por que querem sumir com corpos gordos?

Dispositivo criado por cientistas parafusa os dentes de pessoas gordas, impedindo-as de comer para provocar emagrecimento compulsório

⁣⁣⁣por Jéssica Balbino*
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Há algum tempo, bato insistentemente nessa tecla em todo lugar que tenho a possibilidade de falar sobre corpos: o termo “combate à obesidade” é violentíssimo, porque propõe um extermínio sobre estes corpos ~ e pessoas ~ que vivem neles. Em outros textos, já falei como a palavra obesidade não é bem aceita pelas pessoas gordas justamente porque patologiza nossos corpos, lendo todos como doentes, o que não corresponde a realidade. ⁣⁣⁣


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Ontem acessei uma pesquisa de um professor da Universidade de Otago (Um dispositivo intraoral para perda de peso: achados clínicos iniciais) que avalia os resultados de um dispositivo que é instalado e fixado na boca de pessoas gordas, entre os dentes, impedindo a ingestão de comidas solidas, já que permitiria apenas a abertura parcial da boca e dos lábios ⁣⁣⁣
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Sem entrar no mérito das múltiplas funções da boca que vão além de comer: respirar, falar, se expressar, sorrir, chorar, beijar, chupar, etc, o aparelho reduz corpos gordos a uma única causa: comida. ⁣⁣⁣
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A brutalidade de um instrumento que inclui um ímã que parafusa os dentes da pessoa, impedindo a abertura da boca mais parece tortura medieval me estarrece diante da constatação da desumanização de corpos como o meu ⁣.

Tal instrumento pode, num primeiro momento, lembrar a Máscara de Flandres, comumente usada em pessoas pretas escravizadas no Brasil a fim de impedir que eles pudessem falar e/ou ingerir alimentos, bebidas e até mesmo água. Feitas de chapa de aço laminada, eram trancadas com um cadeado atrás da cabeça, possuindo orifícios para os olhos e nariz, mas impedindo totalmente o acesso à boca.

O novo dispositivo permite a ingestão de líquidos e desta vez é voltado aos corpos gordos que, voluntariamente, se oferecem em sacrifício para os estudos do ímã, num vale tudo pelo corpo padrão ou magro.

Segundo a escritora Grada Kilomba, a máscara (de Flandres) também seria uma forma de censura à fala e à enunciação das pessoas escravizadas. Em um paralelo com a atualidade, entende-se que a mesma, aplicada aos corpos gordos, evidencia um desejo também pela anulação da subjetividade e do sujeito, a partir da limitação da fala e do corpo.


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É como se não existissem pessoas dentro do nosso corpo ~ e que este fosse apenas um amontoado de gordura. ⁣⁣⁣
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É exasperador pensar na violência com que somos tratados com a desculpa que “é pela sua saúde”, mas sabemos que a saúde de pessoas magras jamais é questionada, mas a nós, são impostos mecanismos de redução e desaparecimento a qualquer custo ⁣⁣⁣
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Prova disso – que é assunto e material pra outro post, é a questão do headless fatties, em que corpos gordos na TV ou em reportagens são vistos sem a cabeça, propondo a anulação total da subjetividade e do sujeito em questão ⁣⁣⁣
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Existem tantas camadas nessa discussão, que é até difícil estabelecer as linhas mais urgentes, porém, posso destacar que, quase sempre, estudos e pesquisas sobre corpos gordos partem de uma visão reducionista, eugenista e opressora. ⁣⁣⁣

⁣⁣⁣Daqui, sigo com a boca bem aberta, tanto pra me alimentar, quanto para todas as funções que posso ter com ela ~ sobretudo as de prazer. não vão sumir com meu corpo ⁣⁣⁣
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💬 e me conta: o que você acha do dispositivo e desse assunto todo?

Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.

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