Berta Cáceres

Berta

Peço desculpas pela demora em te escrever…
Confesso que tentei, mas,
de certa forma, demorei para encontrar a conexão
Entre a hora, o cansaço, a ansiedade que me toma ultimamente.
As notícias não tão boas sobre a política autoritária que se instaura aqui na minha terra,
sinto inúteis… minhas palavras.
Uma inanição.
Faltou vocabulário.
Balbuciei.
Ensaiei uma carta escrita.
Rasguei.
Quem sabe se fosse em espanhol
Não sei.
Assim como pouco sei da tua luta.
Da tua história e da tua sorte.
Só me falam, frase atrás de frase, da tua morte.
Entre todas as poucas informações impressas em uma tela branca de pouco brilho,
sobre Honduras,
sobre a tua cultura…
sobre aqueles que não enxergavam o sagrado na natureza da tua Esperanza.
O povo Lenca e o amor puro e imenso que te fazia acordar e dormir sabendo que a potência da tua voz
significava iminência, eu vi…
Força.
Berta, amiga.
Assim tão de repente? Nem nos conhecemos direito.
3 tiros?
Violência.
Me quebra aos poucos saber que o caminho de quem luta parece contramão.
Ainda me pergunto, dentre todas as matérias, artigos e um vídeo sobre ti, por que a frieza em tratar de uma mulher tão inteira?
Quais eram tuas cores preferidas? A tua casa tinha janela para o sol? Será que tu cantavas junto com o som do violão quando a música tocava?
Teus filhos te ajudavam a servir o café pela manhã aos domingos? A tua saia rodava?
A falta de humanidade que fizeram da tua história nas letras miúdas dos jornais me apavora.
Será que só fui perceber isso agora?
E ao passo cruel que percorremos
de um mundo que se preocupa mais com dinheiro
do que com ar puro e água limpa
Fizeram do teu adormecer leve, silêncio.
Um dia antes da celebração da tua vida.
Não nos calam.
Esquecem, eles, que somos filhas daquelas que foram queimadas vivas,
somos filhas de quem reza pra lua.
Filhas das matas, das águas e das mães.
Grandes mães.
Do vento, do fogo, das ervas que curam as dores que aparecem todo mês junto com o sangue vermelho vivo.
E das niñas que guardam o teu rio.
E como temos gritado aqui no Brasil, sabe?
Somos sementes.
Não tenho a mínima dúvida.
Floresceremos em multiplicidade, Berta.
Por que lutamos brava e incansavelmente por paz, pela terra, por igualdade.
Aqui, aí, onde for.
Em Honduras, honrando teu sangue,
No Brasil, chamando Marielle…
Nosso povo é semente.
Cárcere para eles.
Justiça para nós, mulheres.
No olhar de Bertita, que luta seguindo teus passos,
Vejo esperança.
Vive, Berta Cáceres.
VIVE.
Estela Rosa