Esther Balestrino de Careaga

Esther,

 

Eu vejo o seu corpo chegando na praia.

É 20 de dezembro de 1977, um dia como outro qualquer no balneário argentino de Santa Teresita.

Como outro qualquer se não fosse o seu corpo surgindo,

braços, pernas e cabelos dançando inertes na marola.

Você não vem sozinha, está junto de outras companheiras.

Vão chegando como um triste corpo de baile,

rodopiando,

estancando na areia.

Veranistas se aproximam.

Imagino que se façam a mesma pergunta,

mas que poucos tenham coragem de falar em voz alta.

(pausa)

Você sabe: é tempo de silêncio por esses mares do sul.

E é em silêncio que os militares recolhem seu corpo.

Levam na caminhonete.

Fazem a autópsia.

Eu adoraria dizer que vocês são enterradas com dignidade, mas não é isso que acontece.

Será que você sabe o que acontece, Esther?

De repente me sinto ridícula… Eu, uma ateia, falando com o espírito de uma marxista como você, que não devia acreditar nem em simpatia ou quebranto, quanto mais em vida após a morte…

Mas vamos fazer de conta que tudo existe e talvez assim tudo passe a existir… Pode ser, companheira?

E assim sigo te contando o que aconteceu.

Os militares fingiram que não reconheceram seus corpos e vocês foram enterradas como indigentes no cemitério da cidade de General Lavalle.

Ainda bem que o tempo come a nossa carne mas não os nossos ossos, porque 28 anos depois um juiz federal que investigava desaparecidos da ditadura argentina foi atrás de vocês.

Esther,

Eu vejo a pá revolvendo o solo,

o sol cravando as entranhas da terra,

os ossos aparecendo no meio da massa escura.

As sobrancelhas se arqueando,

claro que são elas!,

o exame de DNA chegando para confirmar tudo.

Lembra que você queria que suas cinzas fossem enterradas num certo jardim?

Não era um pedido fácil de ser atendido.

Se nossa voz já é tão pequena enquanto vivos,

imagine enquanto mortos.

Mas alguém importante interveio por você.

Lembra de um rapazinho que era seu subalterno no laboratório de química que você chefiava, o Jorge Mario Bergoglio? Claro que deve lembrar. Ele contou ao mundo todo sobre as longas conversas que vocês tiveram sobre marxismo e sobre os livros que trocaram, disse que aprendeu muito com você.

Pois esse seu subalterno, Esther, virou o Papa!

E, como autoridade máxima da igreja católica no mundo,

pôde intervir por você, realizando aquele seu desejo de ser cremada e enterrada no jardim da Igreja de Santa Cruz.

Eu sei muito bem porque você quis ser enterrada nesse jardim, Esther.

Você foi uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio, o movimento que procurava os filhos desaparecidos na ditadura, e era no jardim dessa igreja que vocês faziam seus encontros.

A essa altura, o regime já tinha sequestrado, torturado e assassinado em torno de 30 mil civis.

Sua filha, Ana Maria, foi levada pelos militares, não é mesmo?

E devolvida uns meses depois. Mas isso não fez com que você parasse de procurar os outros filhos desaparecidos.

Foi num desses encontros que um moço de olhos azuis apareceu.

Ele disse que era irmão de um militante desaparecido e você, suas companheiras e as freiras acreditaram, claro, e ainda encantaram-se com o jeito tímido, acanhado do Gustavo Niño.

Tanto que deixaram que ele participasse do grupo,

que passasse a integrar todas as reuniões das Mães da Praça de Maio.

Só que o Gustavo Niño, Esther… Nem se chamava Gustavo Niño.

Ele era um militar disfarçado. Alfredo Astiz, tenente da Marinha e um dos mais cruéis torturadores da ditadura argentina.

Algumas semanas depois de ingressar no grupo,

de ficar conhecendo bem cada uma de vocês,

ele enviou um comando para sequestrar você e suas companheiras.

Vocês foram levadas para a Escola de Mecânica Armada,

o campo de detenção mais sinistro de todo aquele inferno.

Para você ter uma ideia, das 5 mil pessoas que passaram por esse campo, menos de 150 sobreviveram.

No dia 18 de dezembro, vocês foram dopadas, colocadas num helicóptero da Marinha e jogadas vivas no Rio da Prata.

Seu corpo boiou até chegar à praia de Santa Terezita, naquela manhã de verão que mencionei lá no começo da carta.

Agora eu me pergunto, Esther,

que crime você cometeu para passar por tudo isso?

Claro que a ditadura estava longe de ser justa…

Ler certos livros era crime. Ter opinião era crime.

Mas, no seu caso, penso, penso e a única coisa que me ocorre é:

culpada por CONDOER-SE.

Porque foi só isso que você fez, condoeu-se com a dor das outras mães.

E acho que fez isso porque num momento também sentiu dentro de si uma dor maior que

a pinça,

o choque,

o pau de arara,

o afogamento.

Uma dor talvez maior do que ter um filho morto.

Porque a morte permite o luto,

o encerramento de um processo.

Mas o desaparecimento de um filho…

É uma morte a cada dia que ele não aparece,

a cada encontro frustrado…

É a renovação diária de uma tragédia.

Então, sinto por vocês, Esther.

E, para terminar a nossa conversa, te mando notícias daqui.

Adoraria dizer que tudo vai bem,

mas parece que, para cada passo para frente,

a humanidade dá um para trás.

A sua Argentina vive um regime democrático, mas também uma crise financeira.

O Brasil volta a flertar com os militares, com o autoritarismo.

Será essa uma doença crônica da América Latina?

Pelo mundo todo proliferam regimes conservadores,

desrespeito aos direitos humanos,

crises de refugiados.

Mas pelo menos uma nova onda feminista vem crescendo com força em vários países. Inclusive na sua Argentina, com as mulheres de lenço verde.

Como você está ouvindo, a vida segue complexa…

Mas seguimos transformando dor em tango.

E, enquanto estivermos aqui, Esther,

sua voz sempre cantará através da nossa.

 

Giovana Madalosso