas, integrante do Sarau das Pretas, e o escritor carioca Jessé Andarilho. E que noite, caros leitores. Que noite.

Numa conversa descontraída e com lances de stand-up comedy protagonizados por Jessé Andarilho, conhecemos as histórias de ambos que, com coerência, contaram muito sobre como as histórias que eles quiserem contar deixar de circular oralmente apenas entre as próprias tribos e ganharam a internet por meio de vídeos e intervenções. Jô Freitas contou a experiência de ouvir mulheres peruanas que vivem isoladas, à espera dos maridos pescadores e Jessé contou como escreveu o primeiro livro, no celular, dentro do trem, no caminho entre Antares, onde vivia e o serviço. Fiel se tornou um fenômeno em vendas e o bate-papo, um fenômeno no meu coração, pela riqueza de tudo que foi dito e ouvido, confirmando que o formato pouco importa: com oralidade, com tecnologia, tanto faz. A riqueza está no compartilhamento das histórias.

4) empatia é fio que tece as relações

Quando pensei na quarta mesa do projeto, pensei que trabalhar com a costura ligada à literatura, afinal, há tanta poesia no tecer que não poderia ficar de fora. Contudo, este foi o maior risco que corri enquanto curadora: unir dois trabalhos que tinham nada a ver, num primeiro momento e, tentar extrair algo dali, que os unisse. A costura seria o ponto, mas falhei. Eu nunca tinha estado com as convidadas pessoalmente antes, mas apostei que daria certo. De um lado, o trio de rap boliviano Santa Mala, que deixou a fábrica em que trabalhavam precariamente para montar a própria confecção, do outro, a artista plástica Karen Dolorez.

A disposição e generosidade que as irmãs bolivianas tiveram para ouvir o processo de produção de Karen, que faz graffitis gigantes de crochê pelas ruas de São Paulo, deram o tom da mesa, mais do que o protesto que elas entoam no rap, enquanto costuram, longe de casa.

De fato, a empatia é o fio que tece as relações. E, apesar de uma mediação desafiadora, que bonito que foi poder ouví-las.

5) mediação é a arte da escuta – e o prazer está todo aí

Foi, durante a mesa com as rappers do Santa Mala que entendi uma das minhas missões nesta vida: mediar conversas. Venho do jornalismo – que fiz muito pensando nisso, no quanto gosto de conversar – e, encontrar brechas, casar histórias, ligar saberes e fazer perguntas é algo que me desafia, me excita e me faz crer que, entre as várias coisas que eu possa ter nascido para fazer, esta é uma delas.

Eu fico muito feliz – e me sinto viva – quando estou no palco, conversando com pessoas. Há ali um compromisso em extrair o melhor e máximo de cada uma delas e levar para o público, emocionar, tocar as pessoas que também estão ali, emprestando os ouvidos, dispostas a trocar. Mediação é troca. E, neste dia, enquanto entendi que o clube do livro sem livro estava acontecendo, senti que estava cumprindo uma parte da minha missão neste plano. Que feliz que me senti. E, mesmo tão acostumada a lidar com palavras, não as encontro para traduzir o que senti naquele momento. Mas senti. E isso foi determinante para continuar com o projeto.

6) interseccionalidade

Representatividade não só importa: ela é fundamental

Um dos desafios também foi pensar na pluralidade do ciclo, tal qual na interseccionalidade e contemplar, não só mulheres, mas mulheres negras, lésbicas, não-binárias, gordas e de diferentes espaços e lugares do país. A quinta mesa, numa edição especial, contou com três convidadas para falar sobre spoken. Entre elas, Mel Duarte, de São Paulo, Tom Grito (Leticix Brito), que é gaúcho mas vive no Rio de Janeiro e Tatiana Nascimento, de Brasília (DF). O tema: spoken: dá o play na poesia, saindo na vanguarda do momento de spoken word que a poesia chegou atualmente. E essa é também uma das coisas que aprendi: estar no timming ou antecipar alguns assuntos. Promover discussões que as pessoas querem ver, mas que ainda não tiveram oportunidade. Sair do mais do mesmo. Ousar. Experimentar. Pode dar certo. Neste caso, deu. E a representatividade foi importante. Ter, no mesmo palco, pessoas tão plurais, negras e de diferentes lugares e com trabalhos tão importantes e relevantes para o mundo atual foi muito enriquecedor.

