“Fiel” narra as decisões de um adolescente que comanda o tráfico de drogas do RJ

“Fiel” narra as decisões de um adolescente que comanda o tráfico de drogas do RJ

Livro centraliza, ilustra e questiona o poder das escolhas, dentro e fora do tráfico

“Fiel” não é um livro autobiográfico, mas poderia muito bem ter sido. Pelo menos, é o que dá a entender o autor Jessé Andarilho nos agradecimentos de seu romance de estreia.

Escrito ao longo de dois anos durante viagens de trem no Rio de Janeiro, “Fiel” é um livro acelerado, que faz a gente repensar várias coisas.

A primeira delas, é que só comanda o tráfico de drogas quem mata, morre e se esbalda nela. Felipe, o protagonista dessa história, mostra que é com sagacidade e distância emocional e química, que se comanda uma guerra. No Rio, em Brasília ou no Brasil.

Com apenas 14 anos de idade, Felipe é um leitor voraz, bom de bola e bem-educado. Respeitado por todos por seu bom caráter, é invisível para a garota que ama. Após algumas partidas de futebol representando o time “dos amigos do tráfico”, o jovem passa a fazer pequenos favores para o grupo e rapidamente ganha status e prestígio entre os criminosos, inclusive com a amada.

Gente grande

De fato, essa é uma verdade que continua incontestável na obra de Jessé. O crime traz status local. E o poder que emana das armas e do dinheiro sujo das drogas também. Status, nesse contexto, significa andar pela favela com roupas caras, cordões de ouro e motos novas. Ou ter uma arma na cintura e “colocar ordem” nestes espaços onde praticamente não existem leis. Até Felipe caiu nesse conto.

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Assim, um apreciador de boas estratégias e de ensinamentos bíblicos, cresceu rápido na sua função de Fiel. Aprendeu a botar preço nas mercadorias, invadir favelas de facções inimigas e a resolver pequenos problemas da comunidade. Tudo isso acontece com a agilidade típica das decisões adolescentes e com efeito de escolhas de gente crescida. E não fosse a rapidez com que a história se desenrola, provavelmente seria mais fácil enumerar as conquistas e as perdas de Fiel ao longo de seus dois anos no tráfico.

Mas é no momento em que os reveses da vida acontecem é que a destreza de Fiel se põe à prova. Problemas com malotes, dívidas e milícias colocam Felipe em situações completamente novas e inesperadas – e embora não sejam situações gratuitas, talvez ele não esteja tão preparado assim para enfrentá-las. Afinal, ele ainda é um adolescente como tantos outros.

“Qual foi, maluco? Tá falando demais já. Sem neurose”

Nesse meio tempo, a dureza ganha espaço nas falas do jovem e aquele que antes era muito mais Felipe, educado e observador, se torna Fiel, um jovem malandro cheio de gírias. Desde que começa a fazer parte do núcleo de decisões do tráfico carioca, Felipe endurece e se torna Fiel. Fiel às responsabilidades do tráfico, fiel ao status que adquiriu, fiel ao crime. E assim, finalmente assistimos o riso solto de Felipe sumir enquanto a tensão de Fiel cresce, página a página.

Certamente o fenômeno de “Fiel” é parte do processo criativo livre, porém compromissado de Jessé. Em mais de uma oportunidade o autor relata que os personagens ganharam vida própria e sua maior preocupação não era encerrar o capítulo, mas encaixar a próxima palavra no texto. Afinal, era preciso ser fiel à história contada por Felipe em seus ouvidos.

“Fiel” se mostrou um livro sensível, preciso e verdadeiro em seus microcontos do cotidiano carioca, tal qual as poesias capturadas no projeto de poesia Marginow do autor. As histórias, investigadas em conversas ou observadas a olho nu nos arredores de Antares renderam a Jessé seu primeiro livro, de tal forma que também entregaram ao público uma grande história sobre os fiéis que existem Brasil a fora.

Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros, de espírito ambíguo e riso alto, trago o humor incerto e de vem em quando, estou mais em paz com o mundo. Uns dizem que é coisa de signo, outros dizem que é arte, coisa de persona. Seja lá o que for, sigo sendo leitora frequente, estudiosa da música e escritora de publicações ausentes.

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