Qual é o seu valor?

Jéssica Balbino*

Qual o valor do seu trabalho? Desde que formalizei, há quase 1 ano, minha empresa de comunicação/assessoria de imprensa, não tem um dia sequer que alguém não peça um orçamento e não em faça a pergunta: qual o valor do seu trabalho?

E como é difícil, para mim, precificar o meu valor. Impossível dizer, de cara, sem conhecer o projeto, o cliente, o que me espera, um valor fixo. Mensal. Por trabalho. Por hora de trabalho. Me dá calafrios só de pensar em negociar um preço para o meu valor.

Digo isso porque, antes de dizer que uma assessoria de imprensa custa x ou y reais, eu penso no quanto caminhei e trilhei para chegar aqui e fazer este trabalho. O divã da minha psicanalista que o diga. Hoje, inclusive, ela me disse: não existe trabalhinho, o que existe é dinheirinho que pagam por um trabalhão.

Pois bem. Como trabalhar com hip-hop, literatura marginal e periférica e receber o quanto valemos? Até onde vai a militância e o desejo de transformar o mundo em um lugar melhor e onde começa a necessidade básica de subsistência?

Para viver e manter minha empresa funcionando, eu preciso pagar várias contas inerentes ao trabalho, ter um computador, uma impressora, um celular pós-pago, uma câmera de vídeo, entre outros apetrechos jornalísticos que demandam dinheiro e tempo. E tudo isso trabalhando no sistema home office – que também demanda viagens, cafés, eventos, combustível, desgaste do veículo, vestuário, etc.

Entre custos e despesas, ainda não falei do valor, afinal, há um boom de especialistas em comunicação, em literatura, em hip-hop, em mídias digitais e em produção de eventos. Há vagas de freelas aos montes. Há “valores” assustadores sendo pagos. E há quem pechinche. Há quem trate como perfumaria. Há quem diga: isso aí eu mesmo faço. Há quem simplifique. E há, ainda, quem queira colocar preço no seu valor.

Qual o valor do seu trabalho? O de um médico é cobrado por hora. Uma consulta fica entre R$ 200 e R$ 400, dependendo da especialidade, do tanto que ele estudou para ostentar, na parede do consultório, alguns diplomas e te atender para resolver seus problemas de saúde – que garante que você esteja vivo, inclusive, para trabalhar e, vez ou outra, nos esbarrarmos. E você paga antes de sair do consultório. O pãozinho, o restaurante, a feira. Tudo isso é por quilo. A gente paga primeiro, consome depois. Se ficar insatisfeito, busca meios de reclamar. Alguns cabeleireiros cobram por hora. Outros, por serviço. Há inúmeras variações, mas, é uma necessidade, afinal.

E, por que raios, meu trabalho é uma “perfumaria”? Por isso, quando ouço “quando o valor do seu trabalho?” me dá tremedeira. Como é difícil definir o nosso valor. Pra sobreviver neste meio, resolvi fazer uma conta simples. Na faculdade de jornalismo, a mensalidade fica em torno de R$ 1 mil mensal (eu tive bolsa, mas se tivesse que pagar, seria isso), a van para ir à faculdade (na cidade em que eu moro não tem o curso) fica em torno de R$ 500 mensais, um livro da área não sai por menos de R$ 50. Algo baratinho para comer à noite na porta da faculdade depois de um dia de serviço custa, ao menos, R$ 10. Por Mês, o gasto fixo é de R$ 1.750,00, fora os adicionais. Logo, qualquer salário abaixo disso é ofensivo. É desvalorização. Do trabalho e da pessoa. Isso porque aqui estamos falando apenas de um custo mensal de estudo. Mas e o empenho. E as horas sem dormir.