7) se posicionar importa

Recentemente, a gente se viu marcados pela coerência da curadoria da Festa Literária de Paraty (Flip) em homenagear a escritora gringa Elizabeth Bishop, que não só flertou com o golpe de 1964, como o elogiou e foi racista em várias trocas de cartas. A insistência da homenagem, mesmo diante de duras críticas, faz valer o que, de fato, acredita não só a curadoria, mas o festival. Sou da opinião de que é impossível separar o criador da sua obra. Tudo é atravessado por quem cria. E, pra mim, estar posicionado, através da literatura é, não só importante, como fundamental.

Por isso, para marcar o retorno do segundo semestre, fizemos a mesa “Reportagens Literárias” e convidamos os jornalistas Matheus Leitão, que escreveu o livro “Em nome dos pais” sobre a prisão e tortura dos pais Marcelo e Míriam, durante a ditadura militar que assolou o Brasil entre 1964 e 1985 e Edu Carvalho, jovem negro morador da Favela da Rocinha, que começou a carreira no jornalismo aos 13 anos, com um blog onde relatava os confrontos entre policiais e traficantes na maior favela do país. Desde então, não parou mais. Tornou-se estudante, trabalhou em diferentes programas da TV Globo e, atualmente, integra o time da CNN no Brasil.

A mesa aconteceu às vésperas do primeiro turno da disputa eleitoral de 2018, que terminou por eleger Jair Bolsonaro como presidente. E, ali, refletimos sobre o que estava à nossa espreita, mas não deixamos de validar o que pensamos, como nos sentimentos enquanto comunicadores e como temos medo do fantasma que nos ronda há alguns anos, desde 2013, o ano que ainda não terminou.

Dito isso, reforço que não dá pra fazer uma curadoria, pensar um evento, um ciclo, uma mesa e/ou um festival, sem se posicionar. É impossível ser ‘isentão’. Fazer curadoria é escolher quem fala e quem cala. Esta mesa, que falou tanto sobre as disputas de narrativas evidencia também isso: quais histórias queremos contar? Minha premissa é de que “nossas narrativas transformam o mundo” e trabalho diariamente, aqui no Margens, pra isso.

Nossas escolhas dizem sobre quem somos. E, por sorte, tenho muito orgulho das que eu fiz durante este período. Das pessoas que escolhi ouvir. Das pessoas que convidei e que disseram sim para contar parte de suas histórias e trajetórias.

8) inclusão é essencial

Antes de fazer o ciclo no Sesc, eu já tinha tido algumas experiências com tradução simultânea em eventos e festivais, mas, nunca havia pensado a respeito. Quando fomos fazer o primeiro, as programadoras me avisaram que teríamos tradução em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em todos eles. Fiquei feliz, mas ainda sem entender a dimensão da importância disso e me perguntando se, de fato, havia público surdo para tal investimento.

Pra minha surpresa, este público não só existe, como é frequentar assíduo dos espaços no Sesc e, claro, só não é mais dos outros, porque não há essa preocupação com a acessibilidade. Tendo a acessibilidade, o público se desloca e faz questão de participar.

Em vários momentos, a tradução me marcou. Seja pelas intérpretes (um beijo especial para Sylvia Sato e Erika Mota que atualmente tocam o clube literário LITERASURDA, voltado às pessoas surdas, feito em LIBRAS e com tradução para os ouvintes), seja pelo público surdo, que se fez presente, interagiu, fez perguntas e me ensinou, na prática, como é importante olharmos para o lado e entendermos o quanto precisamos repensar o que consideramos justo e inclusivo.

De tudo, tive vontade de aprender LIBRAS, só pra poder agradecer as presenças de todos quando estes vinham me agradecer pelas discussões!

