Marielle Franco

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2019

 

Querida Marielle,

 

Faz tempo que não te abraço. Era comum te encontrar nos eventos de militância e receber aquele sorriso largo, um tapinha no rosto e um abraço sincero.

Por aqui as coisas estão piores desde quando te retiraram de nós.

As investigações foram cheias de ocultações e provas que sumiram. Encontraram dois suspeitos e nenhum mandante apesar do entendimento quase lógico da relação do estado com tua execução.

Vejo tua família quase sempre, assumiram teu ativismo com a coragem que te era comum. Teus pais, tua irmã, tua filha e tua companheira são todos motivo de orgulho e ressignificação do luto. Inspiram-nos a seguir. A buscar saber quem te tirou de nós.

Já faz um ano e três meses que você foi retirada de nós. Nos primeiros meses tivemos medo. Medo de reocupar as ruas. Medo de passar pelo Estácio. Medo de passar pela casa das pretas. Medo da dor de lembrar. Os rituais de tua passagem foram silenciosos e fortalecedores. Já não estávamos sós. Tua presença imaterial era força da natureza, era cada ventania, era cada lembrança da tempestade na primeira noite de tua ausência.

Ainda precisamos de justiça. Ainda lutamos por não precisar mais lutar.

Especialmente minhas companheiras, pretas como tu. Vale dizer que vêm delas a maior coragem.

As mulheres negras estão assumindo o protagonismo pelo qual lutam e várias de nossas camaradas estão em cargos parlamentares, semente plantada por ti.

É assim que dizem os xukuru de Pernambuco sobre suas lideranças e é assim que também ouço nos nossos espaços de militância: sua semente foi plantada. Seguimos regando a semente e fazendo a poesia acessar os lugares que o discursos não acessam. Somos da luta mas somos também do afeto.

Sigo pensando formas de desmilitarizar nosso discurso e proteger minhas companheiras que estão na linha de frente desta batalha. É preciso aprender a proteger os corpos pretos. O genocídio segue intenso e os atuais governantes são fascistas a ponto de atirarem de helicóptero, sem motivo justificável, sobre comunidades inteiras. Aliás, não vejo motivo que justifique uma pessoa atirar em outra.

O governador e o presidente pensam de forma diferente. 

Mas tudo tem vindo à tona. A conexão entre governantes e milicianos, a conexão entre o golpe juridico parlamentar e as eleições.

Parece que em breve a gente vai novamente fazer a retomada da construção de nossa democracia.

Enquanto isso, descansa, recupera e pede às forças da natureza por nós.

Sigo aqui firme, com a lembrança de que te conheci, a certeza de que as minhas referências são mulheres reais.

Firme na luta,

Com afeto,