Itò Noe

Querida Itô,

 

Daqui de onde estou, consigo sentir sua luta. Te escrevo como jornalista que sou e que, quase 100 anos após a sua morte brutal pelas mãos da polícia, ainda tenho que lutar para que mulheres possam escrever sobre o que quiserem.

Eu queria ter te conhecido, Itô, e me reunido contigo para compartilhar de uma visão emancipada e anarquista. Ou para escrever sobre mulheres, mas, de 2019, tudo que é possível é te dirigir estas palavras e torcer para que o fascismo, que vive rondando todas nós, não nos alcance desta vez e que sua história possa ser conhecida por mais pessoas, sem regras e nem censura, como você gostaria que fosse.

Eu gostaria, Itô, que sua história tivesse me chegado antes. E que não coubesse a mim apenas passa-la adiante. Eu gostaria de te ouvir. E também de te contar. Mas, o que consigo é contar para o mundo que você, usando sua habilidade com a escrita, denunciou a agressão sofrida pelos membros da organização Sociedade Onda Vermelho em 1921, quando a política bateu em vocês.

No meio dessa guerrilha, eu queria te dizer que a polícia não é mais violenta e que vivemos tempos bons, mas seria mentira. Onde eu vivo, do outro lado do mundo, morrem mais pessoas pelas mãos do estado do que em países que estão em guerra. E, sendo uma mulher que luta pelo direito de outras, sei que sou um alvo, assim como minhas companheiras. E lutar tem sido nossa única alternativa, assim como foi para você.

Seguimos, em vermelho luta. Ainda que as autoridades possam nos calar, cedo ou tarde, saber que você existe nos impulsiona.

 

Com amor,

Jéssica Balbino