Rosa Luxemburgo

Rosa,

Todas as metáforas já foram escritas em mulheragem à sua figura: comparações botânicas, trocadilhos engenhosos, referências a espinhos e a essa cor que entre a púrpura e o rubro sempre cheira à sangue.

A primeira vez que ouvi seu nome foi numa aula de história. Entres os destroços da Primeira Guerra e as anunciações de uma novíssima Revolução Russa, seu nome emergiu fazendo oposição a tantos homens, eles-pários, eles-reis, eles-revolucionários. Você e Joana D’arc, raras exceções num patamar de heróis e tiranos-eles.

Aliás, você sabia que aqui conhecemos tudo sobre o Império Austro-Hungaro, o Tratado de Tordesilhas e a Batalha da Nomadilha; e quase nada sobre os povos originários, as línguas e nações, elas-astecas-maias-incas-potiguaras.

O saber é uma forma de controle. E você entendia isso.

Se agora te presto um tribuno. É porque os mesmos passos que aí, do outro lado do Atlântico, na outra metade do século, eles-os mesmo passos que levaram o Reich ao poder, agora são retrilhados aqui, no sul do mundo, por coturnos importados e solados-soldados vigorosos.

O fascismo vive à espreita.

E seu corpo congelado no rio, espancado até à exaustão, nos lembra: a crueldade desconhece limites.

Mas também o amor, a utopia e a humanidade são capazes de cruzar as fronteiras do horror e se reerguerem apesar dos tempos-eles, dos medos-nós, da violência-sempre.

Descansa, Rosa. Descansa.

Aqui nós germinaremos seu nome.

Luiza Romão