Três poemas escritos por mulheres para Marielle Franco

Três poemas escritos por mulheres para Marielle Franco

A execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) na noite de quarta-feira (14) no Rio de Janeiro causou inúmeras comoções em todo Brasil e fora dele. Vários atos foram marcados, inclusive um que inclui a exibição do filme “Pelas Margens: vozes femininas na literatura periférica” na Câmara Municipal de Poços de Caldas em homenagem à parlamentar morta a tiros e entre tantas manifestações de carinho e dor, selecionamentos três poesias feitas para a vereadora, escritos por  Micheliny Verunschk, Raquel Almeida e Ryane Leão

 

“uma mulher descerá o morro
como se descesse de uma estrela

uma mulher seus olhos iluminados
suas mãos pulsando vida e luta
sob seus pés a velha serpente
[a baba as armas a covardia de sempre].

uma mulher descerá o morro
as inúmeras escadarias do morro
os muros arames que separam o morro

e pisará o chão desse país sem nome
desse país que ainda não existe
desse país que interminavelmente não há

uma mulher descerá o morro
tempestade é o vestido que ela veste
uma mulher descerá o morro
e ainda que seu sangue caia
ferida incessante no asfalto do Estácio
e ainda que anunciem sua morte
[e sim, ainda que a comemorem]
esta mulher ninguém poderá parar”

___ Micheliny Verunschk

 

A poeta Raquel Almeida também escreveu sobre a morte da vereadora

“Um grito entalado de desespero
Mais uma se foi
Pelas mesmas mãos sanguinária da polícia
Mais uma se foi
Pelas mãos sanguinária da polícia

E coberta de desilusão me pergunto
Quem será a próxima vítima dessa facção fardada
Nossas vidas não valem?
Nossos corpos não valem?
Ainda vivemos sobre o peso do chicote convertido em balas!

Ainda vivemos sobre o peso do chicote convertido em balas?

Choro
O choro amargo de mais uma vida que se vai
Choro e luto por essa vida que se vai de mim
Eu morro aos poucos em cada noticia dada
Que mais uma mulher preta foi assassinada

A dor e revolta
Revolta e dor
E o peso do chicote convertido em balas”

____ Raquel Almeida

Já Ryane Leão lembrou de um texto já escrito e postou, em referência à morte de Marielle Franco:

“resiste, preta
é o que sinto vontade de dizer
mas sei também que machuca
permanecer no fronte
de pé e armada
sei dos dias
que a gente quer colo
e mais nada
dos dias que a paz
não faz visita
dos dias em que
o aperto no peito grita
você me diz que parece
que vai quebrar
não deixe te fazerem esquecer
que nenhuma espada
é capaz de te cortar
a sua raiz tem profundezas ancestrais
é por isso que você já renasceu
tantas vezes em tão pouco tempo
e seu coração é escudo
que mantém viva
a sua luta

eu sei que resistir dói

então por hoje
desmonta
desaba
deságua
nas águas do rio de mamãe oxum
se atente nas correntezas
cuidado com as incertezas
deixe seu corpo mergulhar em água fria
coloque a cabeça na cachoeira
deixa escorrer qualquer besteira
deixa escoar, deixa levar

preta, você não precisa provar nada pra ninguém
principalmente pros que acham que o amor tem uma só definição
você é dona dos caminhos que te levam além
a sua estrada é feita de fé, coragem e afeto
e a sua poesia movimenta tantas outras mulheres negras
e dentro dela a gente dança, sorri e recomeça

você não faz ideia
de quanta gente
já salvou
declamando
o que você é

obrigada por ser você mesma num mundo que tanto nos diz ‘não’

se permita doer
tudo bem
e saiba
o que cala a opressão
é a delicadeza e o peso
de agarrar-se ao amor.”

____ ryane leão

 

Sobre Marielle Franco

Marielle Franco foi a quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016 no Rio de Janeiro, com 46 mil votos. Representante das mulheres e militante dos direitos humanos, ela era socióloga por formação. Nascida na favela da Maré, lutava também pelos moradores das favelas da cidade.

Em 15 meses na Câmara de Vereadores, ela apresentou 16 projetos de lei. Dois deles foram aprovados como leis concretas: um sobre a regulação de mototáxis, importante meio de transporte em favelas, e outro sobre contratos da prefeitura com organizações sociais de saúde, alvos frequentes de investigações sobre corrupção. No final de fevereiro, Marielle se tornou relatora de uma comissão de vereadores que acompanha o trabalho de militares na intervenção federal na área de segurança do Rio. No último dia 10, ela criticou publicamente uma série de operações policiais na favela de Acari, região com altos índices de violência na cidade. Marielle também era presidente da Comissão de Defesa da Mulher na Câmara carioca. Ela tinha 39 anos e deixa uma filha.

