Com ‘Toda via,’, Michele Santos anuncia: “poesia nunca servil para nada”

sarau
Professora lança o primeiro livro de poesias e comemora o ciclo que está vivendo

Inaugurando possibilidades, chega à cena da literatura marginal/periférica nesta quinta-feira (10) o livro “Toda via,”, de Michele Santos. Com lançamento no sarau Sobrenome Liberdade, no extremo da Zona Sul de São Paulo, a obra é a primeira autoral da professora das redes pública e estadual de São Paulo.

Questionada sobre como está o coração com o primeiro lançamento, a escritora confessa. “Coração já nem está. Tem andado alado por estes dias. Realizado. Ansioso”.

Criada em uma família simples, onde a única ambição era “ter um emprego, talvez, e um marido, decerto”, a poeta se guia pelo que considera ‘clichê’. “Os livros salvaram minha vida. Me dera um rumo, profissão. A literatura me inquietou, me ampliou o mundo, me fez querer mais. Ainda faz. A poesia é um espanto de vida que a gente, quando consegue pegar, faz poema”.

Apesar de já ter participado de antologias como a Sobrenome Liberdade – Antes de ser um manifesto (2012) e Poetas do Tietê (2015), além da edição de inverno da regista digital Transvista e da última edição da coletânea poética Gente de Palavra, do Rio Grande do Sul, o primeiro livro chega de forma independente, propondo reflexões sobre as dificuldades de mercado.

“Entendo ‘Toda via,’ como mais um “pièce de résistance” na cena independente em meio à hegemonia do mercado editorial atual. Em se tratando de poesia, então, temos um mercado restritíssimo, com alguns selos atuando na teimosia e valentia – porque em questões mercadológicas, o velho clichê do “poesia não vende” parece que ainda vale. Por outro lado, a independência traz liberdade total de elaboração e criação, embora a distribuição seja responsabilidade do próprio escritor. É um desafio. Mas poesia é arte do risco.”

servil

“A literatura me inquietou, me ampliou o mundo, me fez querer mais. Ainda faz. A poesia é um espanto de vida que a gente, quando consegue pegar, faz poema”.

Para ela, ser mulher, educadora e escritora com livro publicado traz a sensação de completude, já que nem sempre escrever foi uma prática. “Os livros são causa e consequência na minha vida, estão na profissão que escolhi, nos lugares que frequento, nos amigos que fiz ao longo da vida. É um ciclo bonito que estou vivendo”

Nesta data, em que concretiza para o mundo convicções, poesias antes tão e só declamadas em forma de letras impressas, Michele sente-se privilegiada. E lembra: sem brincadeira. “É sobre isso que falo quando me refiro a nós, mulheres, nesse meio. Vamos nos produzir, publicar, fazer nossos livros, contar nossas histórias, não estar em relação ao historicismo de privilégios. Cair pra cima. É essa a mesma ‘vibe’ que sinto nas mulheres da cena, e isso é lindo. Um dia alguém vai falar dessas mulheres abusadas que não se deixam calar, quem elas pensaram que eram? Não sei bem como vai ser, mas quando isso acontecer, é a gente que vai estar lá na história. E boto uma fé tremenda nisso.  Fé minina.”

divulgaPor ‘Toda via,’

Para Michele, que começou a trajetória na literatura marginal/periférica nos saraus há anos, a feitura do livro foi um processo natural. O mergulho na poesia falada lhe deram o gás para iniciar o processo que passou de hobbie quase inconsciente para trabalho, construção e estudo.

A lembrança da primeira vez em que esteve em um encontro para ouvir e declamar poesias é de que estava nervosa, tremendo com o papel nas mãos. “Mas eu estava bem. Como se entre os meus, sabe?. Uma gangue literária, uau, isso existe? Porque pra mim literatura era muito dentro, aquela coisa do leitor enfurnado no quarto, eu era muito isso quando moleca, por ter crescido numa família evangélica, com uma certa rigidez (mas muito amor), os livros eram minha porta de acesso a universos paralelos, díspares. E continuam sendo, mas agora tenho com quem compartilhar.”

Para fugir de transformar o livro em uma “antologia de si mesmo” , Michele teve a paciência de criar um conceito para nortear o livro, já que ela mesma considera a própria escrita como melancólica.

“Tenho um certo encanto pelo lado cerebral da escrita, de poetas como João Cabral de Melo Neto – ou mesmo de escritores que parecem que nunca fizeram mais nada da vida além daquilo, feito a Clarice Lispector. Ao mesmo tempo, rola um desencanto quando a gente rechaça a mística da inspiração, isso faz a gente abandonar uma ingenuidade que nos leva a um lado mais visceral e corajoso de escrita, e é justo aí que a coisa começa a tomar corpo (e gosto). Se não acredito mais em inspiração? Digamos que elas são minhas pequenas bruxas. No lo as creo, pero que las hay, las hay. Há aí umas horinhas de iluminação, mas o grosso da labuta é trabalho”, destacou.

“Um dia alguém vai falar dessas mulheres abusadas que não se deixam calar, quem elas pensaram que eram? Não sei bem como vai ser, mas quando isso acontecer, é a gente que vai estar lá na história. E boto uma fé tremenda nisso.  Fé minina.”

