Juana Ramirez Santiago

São Paulo, 30 de junho de 2019

Que ironia alguém que semeou a vida morrer de forma tão trágica. Antes fosse levada pelas lavas de vulcão, cinzas sobre os telhados ou alguma erupção da terra, invencível e incontrolável. Seria igualmente trágico, mas talvez fosse um pouco mais aceitável. Encerraria teus ciclos junto à terra, Juana… perto da vida que ajudou a plantar com tuas mãos. Mas foram quatro tiros certeiros que deitaram teu corpo – e isto me dói o peito. Das tuas mãos nasceram meninas e meninos, pequenos deuses maias da Guatemala, De teus cuidados muitas mães em prantos foram alvo, E em teu abrigo mulheres violentadas encontraram proteção. Me pergunto com que roupas andava. Se usava saias e flores como as de suas hermanas do vilarejo, Se teus longos cabelos pretos um dia encontraram as águas dos rios, Se teus filhos choram agora ou se passam frio. Teu hábito de cuidar, teu ofício de parir são coisas tão belas de se ver. Imagino quantas pessoas passavam por ti e te chamavam de avó, madrinha, mãe. Só de filhos teus, deixa sete. Sete histórias que não deixarão a tua história de mulher mensageira morrer. Era parteira de um novo horizonte e por isso te queriam longe. Creia, não vamos te esquecer. Toda tua trajetória em defesa da vida, todas as crianças que ajudou a nascer e nenhum dos caminhos turvos que levam às aldeias Ixil não vão te esquecer. Já encontrei Silvias, Onetes, Malus. Companheiras tuas na arte de trazer novos habitantes ao mundo. Mensageiras dos deuses como tu. Me diga Juana, desde quando tua luta não te deixava dormir? Quantas dores te arrancaram? Quantos sorrisos te roubaram antes de te fazerem partir? Tuas palavras duras chegaram aos poderosos e foi a tua grande contestação em nome da paz e da vida que levaram teu ar. Com tuas ações aprendemos em vida a importância da justa medida. Não queremos vingaça, buscamos justiça. Marias e Antônias continuam tua luta. Outras tantas mulheres fortes não engolirão um mal feito pedido de perdão. Iremos à luta, queremos nome, endereço e profissão de quem te arrancou de nós. Quanto à tu, Juana, tuas cinzas se espalharam pelas matas verdes e pelos telhados cinzas. Quero acreditar que estás de volta ao caminho dos deuses. Peço que pelos vales do Caribe por favor espalhe mais das tuas sementes de liberdade e revolução. Com amor e cuidado de uma filha que não teve tempo de encontrá-la em vida.

Keyty Medeiros