Armário de bagunça

Armário de bagunça

Venho pensado muito sobre armários. Sobre sair deles. Sobre, às vezes, entrar mais do que sair. Sobre achar um cantinho confortável por lá, fazer amizade com a velha colcha de retalhos e se acostumar ao cheiro de guardado. Ficar. Abrir a porta do armário, atochar toda aquela confusão – de potes sem tampa, de lençóis de elásticos mal dobrados, de meias sem seus respectivos pares. Guardar tudo e fechar a porta correndo, rezando para que lá dentro as coisas se ajeitem.

Um armário mágico.

Um armário que faça, milagrosamente, aquilo que não temos disposição, coragem ou paciência para fazer.

Por muito tempo guardei o Bagagem no meu armário de bagunça. Estava tão difícil lidar com as (esperadas e normais!) falhas e erros de meu recém-nascido projeto, que me desesperei, fiz uma bolinha imaginária dele e tratei de enfiar na prateleira mais alta e trancar a sete chaves. Por fora, passei uma flanela com lustra móveis na porta de madeira do armário e aproveitei para lustrar também a minha cara de pau: toda vez que me perguntavam pelo Bagagem, respondia que estava indo muito-bem-obrigada e que já já estaria fazendo o sucesso que todos – principalmente eu – esperavam dele.

Mal sabiam que esta é minha especialidade.

Guardar relacionamentos mal resolvidos, dores do passado, fragilidades pessoais, disputas perdidas e toda sorte de experiências que não me mataram, mas que também não me fortaleceram, dentro desse meu armário de cinco metros de altura.

Lamento se leu até aqui na esperança de encontrar um brilhante desfecho, a moral da história, a perfeita frase de impacto. Foi mal, não vai rolar. Acho que só escrevi tudo isso porque tem coisa demais dentro do meu armário de bagunça e a porta já não quer mais fechar. E, olha, confesso que vou continuar enfiando coisas que eu não quero confrontar dentro do meu armário. Logo, algo precisa sair para que novos tabus entrem ao longo da vida.

Então esta sou eu, humildemente escancarando as duas portas do meu armário e sentindo todo esse caos cair sobre minha cabeça numa avalanche demorada e dolorosa. E após a bagunça tomar o chão do meu quarto, respiro fundo, recolho duas ou três coisas para fora, e guardo novamente todo o resto que, infelizmente, ainda não consigo assumir. Nem pra mim, nem para ninguém.

Tirar partes nossas de dentro de armário é foda e geralmente estão malcheirosas e cheias de poeira. Mas ninguém aqui quer viver com pedaços de si mesmo faltando, né?

Jéssica Oliveira é iguaçuana, taurina, míope e contadora de histórias. Fora isso e Fora Temer, é empreendedora social e produz uns eventos de cultura bem legais.

3 Comentários


  1. Maravilhosa.
    Sou suspeita porque ja sou fã dazantiga.

    Arrasa, Dehssica <3

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