Dandara

Irmã, a luta é árdua e estamos descontínuas. A diáspora nos atirou em distintos mocambos cortiços mangues favelas. O coração ainda pulsa África como morada ancestral.

Estamos no século XXI e o progresso europeu que nos foi prometido como lema na própria bandeira se mostrou uma grande farsa. Esse país que chamamos de nosso leva o título de uma commodity. Vendido. Regido por aqueles que reforçam a ideia que nunca vai colar de que somos inferiores e merecemos morrer na mão dos capitães do mato. Tipo traiçoeiro que hoje se encontra no que chamamos de polícia militar. 

Palmares já não fica mais em Pernambuco. Território esse que agora chamamos de estado ao invés de capitania. Mas mesmo os lugares mudando de nome e os preconceitos tomando outras formas tivemos avanços sociais nesse século. Graças à ascensão do partido que levou um membro do povão e não da casa grande ao poder. Mesmo assim ainda há regime de escravidão em zonas canavieiras atuais. Que irônico né? Me pergunto se você apesar da força inconteste também sentia medo. Ou se sentiu fraquejar em algum momento. As doenças da mente também são obstáculos para nós que lutamos hoje em dia.

Nossa descontinuidade fica óbvia quando pensamos nos quilombos atuais. Temos movimentos sociais estruturados de formas diversas inclusive culturais como o Slam das Minas mas no geral os ricos por serem tão poucos ainda são mais unidos e melhores articulados que nós. Quando olho ao redor vejo você por aí em vários rostos e trajetórias. Ontem vi uma Dandara no caixa da Mc Donalds e teve uma Dandara muito ousada estudando comigo na universidade. Dandara é como vejo minha irmã mãe e avó. Às vezes eu mesma me sinto uma Dandara também: mulher negra rasgando as durezas e buscando protagonizar sua luta diária se esquivando das rasteiras que a vida dá. É preciso gingado. Descobri minha força por força da gravidade dos problemas. Ainda tantos para nós mulheres negras. Quando nos encontramos somos rios alimentando os afluentes umas das outras. E persistimos. E entramos na roda. E os versos da poeta briela G a ecoar: Quantas Dandaras no mundo há? Quantas Dandaras no mundo há?

Seguimos troncos resistentes dando frutos das nossas úteras e abraçando mulheres que não possuem úteras. O importante é que todas compartilhamos de raízes firmes devido a legados como o teu. Muito obrigada irmã. 

Axé!