RESENHA | A inquietação social na Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

RESENHA | A inquietação social na Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

por Tadeu Rodrigues*

Nas mãos, um colorido desprendido da norma, em meio à moda fotomontagem, buscando desavenças entre uma borboleta laranja em forma de olhos, um semáforo que impõe um sinal verde no lugar do vermelho, seios (e mais olhos), maçã cortada, escada, orelha e cores salteadas na mão de designers decerto bem preparadas para isso, com um amarelo no verso como se marcasse o texto de uma obra toda em um borrão monocromático: a capa do livro Suíte Tóquio, da escritora curitibana Giovana Madalosso, editado pela Todavia.

Para ouvir o episódio do Podcast #Rabiscos sobre o Suíte Tóquio com a Giovana Madalosso, clique aqui 

Numa ocorrência ousada e tácita (creio humildemente) em levar o leitor às garras outrora da boa apreensão do Tudo Pode Se Roubado, livro movimentado da Giovana que o precedeu, o pequeno quarto bem decorado de Maju, uma funcionária necessária aos patrões Fernanda, Cacá e Cora, mediante promoção da primeira a um cargo invejável que supõe ausência familiar e um encontro de si, ganha o nome do livro – porque é uma suíte parecida com os minúsculos cômodos bem arrumados de Tóquio.

A história se mantém como se despretensiosamente quisesse deixar um bom legado de frases emblemáticas e personagens seguramente confusos e estranhos, que emaranham de pronto a leitura ao andar de um sequestro da vítima criança Cora sob as mãos daquela funcionária querida, em uma artimanha licenciada poeticamente, que menos preocupada com a sua liberdade, em um iter criminoso que ainda não sonha, divaga: “Maju, por que meus olhos são tão pequenos e eu vejo um mundo tão grande?”

Base de a boa ideia de Giovana, as relações sociais fracassadas, angustiantes e erradas, enveredam por um mundo irritantemente real, quase uma dança dissonante entre um fado e um funk, onde passamos nada ilesos. A tantas foge dos corredores de livros que ensinam as pessoas a serem perfeitas, nas relações depressivas causada por coachs que vendem vitórias, sucesso e riqueza, como bem coloca o filósofo e escritor Byung-Chul Han em seu livro Sociedade do Cansaço, que nos enquadra numa caixa: Sociedade de Desempenho, contradizendo a sociedade disciplinar pintada por Foucault no século passado. Para encerrar a melodia, se Suite Tóquio fosse uma dança, seria a polga punk; mas isso deixamos para um outro momento.

Suite Tóquio é contramão. Tem passagens que selam o pouco medo da escritora em falar o que a personagem quer dizer, como um dos encontros amorosos, mostrando uma crença no amor em relações ditas como tortas e julgadas, como o adultério entre Fernanda e Yara, onde se destrata: “(…) pensando onde eu estava com a cabeça para pousar naquele lugar, mentindo para o meu chefe, para o meu marido, dizendo que ia acompanhar uma filmagem quando as gravações já tinham sido concluídas. Logo descobri que estava com a cabeça no meio das pernas”

De fluência fácil, o que não apequena a obra, até prefiro, o caráter da personagem raptora e suas nuances humanas que não a trazem como ente monodimensional, que tornaria raso o que foi contado, faz de Maju a minha preferida, ladeada de Fernanda e Yara. As dualidades de consciência dos demais, e a doçura da personagem menor (na idade apenas), embala capítulos curtos que, quase num fôlego, prendem a respiração na velocidade das frases diretas, que dizem o que querem dizer, sem firulas, e que escancaram pensamentos como se a conversa fosse entre personagem e consciência, sendo nós meros coadjuvantes curiosos.

Difícil continuar daqui sem mais revelações.

Privilégio do leitor que leu Suíte Tóquio, uma expressão da literatura contemporânea e que mostra a força que a escritora tem em contar boas histórias, livro para ficar no tempo sem se dissolver pelo imediatismo dos cliques.

Que venham os próximos.

* Tadeu Rodrigues é escritor e apresenta o podcast #Rabiscos

** O livro foi uma cortesia da editora Todavia 

 

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