Valorização das cicatrizes destaca primeiro livro de poemas de Lâmia Brito

Obra independente foi escrita ao longo dos últimos cinco anos e marca estreia da autora na cena brasileira

“(…) a solidão é um espécie de paraíso que eu não quero entrar
tem um coração acorrentado na esquina e essa tempestade é tipo sisal
quanto mais molha mais aperta
eu nunca mais li um livro inteiro depois que você apareceu
atrapalhou até meu jeito de grifar as palavras bonitas que eu achava
agora eu só penso em garatujas
você picasseou minha forma de amar(…)”

Depois de cinco anos dedicando-se à escrita e apuração do primeiro livro, a poeta Lâmia Brito, de 29 anos, lança, no próximo dia 6 de julho às 19h30 na Casa Elefante a obra “Todas as Funções de Uma Cicatriz”. A entrada é gratuita e o microfone aberto.  Leia um trecho do livro aqui 

Capa do livro “Todas as Funções de uma Cicatriz”

A obra independente e com 70 páginas traz muito da história da autora, que em um mosaico, reconstrói e narra a própria vivência por meio dos poemas. Autobiográfica, foge do comum na cena dos saraus e slams, de onde vem a autora: a poesia obrigatoriamente de militância e causas e parte para um lado humano mais subjetivo – o de sentimentos que tecem o que somos e o que fazemos com isso.

Apaixonada pela escrita desde criança, Lâmia  nasceu no outono de 1988 em São Paulo e só se identificou como poeta depois de se encontrar com o ritmo e a poesia do hip-hop, que a levaram aos saraus e slams, proporcionando-lhe também a chance de distribuir livros de literatura marginal e periférica em shows de rap. “Foi nesses espaços que eu comecei a me abrir pra poesia, me deslumbrar e me sentir em cada texto falado, a mostrar ao mundo meus próprios textos, antigos e novos, e a querer publicá-los. Então comecei a desenhar na minha cabeça como eu gostaria que fosse meu livro, a me conectar com profissionais que poderiam me ajudar e hoje estou aqui, prestes a publicar meu primeiro livro, exatamente do jeito que eu sempre imaginei”, contou.

Deu certo. Inspirada por poetas como Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros, o primeiro volume de Lâmia Brito, que capta os leitores pela identificação com os machucados e cicatrizes. No livro, ela faz da literatura o antídoto para as próprias dores. Livro traz prefácio de MC Sant, orelha de Sin e contra-capa de Ricardo Lísias.

Alguns poemas ganharam pixos em muros
(foto: Arquivo Pessoal)

“Toda a minha trajetória é permeada de cicatrizes. As físicas eu vejo sempre e sinto todas, e também sinto que cada uma delas tem um papel importante na construção da pessoa que sou hoje. porém, são as cicatrizes que eu não vejo que me transformaram. em todos os meus textos eu trago um pedaço da minha história e cada texto é um machucado – aberto, cicatrizando ou passado. Se realmente existe uma função pra essas cicatrizes, eu as coloquei no papel pra que a vida não fosse tão dura, pra expor a carne que a pele fechou, pra reintegrar razão e sentimento – motivo de vários cortes – pra me lembrar que marcas são exatamente isso: lembranças”, disse.

 

“com a mesma indiferença vesuviana
seu “eu te amo” criou uma crosta
para escorrer tem que quebrar
era vulcão, vermelho magma
agora é pedra-pomes
concreto pairando no ar
para contemplar as asas da vitória de samotrácia

é preciso subir as escadas de mármore
grécia e frança em uma briga eterna
por uma lembrança enclausurada
acho que é por isso que as guerras são tão fascinantes

eu quis aprender com seus caprichos
entender onde seu lado fraco se guarda
estranhei, curiosa e calma
seu lado forte protestar suas manias
beber uma taça de vinho como auge da autoafirmação
promessa vazia vendida
e depois o silêncio, na certeza do que possuía

mas eu não sou sua estatueta
de cores escondidas, berrantes só com raios ultravioleta
eu não me entrego à sua saliva roxa
carrego minha própria taça e sigo meu caminho
sou partenon, sou propileu, sou a acrópole inteira.”

Os versos de Lâmia Brito são duros. Cortantes. Pulsantes. Provocam, no leitor, a lembrança de que todos temos nossas cicatrizes, sejam elas visíveis ou não. São poesias que tratam de amor e violência. De sofrimento e alento. De machismo, feminismo e relacionamento. E, principalmente, de como somos todos humanos. Aliás, esta talvez seja a forma mais evidente da obra, como lembra a própria autora. “Escrever esse livro tem me tornado mais humana, mais atenta. eu tenho expectativas como todo mundo tem, mas se elas não forem supridas, pelo menos o meu mundo eu já transformei”, destacou a geminiana, que segue apaixonada pela poesia e que recentemente descobriu-se também apaixonada pela medicina chinesa.

