Você vai ficar gorda!

Você vai ficar gorda!

Da série “o afeto não altera os fatos” ou “eu gosto de você, mas não me fode”.

por Nicole Aun*

Dia desses, almoço com amigos/colegas de um dos meus tantos trabalhos, gente querida, falando amenidades.

Começamos a conversar sobre a fome na gravidez. Uma das mulheres contou que quando estava grávida e não sabia, tinha muita fome, e rindo, contou que um amigo em comum, de quem eu gosto muito e que também estava na mesa, dizia a ela: para de comer se não você vai ficar GORDA e gargalharam (gorda aqui ganhou uma dimensão de algo assustador, bizarro).

Eu, “gorda menor”* que sou, fiquei sem saber o que dizer, mas também não consegui dar o sorriso de canto que me habituei a dar durante a vida toda nessas situações, aquele riso de canto de quem se aproxima de quem ofende para se distanciar dos ofendidos.

Fui embora com esse naco entalado na garganta. O naco da naturalização das ofensas, da regulação dos corpos, da censura, da patrulha.

Aquele comentário despretensioso, que gera riso, risca o chão. Diz, de forma didática, quem está do lado de rir e quem está do lado de ser riso.

E assim, despretensiosamente, a narrativa do padrão se instaura. Ganha contornos de naturalização, de quem pode ou não pertencer.

Colado nisso que chamam de piada, está a narrativa de que ser gorda é a pior coisa que te pode acontecer, que só é gorda quem quer, que se você se esforçar você não engorda, que é só tomar vergonha na cara e fazer um exercício, que “nossa, você tem um rosto lindo”, você vai ficar linda quando emagrecer, ou ainda de “você viu como fulana engordou?”.

Frases tão comuns para mim, que eu muitas vezes concordei. Concordei e me puni. Tentei ser outra, ocupar outro corpo. Tive, na história do meu corpo, a clara sensação de que ele estava (está e estará) errado. Mas isso não é só sobre mim.

E, assim como não é sobre mim (nem sobre ser gorda), também não é sobre eles (nem sobre uma gafe). A ofensa e o afeto muitas vezes ocupam o mesmo espaço. O espaço do não-ver, do não se afetar… isso não é sobre nós como indivíduos, mas como isso nos atravessa a todes.

Talvez pensar sobre isso, sobre como mesmo sem nos dar conta saímos riscando por aí chãos e mais chãos, sobre como naturalizamos o descuido, como nós nos auto regulamos e servimos que nem gado ao sistema que nos leva adestradinhos ao matadouro…

Importante dizer que a performatização do poder cabe em muitos corpos e como mulher branca e classe média cabe no meu muitas e muitas vezes…
Talvez pensar sobre tudo isso seja politizar o que é pessoal e, assim, construir uma nova narrativa: a de que os corpos são potências e não equívocos.

Politizemos-nos!

OSB: Jéssica Balbino me explicou que gorda menor é quem não sofre com dificuldades de locomoção, para se sentar, etc, mas não está livre do preconceito.

ENCONTRO
O feminismo como um filtro subversivo para a vida
Quando: 7 de março, sábado, das 9:00 às 18:00 (2 horas de intervalo)
Onde: Tapera Taperá (Av. São Luís, 187, 2º andar, loja 30)
Link da Loja virtual: http://bit.ly/feminismosubversivoII

PODCAST ATREVA-SE
Várias plataformas:
http://movimentoatrevase.libsyn.com/anna-vitria-rocha

Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=hNdmz9ngtxA

  • Nicole Aun do movimento Atreva-se!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *