Poeta aponta gordofobia e machismo em vídeo gravado em açougue

Com ironia, Letícia Brito destaca relação de consumo, machismo e poder ao corpo feminino no clipe

“A poesia vai mudar o mundo”. Essa é a frase da poeta e slammer Letícia Brito, de 37 anos, ao encerrar uma entrevista ao Margens, no momento em que faço a preza e pergunto: “há algo que eu não perguntei, mas que você gostaria de dizer?”

Pode soar utópico, mas não para uma mãe de dois jovens, professora, não binária, gorda e produtora que e quebra, a cada fala, diferentes estereótipos. A conversa aconteceu por causa do vídeo com a poesia “Açougueirial Killer (ou o poema da mulher gorda)”, lançado neste ano. O clipe, bastante irônico, é uma crítica à objetificação da mulher gorda, ao consumo e ao machismo.

Letícia Brito é gaúcha e vive no Rio de Janeiro, onde idealizou e produz o sarau Pizzarau, no bairro da Lapa. Dona de um humor inteligente e de uma sensibilidade bastante grande, ela conta que começou a trilhar o caminho poético quando conheceu o slam – campeonato de poesia falada – através do poeta Paulo Emílio Azevedo. De lá pra cá, atuou na criação do  “Tagarela – o maior slam do mundo” , do Pizzarau e da  Batalha da Pizza.  Foi também neste período que frequentava saraus como o Pelada Poética, no Leme e o Corujão da Poesia, que foi onde ela leu um poema em público pela primeira vez.

Na conversa, Letícia revela que se inspirou em séries policiais sobre assassinatos em série, como a “Criminal Minds” para fazer a poesia. “Eu vejo muitas séries e na época que escrevi este poema, estava lendo o livro ‘um útero é do tamanho de um punho’, da Angélica Freitas e acho que as duas coisas me inspiraram”, contou.

Letícia Brito gravou o clipe poético que discute gordofobia dentro de açougue

A temática passa também pelo ser mulher e lidar com a gordofobia. Formada em educação física, ela conta que foi treinada a “combater a obesidade como forma de prevenção da saúde”, mas revela que isso sempre foi prejudicial à autoestima e autoaceitação enquanto mulher gorda, o que ás vezes é resgatada em saraus/slams e na poesia, coma  abertura de espaços político-poéticos. “Somente após conhecer a militância antigordofobia é que eu entendi que me amar, permitir me deixar ser amada e me aceitar era um caminho saudável para a minha psique. Mas são muitos paradoxos ainda”, revela ela, que luta para quebrar o binarismo existente no mundo e no privilégio dos homens, cis, magros e brancos em qualquer circunstância social.

Transformar o poema em vídeo vem da necessidade de se comunicar com todas as pessoas, inclusive, as analfabetas. “Tenho especial interesse na poesia falada, enquanto não acabar o analfabetismo, e o audiovisual contribui com a comunicação deste corpo que fala tanto quanto a palavra”, destacou.

Daí a gravar o material foi uma questão de oportunidade, que ela encontrou ao dar uma entrevista ao Cinema de Guerrilha da Baixada, também no Rio de Janeiro, na ocasião, ela soube que o diretor do programa era também dono de um açougue, o que a fez criar o roteiro e transformar várias inquietações sobre ser mulher, gorda e vista como carne fatiada ou aos pedaços em um material audiovisual. O roteiro e a direção foram assinados pela poeta. A produção ficou com o Cinema de Guerrilha da Baixada e a locação foi no Açougue Império São João de Meriti. “Juntamos vontade com oportunidade e muita generosidade dele, o Ricardo Rodrigues e do Vitor Gracciano que fez as imagens”, disse.

Em tempo:
Letícia Brito participa, na quarta-feira {19.07} do ciclo Margens | narrativas femininas no Itaú Cultural.

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Açougueirial Killer – ou o poema da mulher gorda 
(Letícia Brito)
O que pensava o açougueiro assassino
antes do sequestro da mulher gorda:

Ah não
Por que me aparece agora esta mulher gorda?

Maldita mulher gorda e suja que me faz sentir o pecado e repuxar minhas entranhas

Não posso parar de pensar naquele traseiro branco e gordo

Penso em apalpá-lo
Penso em aplaudí-lo

Mas mulheres gordas não são saudáveis
Melhor comê-la escondido

O que seria de minha reputação se andasse de mãos dadas com a difamada

E ela tem aquele ponto preto na ponta do nariz

Não sei se é verruga ou berruga…

Só sei que me enruga a testa e me endurece as partes tua estranheza

Queria metê-la
em minha boca
E arrancar-lhe
aquela taturana

E mordê-la toda, aquela gorda

Aquela bruxa maldita
deve ter feito uma magia negra pra me causar tal rebuliço

talvez esteja naquele batom vermelho, seu feitiço

Vou me vingar dela
Vou esquartejá-la

Só assim poderei comê-la sem culpa.

Um toicinho de minha mulher amada e gorda

E vou também vingá-la

Vingá-la desta sociedade magra e hipócrita

Vou vendê-la como
Pá, peito e acém

Pensando bem

Vou ganhar um milhão
De meu mulherão
Vou botar a placa de
Filet Mignon

E vou dizer que é Friboi!

Saiba mais: 
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