9) Dar um passo adiante

Fazer curadoria é sempre caminhar. E estar sempre com o passo adiantado. Na frente. É, como já disse, sair na vanguarda. Entender quais são os temas que o público quer, ainda que no inconsciente coletivo, e anseia, sem que o mesmo esteja tão evidente. É jogar a semente. É pisar, sem sentir o chão. É confiar nos próprios instintos. E, foi pensando nisso, que fiz a mesa “Solidão Cinematográfica” com as escritoras Aline Bei (vencedora do Prêmio SP naquele ano), autora do recomendadíssimo “O peso do pássaro morto” (também finalista do Jabuti) e Giovana Madalosso, autora do bem recomendado “tudo pode ser roubado”. A escolha do tema se deu pelas cenas descritas nos livros, que flertam tanto com o cinema – e podem ser filmadas, aliás, devem – e a solidão, tão latente para as personagens centrais, mas também na vida contemporânea.

10) exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje 

A frase do livro “Um Exu em Nova York“, da Cidinha da Silva é a que marca a fase II do clube Lá na Laje, que em 2019, após indas e vindas nas negociações, estreou em junho, com um bate-papo sobre paraísos artificiais, entre Cidinha da Silva e Eliana Alves Cruz e suas obras, o cruzamento de ambas neste paraíso tropical – e artificial – que é o Brasil.

A reflexão sobre a frase é também a reflexão diante da missão do clube, que em 2019, chegou com o subtítulo “Resistência, substantivo feminino” e a proposta de ouvir autoras negras, indígenas e  LGBTQIA+ não apenas do Brasil, mas de diferentes partes do mundo.

Entre as convidadas, passaram por esta edição do Lá na Laje as autoras Mirta Portillo e Dona Jacira falando na mesa “E se a ancestralidade for Afro-Atlântica?”, Raquel de Oliveira, falando sobre “Em ditaduras, nossos novos nomes”, Igiaba Scego (Itália) e Eliana Alves Cruz, falando sobre “Costumes Ancestrais”, Porsha Olaywola (EUA) e Fabiana Lima falaram sobre “Corpos Violentos”, Preta Rara e Bell Puã falaram sobre “oralidades, essas nossas vozes”, Scholastique Mukasonga (Ruanda/França) falou sobre “Resistência, substantivo feminino”Futhi Ntshingila (África do Sul) e Cláudia Canto (Brasil) falaram sobre “Violências Cotidianas”. As mesas realizadas no Sesc Osasco tiveram também as presenças de Carol Dall Farra e Jenyffer Nascimento.

Assim, a frase da Cidinha da Silva é  o encontro com o universo da orixalidade e da ancestralidade. O primeiro passo foi dado e é impossível voltar atrás. E as respostas vão surgindo, inclusive aquelas cujas perguntas ainda não foram feitas.

11) reconhecer o próprio privilégio e fazer algo positivo com ele

Quando pensamos o ciclo, nos deparamos com o fato de eu ser uma mulher branca fazendo a curadoria e mediação de uma literatura que é negra, indígena e LGBTQIA+ e que isso poderia ser questionado e/ou invalidado. Não foi. Ou pelo menos, não nos chegou, mas, diferente do que imaginei, encontrei muita gente que entendeu o que estava em jogo ali: eu tive o privilégio de ser chamada para fazer este ciclo e, diante disso, o usei para convidar escritoras plurais e não só mais do mesmo.

Por fim, fiquei muito feliz em ter podido embarcar nessa missão e me encontrar e ouvir tantas mulheres incríveis e plurais. Que presente!

12) Formação de público

Formar público também sempre foi outro desafio, especialmente quando estamos falando de autores que estão fora do circuito mais comercial ou mainstream da literatura, na maioria das vezes. Sendo nomes não tão conhecidos, ou só conhecidos nas periferias, arrastar público para um Sesc que fica numa região mais privilegiada sempre foi uma incógnita: como fazer? No entanto, sempre conseguimos. E o mais curioso é: além de um público fiel, que se habitou ao frequentar o Lá na Laje, havia o público espontâneo da unidade, que passou a gostar de, mensalmente, se deparar com a poesia. E, o público de cada uma das mesas, que, espontaneamente, se fez presente.

