Marsha P. Johnson

Querida Marsha,

 

Talvez, pessoas críticas digam que eu não poderia te escrever. Que este não é meu lugar de fala. Mas eu quero te dizer que este é meu lugar de dor e que, tantos anos após a sua partida, ainda é difícil encontrar informações sobre você aqui em 2019. E é difícil viver neste ano sabendo que ano passado, 163 pessoas trans foram mortas somente no Brasil, o que nos coloca na 1ª posição, se houver um ranking mundial. Me dói ter que te contar, Marsha, que mesmo após sua luta, as pessoas ainda não podem simplesmente ser quem são. Alegres, corajosas e divertidas, como você era.

Marsha, eu queria, daqui de 2019, te trazer notícias sobre sua própria morte, que nós sabemos que não foi suicídio, mas, infelizmente – e me dói te contar isso – qualquer suspeito ou responsável por ter te tirado da gente ainda está impune.

Mas, a raiva que eu sinto diante disso é combustível para continuar na luta. Eu queria te trazer boas notícias. Te dizer que somos livres e felizes, mas ainda é cedo. Embora seja tarde demais perto de tantas pessoas que já perdemos para a desumanidade de outras.

Daqui de onde te escrevo essa carta, enxugo as lágrimas pelas amigas que já se foram de formas tão covardes e violentas, mas também celebro as pessoas que elas foram, assim como você. Pouca gente sabe, Marsha, mas você foi incrível e ao lado das suas amigas, criou a Ação das Travestis de Rua Revolucionárias, possibilitando a subsistência de mais de 50 pessoas nos anos 1970 nos Estados Unidos. Quase ninguém sabe, mas você lutava para tirar as pessoas das ruas e lhes dar dignidade, Marsha.

Ainda é difícil encontrar informações sobre sua luta, Marsha, mas eu te escrevo para te dizer que soube que você percorria as ruas chamando a atenção para a pandemia da Aids na década de 1980 e ainda denunciava o pouco acesso da população trans ao ambiente de trabalho.

Quase ninguém sabe disso. E esta carta que lhe escrevo é para não deixá-los esquecer do seu legado e da sua luta. É para que nos mobilizemos para tirar pessoas trans das ruas. É para que possamos lhes dar trabalhos dignos. É para que consigamos dar continuidade ao seu trabalho. É para que, ainda que tarde, encontremos quem lhe tirou a vida, Marsha.

Hoje, temos presidentes de extrema direita que nos odeiam e que fazem de tudo para que continuemos morrendo, liderando estatísticas terríveis e tendo nossos sonhos jogados em valas, vendidos como suicídio. Eu quero tanto te trazer boas notícias, Marsha, mas ainda não consigo. Então, te digo que sua luta me inspira e que saber que você existiu me dá um pouco de esperança. Quero te dizer que sua luta valeu e que, mesmo que ainda tenhamos um longo caminho, estamos ocupando as ruas, levando informações às pessoas e não deixando que elas esqueçam a pessoa incrível que você foi.

Com amor,

Jéssica Balbino