mulheres gordas gozam 

mulheres gordas gozam 

uma reflexão para este Dia Mundial do Orgasmo 

por Jéssica Balbino*

mulheres gordas gozam. sim, eu sei que a informação pode parecer chocante a assustadora, afinal, no imaginário, elas nem transam. e, se encontram algum fetichista, é para serem objetificadas e não terem prazer. afinal, como pode um corpo desobediente sentir prazer? como pode um corpo imenso se encharcar de desejo? e mais: quem deseja estes corpos e goza com eles?

neste dia 31 de julho, conhecido como o Dia Mundial do Orgasmo – estabelecido na Inglaterra por redes de sex shops – uma busca rápida no google com o termo “mulheres gordas gozam” traz 3.250.000 resultados. nenhum deles é sobre prazer. todos são vídeos e fotos de sites pornô, novamente, fetichizando corpos e submetendo mulheres às práticas de bondage e sadomasoquismo. 

e a gente precisa, urgentemente, se perguntar: por quê?

⁣⁣a pesquisa mais recente do Pornhub – o principal site de pornografia no mundo – mostra que o termo BBW (BIG Beautiful Woman) subiu 5 posições entre as buscas mais populares. Só na Holanda o aumento foi de 340%. O Brasil é um dos principais países que consome este tipo de pornografia. ⁣⁣

logo, existe desejo, no entanto, dado de outra perspectiva e construção. existe um abismo entre admitir que este corpo goza – e faz gozar e que ele pode ser humanizado. ⁣⁣

por que, no inconsciente coletivo, nossos corpos são privados de prazer?

a idealização social não consegue estabelecer uma ligação entre corpos grandes e gordos e prazer. e, muitas vezes, nós, mulheres gordas, somos levadas a acreditar que não podemos/merecemos sentir prazer, a menos que ele venha acompanhado do que chamo de ‘desejo punitivo’, ou seja, só podemos gozar se estivermos, ao mesmo tempo, sentindo dor, ou vergonha, ou qualquer tipo de humilhação, exatamente como nos sentimos a vida toda, tocando nosso corpo – ou sendo tocadas – e acompanhadas de uma ideia tóxica de que há algo de errado em sermos como somos/quem somos. 

a sensualidade nos é negada desde que nos é imposto que nosso corpo é errado. entender a própria liberdade. o olhar e o julgamento do outro sobre nossos corpos, quase sempre, é violento é impeditivo, tomando-nos, na mais “generosa” das vezes, como doentes.⁣

entender nossa própria liberdade – que pode ser sensual, cheia de desejo e completa – é conseguir se desvencilhar das amarras – sobretudo mentais e ideológicas – que nos limitam de ter uma vida real e calcada no agora. ⁣

hoje, sou um corpo imenso – tal qual meu desejo –  grande, sensual e transbordante. há quem se pergunte: mas qual a necessidade disso e há quem se encontre e diga: como eu precisava disso. sem sequer saber que precisava. ⁣

mas, vem cá, responde – e não precisa ser pra mim, mas pra si mesmo – quantas vezes você desejou corpos como o meu? e quantas vezes você assumiu esse desejo? e, quantas vezes, você desejou tornar este desejo público? você sairia de mãos dadas com alguém que tem o corpo do tamanho do meu? apresentaria para sua família? levaria na sua roda de amigos? alteraria status na rede social? marcaria em fotos?

tenho uma urgência para falar sobre isso. porque somos corpos imensos, que se esparramam e, ao mesmo tempo, são invisibilizados. ⁣⁣

eu tenho pensado muito sobre isso e sobre como eu levei mais de 30 anos pra perceber que poderia existir mais do que resistência no meu corpo: existe desejo, sexualidade, sensualidade e prazer – pra além da culpa que tentam incutir. ⁣⁣

existe um corpo que precisa – e merece – ser celebrado, que tem muita pele para ser tocada e muito a viver e sentir para além do querer punitivo imposto pela normatividade sexual e dos corpos. ⁣⁣

o que incomoda, afinal, é o tamanho do corpo e não a nudez, a sensualidade e/ou o desejo.

contudo, mantenho a pergunta: o quão desejável este corpo é pra você? o quanto você usa da “questão de gosto” socialmente imposta para recalcar seus desejos? o quanto você desumaniza o que é fora de padrão? o quanto você rouba de prazer alheio? ⁣⁣

e você, pessoa gorda,  o quanto já reprimiu o próprio desejo e prazer? quantas vezes acreditou que não poderia/deveria gozar? quantas vezes você odiou seu corpo e acreditou que não merecia gozar com cada pedacinho dele?

eu queria, neste dia do orgasmo, trazer uma fórmula mágica de cura para tanta agressão que nossos corpos são submetidos, no entanto, ela não existe. o que eu aprendi, dia após dia, e levei muitos deles até aqui, é que nada pode ser maior que nosso desejo, sobretudo o de sentir prazer e de gozar. 

é urgente que nos livremos da culpa e nos apropriemos do nosso próprio corpo e prazer. e, nesta sexta, dia do orgasmo, é um momento propício para isso. percorrer o caminho da autodescoberta é sensacional e ele começa com o reconhecimento do nosso próprio desejo. e eu desejo muito que você reconheça e se aproprie do seu e não desista até chegar no clímax, porque nenhum corpo – inclusive os nossos, imensos – merece menos que isso. percorra-se! 

 

Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.⁣

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