Confira abaixo a íntegra da entrevista

– O título “Todas as Funções de uma cicatriz é bem provocativo e que remete a uma multiplicidade de sentimentos. Como é isso pra você?

hoje eu consigo entender a importância de cada cicatriz e o sentimento por trás de todos os processos. são muitas cicatrizes de cirurgias, e muitas outras que eu mesma me fiz. é quase um tabu falar sobre elas, as pessoas que conseguem reparar raramente perguntam mas eu vejo no olhar o questionamento. o título é quase uma explicação: cada marca significa que eu não morri, que eu sobrevivi aos sentimentos, escrevi sobre eles quase como uma forma de terapia. e o título nasceu dessas experiências, desse entendimento.

Lâmia Brito escreveu o livro ao longo de cinco anos (foto: Arquivo Pessoal)

– Vi uma brincadeira que você postou na rede social, que foi “70 pages why”, em uma alusão à série “13 reasons why”. Você assistiu à série? É uma brincadeira com as cicatrizes que você acumulou?

assisti e me identifiquei com a protagonista em várias cenas. coisas que aconteceram comigo na adolescência foram representadas na série e como ela se sentia e como lidava com os problemas foram também a mesma forma como eu me sentia e lidava com os meus. no final das contas, é tudo sobre solidão (ou falta de conexão), que se supriu através da escrita ou da lâmina. eu escrevi o post em tom de brincadeira, mas no fundo tem uma dor, um peito cheio de ressentimento e raiva que só com os anos eu consegui transformar em amor próprio, e esse trabalho só se consegue um dia de cada vez. amanhã eu terei que conseguir de novo.

– Noto também, nos seus textos, uma grande proximidade com a escrita da Matilde Campilho. Você já disse que se inspira nela. Como é esse processo, o que você admira na escrita dela? Você concorda que são escritas próximas?

a Matilde Campilho é quase um entidade. eu vejo poesia nela toda e não só na escrita. eu queria muito viver a poesia desse jeito, falar uma frase pra alguém aleatoriamente e soar como poesia. acho que isso já se nasce assim. eu me inspiro nela como poeta no sentido de captar momentos cotidianos e insignificantes e transformar na coisa mais bonita que eu já li. eu tento fazer isso, mas acredito que estou muito longe de ver poesia em tudo o que acontece (ou não). porém, tudo o que me acontece vira poema. minha relação com os outros, com a cidade, com meus estudos, comigo mesma, minhas expectativas e realidade.

– Além dela, quais outros autores você lê, gosta?

eu amo ler a sinhá, o bobby baq, o samuel luis borges, a marina beraldi, a luz ribeiro, a luiza romão, a ana roxo, o daniel viana, a luiza borba, o heyk pimenta, o pedro bomba. são poetas do meu tempo, cada um com seu jeito peculiar de escrita que me encanta muito. gosto muito dos romaces do ricardo lísias e marçal aquino, que eu conheci fazendo um trabalho na faculdade e nunca mais parei de acompanhar. e eu amo clássicos. machado de assis é o autor mais incrível que eu já li. e as poesias da cecília meireles , florbela espanca e hilda hilst eu leio desde e criança e sempre me emociono. de uns tempos pra cá venho lendo a rupi kaur e estou achando incrível. ao mesmo tempo, também estou lendo sobre a teoria médica chinesa. é maravilhoso ver o quanto de poesia tem dentro desse tema.

– Qual seu livro preferido?

nossa, muitos. o amante, da marguerite duras, ensaio sobre a cegueira, do saramago, os sofrimentos do jovem werther, do goethe, morangos mofados, do caio fernando de abreu, o quinze, da rachel de queiroz… pra ficar entre os clássicos. aprendo uma coisa diferente com cada livro que leio e eu sou bem eclética em termos de conhecimento. pra que um livro se torne meu preferido, basta que ele me ensine algo que eu não sei, ou me mostre uma outra perspectiva de mundo que eu ainda não vi.