5 Comentários


  1. Poemas impactantes, quero recitar em uma homenagem a Marielle, se puderem me enviar através do meu email , eu agradeço.

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  2. Disciplina: Comunicação e Discurso| curso___________________ Semestre: __________ | Data: ____/____/18.

    Conteúdo: Sujeito do discurso e formação discursiva

    Grupo de trabalho _____________________________________________________________

    ____________________________________________________________

    ____________________________________________________________

    “Uma mulher descerá o morro

    Como se descesse de uma estrela

    Uma mulher seus olhos iluminados

    Suas mãos pulsando vida e luta

    Sob seus pés a velha serpente

    [A baba as armas a covardia de sempre].

    Uma mulher descerá o morro

    As inúmeras escadarias do morro

    Os muros arames que separam o morro

    E pisará o chão desse país sem nome

    Desse país que ainda não existe

    Desse país que interminavelmente não há

    Uma mulher descerá o morro

    Tempestade é o vestido que ela veste

    Uma mulher descerá o morro

    E ainda que seu sangue caia

    Ferida incessante no asfalto do Estácio

    E ainda que anunciem sua morte

    [e sim, ainda que a comemorem]

    Esta mulher ninguém poderá parar”

    Micheliny Verunschk

    Fonte: https://margens.com.br/2018/03/15/trespoemas/

    1) Faça uma análise da formação discursiva do poema que Micheliny Verunschk fez para homenagear a vereadora Marielle Franco (PSOL), morta na noite de quarta-feira (14) de março de 2018, no Rio de Janeiro. Leve em consideração três aspectos.

    a) Contexto do lugar de fala. (Todos os lugares sociais abarcam um imaginário sobre eles e em que lugar está este sujeito da fala. Por exemplo: o lugar de professor, o de jornalista, o de militante, o de médico, o de feminista, já possui um imaginário, que vai dizer antes o que significa ser professor, ser jornalista, ser feminista, ser médico, ser militante e etc.)

    b) Contexto Ideológico. (Por ideologia, refiro-me às estruturas mentais – as linguagens, os conceitos, as categorias, imagens do pensamento e os sistemas de representação que diferentes classes e grupos sociais desenvolvem com o propósito de dar sentido, definir, simbolizar e imprimir inteligibilidade ao modo como a sociedade funciona (HALL, 1996, p.26).)

    c) Por fim, confronte outras formações discursivas que podem excluir as da fala da autora. Essa outra visão de mundo que se confronta e que está posto como outra forma de ver a realidade. Para confrontar é importante que você pesquise e localize o discurso do outrem, o que se põe no contra-fluxo.

    Responder

  3. “Uma mulher descerá o morro

    Como se descesse de uma estrela

    Uma mulher seus olhos iluminados

    Suas mãos pulsando vida e luta

    Sob seus pés a velha serpente

    [A baba as armas a covardia de sempre].

    Uma mulher descerá o morro

    As inúmeras escadarias do morro

    Os muros arames que separam o morro

    E pisará o chão desse país sem nome

    Desse país que ainda não existe

    Desse país que interminavelmente não há

    Uma mulher descerá o morro

    Tempestade é o vestido que ela veste

    Uma mulher descerá o morro

    E ainda que seu sangue caia

    Ferida incessante no asfalto do Estácio

    E ainda que anunciem sua morte

    [e sim, ainda que a comemorem]

    Esta mulher ninguém poderá parar”

    Micheliny Verunschk

    Fonte: https://margens.com.br/2018/03/15/trespoemas/

    1) Faça uma análise da formação discursiva do poema que Micheliny Verunschk fez para homenagear a vereadora Marielle Franco (PSOL), morta na noite de quarta-feira (14) de março de 2018, no Rio de Janeiro. Leve em consideração três aspectos.

    a) Contexto do lugar de fala. (Todos os lugares sociais abarcam um imaginário sobre eles e em que lugar está este sujeito da fala. Por exemplo: o lugar de professor, o de jornalista, o de militante, o de médico, o de feminista, já possui um imaginário, que vai dizer antes o que significa ser professor, ser jornalista, ser feminista, ser médico, ser militante e etc.)

    b) Contexto Ideológico. (Por ideologia, refiro-me às estruturas mentais – as linguagens, os conceitos, as categorias, imagens do pensamento e os sistemas de representação que diferentes classes e grupos sociais desenvolvem com o propósito de dar sentido, definir, simbolizar e imprimir inteligibilidade ao modo como a sociedade funciona (HALL, 1996, p.26).)

    c) Por fim, confronte outras formações discursivas que podem excluir as da fala da autora. Essa outra visão de mundo que se confronta e que está posto como outra forma de ver a realidade. Para confrontar é importante que você pesquise e localize o discurso do outrem, o que se põe no contra-fluxo.

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