Mazzaropi [“Tudo que acontece é para o melhor nesse melhor dos mundos.”]

Mazzaropi ["Tudo que acontece é para o melhor nesse melhor dos mundos.”]

Brisa de Souza* 

Amácio Mazzaropi foi um ator, humorista, cantor e cineasta brasileiro. Considerado o maior cômico do cinema brasileiro, é o único artista que ficou milionário fazendo filmes no país (e“produzindo” leite! Era também um dos maiores fornecedores da empresa Leites Paulista). Suas produções foram fenômeno de público por mais de três décadas. Filho de um casal de classe média, Dona Clara e Bernardo, um próspero dono de mercearia, cresceu sem problemas financeiros, mas com tanta preguiça (ou assim o dizem) que mal conseguiu terminar o ginásio. Mazzaropi era artista!

Aos 16 anos, fugiu de casa para ser assistente do faquir(1) Ferri, que passava por Taubaté; era homem comum em todas as horas do dia e faquir nos momentos de espetáculo. Ferri convidou Mazaropi para fazer alguns números nas entrecenas, no qual aceitou e lá se foi, como artista isolado e algumas vezes, ajudante de faquir, não só no palco, mas também na vida particular. O trabalho e a amizade ao lado de Ferri iriam criar casos incríveis.
Em 1940 montou o Circo Teatro Mazzaropi e Companhia Teatro de Emergência, e em 1948, vai para a Rádio Tupi onde estreia o programa “Rancho Alegre”. Com a estreia da televisão no Brasil em 1950, ele leva seu programa e torna-se um estrondoso sucesso. Os filmes de Mazzaropi, como o típico caipira, foi imortalizado no personagem Candinho, que se apaixonava por uma moça, saindo do campo para a cidade, retratando um pouco da malícia ingênua que era comum nos filmes brasileiros dos anos 1950.

Candinho é um filme de 1954, dirigido por Abílio Pereira de Almeida e estrelado por Mazzaropi. O roteiro é baseado no conto Cândido, ou O Otimismo, de Voltaire, cuja citação “Tudo que acontece é para o melhor nesse melhor dos mundos” é mostrada nos letreiros iniciais. Foi o terceiro e último filme de Mazzaropi produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz e distribuído pela Columbia Pictures. Em 2016 tivemos a releitura da mesma história na telenovela ‘Êta mundo bom!’ dirigida por Walcyr Carrasco pela Rede Globo.

Fundou a Pam Filmes – Produções Amacio Mazzaropi em 1958 e, a partir daí, passou a produzir e dirigir seus filmes, sendo sua primeira produção “Chofer de Praça”, em que ele emprega todas as suas economias para alugar os estúdios da Cia Vera Cruz e as filmagens externas foram rodadas na cidade de São Paulo, com os equipamentos alugados da Vera Cruz; como não tinha dinheiro para fazer as cópias do filme pronto, pegou o carro e saiu pelo interior afora fazendo shows, até conseguir arrecadar a quantia necessária; mais tarde comprou sua própria fazenda onde morava e fazia as gravações.

Em 1968, Astraugésilo de Ataide, então presidente da Academia Brasileira de Letras, escreveu um bilhete dirigido a Mazzaropi onde considerava que, “com Jeca Tatu e a Freira, Mazzaropi alcançou no cinema o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial”. Mazzaropi guardava o bilhete em um quadro sobre a lareira da sala.

Era um homem de grande capacidade e competência artística – cantava, dirigia, atuava, roteirizava, distribuía… Voltado ao povo, ao público, à arte, Mazzaropi passou uma vida se dedicando ao cinema e mais, à representatividade do Brasil como múltiplo; é o maior representante da cultura caipira e todo seu orgulho e glória, assim como sua simplicidade. Seu trabalho em fixar essa referencia é extraordinário e de se perpetuar como orientação do gênero comédia, dos Brasis interioranos e enquanto grande alusão às crianças da década de 50-60, que iam ao cinema assistir Mazzaropi.
Inclusive conheci tudo isso através da minha vó, que até hoje gargalha alto assistindo os filmes que tanto já assistiu.
Veja bem, Mazzaropi não é só herança cinematográfica ao país, é também afetivo.

Falece em 13 de junho de 1981, aos 69 anos de idade, vítima de câncer na medula, logo após iniciar sua 33ª produção, “Jeca e Maria Tromba Homem”. O império que construiu foi destruído pelos herdeiros após sua morte, com todos os seus bens indo a leilão, inclusive os filmes.
Abaixo, três longas na íntegra pra quem não conhece essa raiz:

https://www.youtube.com/watch?v=mLczK9zHgVw – Filme Completo – Betão Ronca Ferro
https://www.youtube.com/watch?v=TXxFzjcNxqs – Filme Completo – Jeca Contra o Capeta
https://www.youtube.com/watch?v=Zz9jMUde2GM – Filme Completo – Candinho

(1) Faquir é um asceta (pessoa que consagra autodisciplina) que executa feitos de resistência ou de suposta magia, como caminhar sobre fogo, engolimento de espada ou deitar-se sobre pregos.

*  escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_

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