Ao final de quatro anos, um estudante de jornalismo da mesma universidade que eu me formei, morando onde morei, terá gasto R$ 84.000,00.  E isso vem embutido no valor, que tem algo a mais. Tem as horas dentro de um transporte público, antes de pegar a van. Tem o desgaste de trabalhar o dia todo e ir para a faculdade sem banho, sem comer, sem descansar. Tem a insalubridade de estudar enquanto chacoalha dentro do transporte. Tem as muitas noites em claro fazendo trabalho, pesquisas. Tem os subempregos. Tem as horas com fome porque o dinheiro não dá para comer. Tem o fato de que eu passei os quatro anos da faculdade de jornalismo com uma única calça jeans, remendada no meio das pernas, porque não tinha dinheiro pra comprar outra. Tem os livros lidos. Tem as horas de festa e intervalo que passamos na biblioteca, estudando, lendo, fazendo o famigerado TCC. Tem a formatura. A festa. A colação de grau. Tem o desgaste emocional. Tem tudo aquilo que você abriu mão para investir no sonho de ter uma profissão na qual acredita. Então, nisso tudo, tem muito valor. Tem, bem mais que preço, valor. Tem o 10 no TCC porque você não viveu mais nada além dele. Tem as inúmeras matérias de base que você teve que estudar durante quatro anos. Tem o medo de pegar DP e perder a bolsa. Tem o cansaço de não conseguir descansar direito durante quatro anos. Tem os amigos que você perde quando se forma. Tem os amigos que se vão e deixam um buraco na sua vida. E tudo isso tem um valor imenso. E é bem complicado traduzir esse valor em cifras.

Depois da graduação, tem seu emprego que não te paga bem e te escraviza, te impedindo de ser um jornalista melhor ou mesmo vislumbrar um futuro fora dali. Tem uma pós-graduação em Jornalismo Digital aos sábados – todas as tardes de sábado – que você faz dividindo-se entre os plantões na redação, entre o às vezes ter que sair correndo porque teve um factual, entre os inúmeros livros que você quer ler, mas não existem disponíveis em nenhuma biblioteca e com o seu salário você não pode comprar. Tem as horas dentro do ônibus para ir e voltar do trabalho. Tem a marmita na mochila. Tem o peso que você carrega. Temashorasdentrodotransportepúblico. Tem sempre alguém que te encoxa no transporte público enquanto você vai para o trabalho. Tem sempre muito o que ler. Tem sempre alguém que está à sua frente. Tem sempre o fato de que você mora longe, é sempre a primeira a sair de casa e a última a chegar. Tem o fato de que você tem menos horas de descanso. E isso tem um valor tremendo.

Ter uma pós-graduação, correr e desdobrar-se em uma redação, alguns freelas no que você realmente ama e o seu dia a dia. Tem um valor imenso. E este valor não é precificável. Tem tudo que você leu neste período. Tem as economias que você fez, deixando de comer o que queria, deixando de comprar uma roupa, deixando de ir em praticamente todas as festas, para poder viajar num fim de semana e ir num show de rap, ir na palestra de um autor que você admira em São Paulo, ir num sarau, ir numa favela fazer  matéria sem receber um centavo de um portal de rap que também não pode te pagar – mas é pela causa – tem o trabalho voluntário com um grupo de rap que você abraça por acreditar na causa, nas pessoas, enfim! E isso não tem preço. Nada disso tem preço. Mas tem um grande valor. Tem um valor imensurável. Tem o valor do conhecimento, do know how, da expertise, dos sem número de termos técnicos que usam nas redações e agências hoje em dia pra dizer que “fulano é bom mesmo no que faz”. E ser bom mesmo no que faz tem um valor incalculável.

Ter fluência em inglês, compreender espanhol, conseguir ler e escrever em outras línguas, dominar uma entrevista em outro idioma, produzir conteúdo. Tem preço ou valor? Entender de métricas, de adwords, de adsense, de Facebook, Instagram, Twitter e outras mídias sociais vai além de saber usá-las. É comunicação comparada. É teoria da comunicação. É diferente de foto com legenda. Vai além de flyer feito em tutorial. Parafraseando Criolo:é mais que Photoshop e refrão”. É valor. E valor é diferente de preço.