– Em que momento você resolveu ser poeta e por que?

eu ainda estou resolvendo ser poeta. lembro da dificuldade que eu tinha em dizer que escrevia poesia toda vez que alguém perguntava, mas esse medo está sumindo e cada vez mais eu assumo que sou poeta (e não poetiza). eu escrevo desde criança e isso sempre fez parte dos meus dias, principalmente os ruins, então é como se fosse uma coisa mais interna do que pra mostrar pro mundo. só que agora eu vejo meus poemas parados e sinto que eles querem estar expostos, na rua, na biblioteca, onde eles quiserem ir. eu não sou poeta de multidão, de viagens, de eventos. eu me reconheço poeta quando eu digo que sou e isso vem acontecendo com mais frequência.

– Você também vem muito da cena dos saraus e até slams. Como você vê a importância destes espaços?

meu primeiro sarau foi em 2012 e conheci através do hip hop. eu adorei estar no meio de pessoas que também escreviam e poder falar alguns textos que nunca tinham visto a luz do dia. foi importante nesse processo de me reconhecer poeta e querer escrever um livro. dentro do sarau eu sentia que qualquer coisa era possível, inclusive escrever um livro. conheci vários em são paulo inteiro e em todos eles havia pessoas que acreditavam nos próprios sonhos e nos sonhos dos outros. isso é mágico. é difícil. com os slams foi um pouco diferente. eu gosto muito de ir e ouvir os slammers, mas não gosto de participar. minha escrita é uma sucessão de fracassos que deram certo na forma de poesia, e acho bem inútil competir com meus poemas. e é lindo ir num lugar só pra ouvir, sem a obrigação nenhuma.

– Você levou cinco anos para escrever e resolver publicar o livro. Como foi esse processo?

foi leve. eu não acelerei nenhum pouco meu processo. deixei o livro amadurecer sozinho, fui pensando nas pessoas que eu gostaria que fizessem parte desse trabalho e também não acelerei o trabalho delas. há cinco eu decidi que ia escrever um livro , mas há poemas que eu escrevi há quinze anos e poemas que eu escrevi há uma semana. tem uma vida ali, e não dá pra acelerar a vida. por isso ele demorou tanto tempo.

– Acredito que houve um trabalho de apuração muito grande, do que ia e não ia entrar e sei também que não há ficção ali. Como foi isso para você? 

a parte mais difícil foi colocar os poemas numa ordem coerente, pelo menos pra mim. acho que fiquei quase um ano nessa tarefa. coloquei e tirei os mesmos poemas várias vezes, mostrei pra outras pessoas, pedi conselhos. mas entendi que quem tinha que fazer isso era eu mesma, sem interferência de ninguém. tenho pastas e mais pastas no computador, cheias de poemas bons, ruins, mais ou menos e rascunhos e eu passei por todas elas tentando captar qual falava mais comigo e com o meu momento. o livro tem um contexto sutil que oscila entre as cinco fases da perda – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, que eu só consegui ver depois. não é a perda de alguém, como no luto, mas tudo o que eu perdi na vida e que, no final, nunca deveria ter sido meu.

– Como é ver o livro ganhando corpo e identidade?

está sendo bonito. uma mistura de realização e ansiedade. eu cuidei de cada detalhe. estou perto e inteira nesse processo desde o primeiro poema. ver o livro ganhando forma, com título, capa, fotos, ilustrações, textos de apresentação e orelha de pessoas que eu escolhi a dedo e que são muito queridas… isso é importante pra mim. no videopoema NICE também foi assim: só trabalhei com pessoas que eu confiava, que eu sabia que iam fazer um ótimo trabalho e acompanhei todos os passos. a ideia de ter um trabalho na rua todo pensado por mim e executado por pessoas incríveis me dá a certeza de que estou no caminho certo.

– Você também já me disse que sentiu cada dor das linhas escritas. Como foi isso? Escrever foi também uma “superação” destas dores ou é revivê-las?

acho que foram as duas coisas. a maioria dos poemas eu escrevi em momentos de dor, de tristeza, de depressão, inconformada com alguma situação. escrever sobre essas cicatrizes alivia a alma. fez muitas vezes com que eu não quebrasse. quando releio não sinto mais a mesma dor, embora em cada texto eu saiba qual foi a sensação de ter escrito. eles se tornaram lembranças, formas de reconstrução, de seguir em frente mas com o aprendizado do que passou.

– Qual a melhor coisa de escrever de escrever um livro?

a possibilidade de identificação com outras pessoas, principalmente mulheres, e de saber da possibilidade de transformação. saber que através da minha escrita alguém pode de algum modo se identificar e encontrar uma espécie conforto, ou pelo menos saber que o que muitas de nós sentimos, nós não sentimos sozinhas. existe uma solidão peculiar na poesia, e quando um livro é escrito, a minha solidão acompanha a solidão de quem me lê. ainda é solidão, mas fica tudo menos pesado depois.

