Vertiginoso, Copo vazio marca estreia de Natalia Timerman no romance

Livro conta a história de Mirela, arquiteta que tomou um ghosthing do namoro e tenta lidar com o vazio que se forma a partir disso

Como encarar e lidar com o abandono? Essa é a grande questão da trama protagonizada por Mirela no livro Copo vazio, o primeiro romance de Natalia Timerman publicado pela todavia neste ano.

Estava ansiosa para ler, confesso. E só larguei o livro depois de finalizar. A escrita de Natalia é vertiginosa e a Mirela poderia ser qualquer uma de nós, mulheres contemporâneas. Ela é bem-sucedida como arquiteta, ganha prêmios, viaja, tem carro e apartamento próprios, amigos, vida social badalada, sabe dançar, bom gosto musical, gosta de ler, é bonita. Mas Mirela não tem mais, ao seu lado, Pedro. Seu namorado que sumiu, do nada. Sem mais, nem menos. Sem deixar bilhete, recado na caixa postal, mensagem no WhatsApp. Sem explicar o motivo. Qualquer motivo. Sem dar um beijo. Sem responder às mensagens. Ele só sumiu.

E é a partir daí que entramos na vida de Mirela e nos aproximamos. Estamos espelhadas através de um ghosting, que se alterna entre sensações de ‘queria muito que ele voltasse pra mim’ até sensações de ‘espero que ele morra de forma bem violenta por ter feito isso comigo’. E o que sobra mesmo são os sonhos repetidos que ela tem – haja divã para tanto – e esse furo, a ser preenchido. (Lacan, corre aqui!)

Queria simplesmente deixar de sentir; ou ao menos diminuir o volume. Quando andava de carro com o pai, olhava para dentro dos ônibus , via as pessoas e as invejava por terem uma vida diferente da dela. Qualquer uma. Ou as luzes acesas nos prédios no começo de noite, vidas cabíveis em si, as luzes tão dentro daquelas casas, onde haveria mesas postas de jantar, o som de talheres, e as pessoas, mesmo que tristes, estariam plenamente conformadas de que aquela era sua vida. É isso? Não, agora é diferente. Mas Mirela ainda não percebe como. Talvez suspeite que olhar de fora imprima à vida alheia uma película de completude; a ilusão de que, no outro, cada sentimento tenha sempre o tamanho certo.

A narrativa oscila entre o hoje, o antes e o depois. Percorremos o cotidiano de Mirela através de diferentes cenários – que nos são tão comuns, como o trabalho, as festas, as redes sociais, as viagens, as transas que terminam em mais solidão, o consultório do analista, o homem que joga búzios e promete seu amor de volta e algumas idas e vindas, muitos copos de vinho e latinhas de cerveja.

E o vazio tá ali. Mas não é de hoje. Como nos lembra Fabiane Secches na orelha do livro, ele pode ser encontrado em romances históricos e personagens como Dido, Medeia, Emma Bovary e Anna Kariênina. Eu diria que pode ser encontrado na vida de todas nós. O abandono acontece, sobretudo, em tempos de Tinder, Happn e outros aplicativos de encontros mais modernos que eu já não sei mais o nome. Acontece quando tomamos o temido ghosting, ou ainda, o mooning. Ambos formas violentas e irresponsáveis de lidar com o sentimento do próximo.

Nas páginas desta grande estreia de Natalia Timerman é possível um reencontro com nossas expectativas – o excesso delas, talvez? – sobre as pessoas, os relacionamentos, o eterno horizonte que buscamos alcançar, mas não chega nunca.

Estudante de psicanálise que estou, me peguei bastante envolvida com o livro, com a personagem e com o desejo dela. Bem como com as formas que ela encontra para lidar com o vazio deixado por Pedro. As formas como, de algum jeito, se vinga da ausência repentina dele. As formas como se perde. Mas, amei, sobretudo, a narrativa. A forma como o livro acontece. Como, através das páginas, Natália nos leva para um passeio por São Paulo – e uma viagem rapidíssima às minhas vizinhas São João Del Rei e Tiradentes, no Sul de Minas. E ainda, a forma como nos apresenta a vulnerabilidade brutal da protagonista e nos faz desejarmos um encontro com a nossa.

Copo vazio é um romance urgente. Assim como se faz urgente nos olharmos, nos encararmos e pensarmos sobre o que fizemos com nossos pedaços quebrados, como reconstruímos nosso copo e como estamos lidando com o nosso vazio?

Nessa leitura, ainda tô tentando entender o meu, mas, ao me ver espelhada na Mirela, através das palavras da Natalia, me sinto mais acolhida, talvez, para seguir nesse percurso, onde nem tudo que nos cerca nos basta.

Vale ainda, nesta resenha, um destaque para a capa, que foi feita pelas mãos de Julia Masagão e Gilberto Mariotii.

Resenha | Copo vazio
Autora: Natalia Timerman
Editora: Todavia
Páginas: 140
Avaliação: *****

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