Mulheres, feminino e literatura
Ser mulher e escritora, para Michele, é buscar constantemente sua voz e ser resistência, com os saraus na função polo agregador de produção cultural na periferia. “Se não fossem esses movimentos, muitas pessoas não teriam nunca ouvido poesia na vida”, considerou.

De acordo com ela, esta não é a solução para a defasagem cultural do país, mas, é um modo de sair do abismo. “O Sobrenome Liberdade, sarau que coorganizo com outros poetas na região do Grajaú, é um exemplo disso. Ali a gente tem quem venha pra fruir, quem venha pra falar, pra rimar, pra cantar, pra expor suas artes visuais…mas o que nos une num mesmo ambiente, contraditoriamente um bar de periferia, é essa sede por cultura, pela construção de um mundo mais humano. Construímos possibilidades. Me encanta ver o pessoal mais novo, que, a partir do contato com os saraus, a gente vê crescendo, buscando cultura, tendo autoestima e ampliando suas possibilidades de cidadania, porque tende a ficar crítico, tende à não-aceitação. Como diz um poemeto meu, “poesia nunca servil pra nada”. Fazer poesia é permitir-se criar novos mundos, e nestas pluripossibilidades a gente é sempre mais, sai do conformismo cotidiano”.

“Fazer poesia é permitir-se criar novos mundos, e nestas pluripossibilidades a gente é sempre mais, sai do conformismo cotidiano”.

Na literatura feminina, Michele acredita que não dá para ter ingenuidade. “Não podemos ser maniqueístas a ponto de achar que, por falarmos tanto de amor, luta, acolhida, transformação, todo este universo respira esse mesmo ar altruísta. A partir do momento que você tem um grupo de pessoas, você tem um lance chamada pluralidade. E precisamos ser maduras para nos construir fortes, não apenas no âmbito de exterminar os achincalhamentos cotidianos que as mulheres ainda sofrem, mas também fazer arte com o coração na ponta da caneta, como se disso dependesse sua existência. Porque até o dicionário privilegia o gênero masculino, a acepção de uma dada palavra, quando sofre flexão de gênero, é no masculino que vai ser achada…homem é sinônimo de humanidade…não pretendo promover essas alterações linguísticas (por enquanto), são observações analíticas, mas dizem por si como o mundo é construído”, considerou.

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“Desculpa, mas já somos boas”

Ainda de acordo com Michele santos, mulher não precisa escrever como homem para ter uma boa literatura, ao contrário do que pensam e propagam alguns críticos.  “Dia desses, lendo a orelha duma escritora bem conceituada, seu resenhador dizia que não esperasse ali o que se espera da chamada literatura feminina. Oi? Então para uma mulher ser considerada boa escritora precisa ser “tão boa quanto um homem”? Desculpa, mundo, mas já somos. Há bons e maus escritores, independe de gênero. Bukowiski, por exemplo, era um machista escroto. Mas era um puta escritor. Porém, historicamente, o segundo fato anula o primeiro. O mundo é machista, ponto. Mas quero acreditar num “ainda” é, sabe? Acredito no dialógico. É uma desconstrução trabalhosa. Me parece que o gênero já vem incutido na crítica, que a maioria das pessoas lê com uma imagem preestabelecida de gênero quando no eixo da recepção artística. O poder de transformação está conosco: este universo é o que fazemos dele.

Por isso, com o livro, Michele revela que pretende entender quem e como escritora, já que é novo ainda se enxergar nessa condição.  “Já escrevi no poema Era de Aquarius, que “o futuro é o infinito gotejando amanhãs”. Pois. Pretendo deixar a torneira aberta”.

“Então para uma mulher ser considerada boa escritora precisa ser “tão boa quanto um homem”? Desculpa, mundo, mas já somos. Há bons e maus escritores, independe de gênero”

destine_se (1)Educação e poesia

Sem conseguir enxergar onde educação e poesia se fundem, já que tem a vida permeada pela palavra, Michele diz que vê poesia em tudo, embora nem sempre naturalmente, mas com insistência de um olhar poético e artístico.

“O trabalho na educação é exíguo, as condições de trabalho são já amplamente conhecidas, a imensa maioria dos professores têm dois empregos para conseguir melhorar a renda, é comum sentirmo-nos à beira da exaustão…mas os estudantes vivem nos surpreendendo com instantes em que o poético se mistura com o cotidiano, este ano lecionei para pessoas de 6 a 68 anos, você tem ideia de como tua visão de mundo fica diversa? Pelas minhas contas, foram em torno de uns 800 alunos, é muita gente, mas não deixa de ser gratificante. Não sei se conseguiria voltar a trabalhar atrás de um computador, a não ser se fosse para só escrever. Trabalhar com educação é lidar com o humano a todo momento, chega a ser caótico, mas é essa mesma humanidade que finda por estarmos no meio, resistindo e lutando por melhorias”.

Serviço
Lançamento de ‘Toda Via,’

Quinta-feira
às 20h
Sobrenome Liberdade
Relicário Rock Bar
Rua Manoel de Lima, 178 – Jordanópolis – Interlagos, São Paulo
gratuito

Sexta-feira
às 20h
Projeto Clamarte
Rua Professor Otávio Guimarães, 393
gratuito

Informações
Toda Via, 

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