– Há alguma pior?

não sei se existe a pior coisa em escrever um livro. escrever é um dos meus trabalhos favoritos, mas também é um trabalho difícil, tipo parto. eu me sinto bem até quando acho que escrevo algo ruim, porque ainda assim é um modo de colocar pra fora qualquer coisa que eu não consigo falar ou não tenha com quem falar.

– O que as pessoas podem esperar do seu primeiro livro? Por que elas devem lê-lo? 

apesar de ser um livro quase autobiográfico, eu acho que ele pode conversar com muita gente, principalmente as mulheres. se eu conseguir atingir essas pessoas, mostrar que a poesia pode transformar a nossa dor, falar pra elas que o que elas sentem eu também sinto e que no final tudo dá certo (se ainda não deu certo é porque não chegou no fim), tudo já será válido.

– Sabemos que este livro é um acúmulo de escritos de cinco anos. Para depois dele, já há alguma pretensão de fazer outro, em outro formato? Ou é o primeiro e por enquanto único?

na verdade ele é o acúmulo de uma vida, mas nem tudo o que eu vivi está no livro. tem muito mais coisas que eu gostaria de falar, e em outros formatos também. gosto muito da ideia de contos e microcontos, e venho pesquisando sobre e tentando colocar em palavras mais narradas aquilo que eu quero dizer. mas por enquanto é só uma ideia. talvez daqui a cinco anos.

– Atualmente a cena literária tem muitos poemas de militância em questões políticas, feministas, etc. Você se distancia um pouco disso. Como é esse processo para você enquanto escritora? É uma escolha? É uma militância do autocuidado?

escrever é um ato político, não importa o assunto. eu gosto muito de ler e ouvir poesias que falam sobre temas atuais, que gritam contra os diversos tipos de preconceito, vibro e me emociono assistindo a videopoemas que se encaixam em algum tipo de militância e acredito que a minha poesia é uma forma de gritar também. mesmo com toda a melancolia que me cai bem, meu livro transborda amor e autorrespeito. é como eu pratico a minha militância, é como eu luto contra meus próprios preconceitos. talvez você nunca me veja num sarau ou slam falando sobre o feminicídio ou sobre como a situação política do país vai mal. a minha tendência é autodestrutiva e pra lutar contra isso em mim, eu preciso me distanciar até de palavras boas que falam sobre coisas ruins, e é aí que entra a poesia sobre o amor, sobre o universo e sua constante conexão com tudo o que vivemos, falamos, sentimos. eu preciso destas palavras pra não sofrer por tudo o que já está acontecendo e também pra que seja criado um certo equilíbrio nesse mundinho que é a poesia.

– Você tinha o projeto Ninguém Lê, como era esse processo de identificar a falta de leitores e crítica na literatura contemporânea? 

o projeto era com mais três pessoas. nós identificamos o fato de que todo mundo lê (ou fala que lê), mas tudo o que é escrito ou falado sobre esses livros, principalmente os marginais e periféricos, não passavam de opiniões em poucas linhas. a gente quis ampliar isso, despertar no leitor o senso crítico, ou pelo menos ter a chance de conversar com o próprio autor de uma forma mais aprofundada. acho que o projeto foi uma grande vitória pra nossa cena. acredito que poderíamos ter feito muito mais, mas o que foi feito já despertou outros leitores, outras conversas, outras hipóteses que nunca surgiriam sem ele. ainda estamos todos nesse abismo entre o autor e o leitor, por mais que isso as vezes pareça ser menor a cada dia, mas é bem difícil mensurar a altura quando você está na base. é por isso também que foi criado o Projeto Livrar, quase em paralelo com o Ninguém Lê, mas com outras pessoas. com a falta de mensuração, restou a distribuição dos livros para o maior número que a gente conseguia. os dois projetos servem aos seus propósitos: o Livrar distribui, o Ninguém Lê conversa sobre os livros distribuídos, assim, aquele abismo vai ficando cada vez menor.

 

Serviço
Lançamento “Todas as Funções de uma Cicatriz”
Quando: 7 de julho (quinta-feira) ás 19h30
Onde: Casa Elefante
Endereço:  Rua Cesário Mota Junior, 277, sobreloja.
Ingresso: gratuito

Como comprar o livro?
entre em contato pelo e-mail [lamialais@gmail.com] ou pela página Lâmia Brito 

Informações: www.lamiabrito.com.br  

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