E este valor está nas horas que eu passei na estrada, indo e vindo de campinas duas ou até três vezes por semana, dirigindo meu carro – velho – por 300 km todos os dias, para fazer mestrado. Este valor está em pegar o meu salário de um emprego bem escravizador e investí-lo inteiro em mais conhecimento, em uma formação acadêmica, sem pensar se vai dar certo, ou em “como vou fazer”, mas simplesmente fazer. Esse valor está em trabalhar 10h por dia em Poços de Caldas, incluindo plantões de 12h aos finais de semana – e às vezes em Varginha – e ir e voltar para Campinas no mínimo duas vezes por semana para fazer um mestrado. E não há preço que pague o valor que isso tem. Não há dinheiro que pague as vezes que dirigi cansada, esgotada, com a cabeça cheia, pensando na dissertação. Não há dinheiro que pague a solidão que é dirigir cansada de madrugada  e sabendo que no dia seguinte vai trabalhar durante meio período e fazer isso tudo no outro período, novamente. Não há dinheiro no mundo que pague isso. Assim como não há dinheiro que pague o networking que você constrói neste período, o conhecimento que adquire, o know how pra se virar bem em qualquer situação, a expertise de transitar nas redações de blogs, de portais de hip-hop às grandes redações. Não há dinheiro que pague o combustível gasto, o desgaste do carro, os pedágios, o material, os livros, as horas na estrada, tudo que você leu, discutiu e se doou.

Não há preço para quem trabalha 10h por dia, faz mestrado em outra cidade, produz um sarau e uma banda de rap e ainda cuida da assessoria de imprensa da mesma. Não há. E isso tudo, me dá a expertise necessária para precificar meu trabalho. E ó, quem disse que eu consigo.

E como traduzir este valor em preço? Como compensar os meus inúmeros quilômetros rodados, com a vida em risco, virada no café expresso, para poder melhorar meu conhecimento? Qual valor de uma matéria em um grande portal? É precificável pela metrificação da notícia no clipping ou pelo valor do meu conhecimento – e do que investi em mim mesma – para colocá-la lá? Quanto vale ou é por cm de coluna?

Logo, esta que vos escreve, pede apenas uma coisa: evitem me causar calafrios. Entendam: preço é diferente de valor. E, claro: quem não tem valor, tem preço. Eu, invisto no valor.  Desde que me entendo por gente, invisto em melhorar. E isso inclui ser uma profissional melhor. Isso inclui mais do que likes, mais do que pageviews, mais do que emplacar notícias em grandes mídias. Inclui também valor. Inclui conceito. Inclui fidelidade. E vai além de faculdade. É claro que a formação é importante. Mas o conhecimento e o que fazemos com ele, também.

Fica então um pedido valioso: antes de me fazer propostas indecorosas. Antes de me pedir para trabalhar de graça no seu “projeto revolucionário que ninguém nunca viu”, avalie o valor. Antes de me oferecer menos do que um estudante de jornalismo gasta na faculdade por um mês de trabalho, pensa no quanto você paga por dia para almoçar, jantar, se locomover. Se eu me locomover de transporte público e tiver que ir apenas ao centro da cidade 1x por dia em dias úteis, gasto algo em torno de R$ 150 só na minha cidade e com uma condução só. É mais do que me oferecem como remuneração em alguns projetos. E isso é precificar, não valorizar.

Quanto seu médico cobra por alguns minutos de consulta? Minha psicanalista me cobra mais por 40 minutos em que ela me ouve falar sobre isso tudo do que muita gente me oferece por mês para me dedicar em alguns projetos. Quanto você paga pelo litro de combustível? E pelo kg do pãozinho na padaria? E em roupas para aparecer bem no videoclipe? E no aluguel do carro pro videoclipe?

Estes são alguns nortes para tentar botar preço no que pra mim tem muito valor. E não é só o meu. O seu também. E sim, eu milito bastante. Eu tenho um projeto literário em que eu invisto bastante, mas que ainda não rentabiliza. Tenho um histórico de projetos voluntários mil durante a vida. E atendo clientes pro-bono que são os que eu mesma escolho. Os que eu dou assessoria gratuita por um simples motivo: eu quero e enxergo esse valor.

E sim, o valor do meu trabalho perpassa isso tudo e muito mais: a vontade de atender sempre melhor.

* Jéssica Balbino é CEO do Margens, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, pós-graduada em jornalismo digital e acredita mais em valor do que em preço. 

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Adorei Jéssica! As pessoas não entendem a diferença entre preço e valor! Excelente reflexão!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s