Alguns momentos me marcaram: a presença de pessoas brancas ouvindo pessoas negras falando. Neste dia, entendi que tinha cumprido meu objetivo. As pessoas negras sempre se fizeram presente – e já falei sobre a importância da representatividade aqui – mas, as pessoas brancas dispostas a ouvirem as negras, os homens dispostos a ouvirem as mulheres, essa guinada me fez sentir que eu estava no caminho certo. Em outro instante, a presença de jovens negras e gordas, para ouvirem a Preta Rara falar também me aqueceram o coração.

Outro momento foi quando uma das convidadas foi a Eliane Potiguara e, no público, vários indígenas se fizeram presentes, ouviram, interagiram e ensinaram. Conseguir atingir um público que nem sempre frequenta o espaço foi, novamente, um presente.

13) ancestralidade e ouvidos atentos

uma das coisas mais lindas que aprendi fazendo esse trabalho foi sobre ancestralidade. Em uma das mesas, com a Dona Jacira e a poeta cubana Mirta Portillo, a primeira disse a seguinte frase: “ninguém está abandonado à própria ancestralidade” e, naquele momento, pude sentir muito isso. Impossível não ser tocada pela força daquelas mulheres que, somente depois de uma certa idade, puderam escrever as próprias histórias e vivências em seus livros. No caso de Mirta, hoje, com 73 anos, prepara um livro de memórias e viaja sempre que pode sair da ilha comunista – da qual tem muito orgulho da revolução vivida – para falar seus poemas e sua guinada após muito machismo e opressão.

Foi muito lindo perceber como a história de ambas se conecta. E, emprestar os ouvidos – sem quase não precisar fazer perguntas – me fez ter vontade de ficar não por horas, mas por dias e vidas ouvindo-as. A mesma experiência se repetiu com a carioca Raquel de Oliveira, autora do romance “A Número Um”. Já nos conhecíamos, mas me sentar e ouvir esta professora, que abandonou o mundo do crime para se dedicar a literatura, é, senão um presente, um recado ancestral.

E nestes momentos, sei que as minhas ficaram muito felizes pela nossa fogueira contemporânea: o microfone, onde podemos contar, escrever e eternizar nossas histórias.

Por fim, escrevi tudo isso para dizer: MUITO OBRIGADA. Sou grata às minhas ancestrais, as que estão comigo hoje e as que virão depois de mim. Neste ciclo, que durou mais de dois anos, entre preparação, curadoria, convites, montagem de programação e realização, pude aprender muito. Pude revisitar, inúmeras vezes, o lugar da humildade intrínseca e entender que aprender é necessário.  Neste processo, tive muita ajuda, tanto de amigas próximas, que se fizeram presentes, tanto da minha família, tanto da DB Produções, que foi contratada para auxiliar com a vinda das autoras internacionais, tanto de toda equipe do Sesc, dos profissionais da limpeza, da segurança aos gerentes e responsáveis pelos contratos, que foram generosos o tempo todo.

É óbvio que nem tudo sai como queremos, que, em várias datas, contamos com intempéries do tempo e do trânsito de São Paulo, que esbarramos em muita coisa, mas, de tudo, ficou a grande lição: uma boa curadoria é feita na proximidade, no feeling, na intuição e, só depois, no conhecimento. Deu certo. E eu espero realizar outros projetos assim, que me ensinem tanto e que me façam sentir tão bem comigo mesma, que me deem a força da resistência que preciso, que me dobrem em mim mesma, que me façam exatamente o que o Lá na Laje fez: me senti gigante e pequena, ao mesmo tempo. Gratidão – essa palavra moda e clichê – a todes.

As fotos que ilustram esse texto foram feitas por Cintia Ruiz (2018) e Bruna Monique e Juliana Lubini (2019). Os vídeos foram feitos por China Trindad e Keyty Medeiros. 

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