Luana Barbosa

Amar é dobrar a esquina da rua de olhos fechados e deixar-se trombar com o que estiver à frente. Neste estado, acabam-se certas vidas para que a planta verde do sentimento maior seja capaz de crescer. 

Plantas simbolizam mais o amor do que um coração vermelho cristalizado, estupefato, estufado, destrinchado pelos chutes de um masculino desmerecer.

Uma mulher espancada já estava morta antes de receber o primeiro golpe, o primeiro tiro, o primeiro xingo. Porque a irmã-visão sabe de tudo com antecedência. Nestas horas, o coração queria ser ramo que sobe ao céu, mas descobre-se músculo venerável, vulnerável, finito.

Todo coração é um gravador orgânico dos sentimentos que o habitam. E é aí que mora a mágica que escapa ao entendimento dos homens dos cassetetes.

Em sua vontade louca de se propagar intenso, o coração transmite seus registros íntimos para outras mulheres assim que os nossos olhos avisam: morte certa à vista!

Tal alimento composto, extrato de corpo e rosto, é seiva que se espalha por artérias luminescentes, a alimentar todas aquelas que recebem amores novos como presente das deusas: um espelho. Elas, inocentes em relação à origem desse ouro puro, parte verde, parte vermelho, líquido.

Luana, saiba da prática infindável dos seus amores pelo nosso sangue, por nossos poros. Eles invadem pelos e órbitas como se lobas fôssemos, num nível de conexão inconcebível para quem não domina a ciência das curvas ou o silêncio das dunas que antecede o navegar em águas grandes e doces.

 

A honramos plenamente. Luana: mulher-raiz.

 

Cristina Judar

São Paulo, 27 de junho de 2019.