“E a lata vai revidar.”*

“E a lata vai revidar.”*

por Brisa de Souza**

Como você cuida e fortalece seus amigues artistas? 

Lembro da primeira vez que assisti ao documentário Cidade Cinza, seguido de uma roda de conversa com os diretores, e meu peito se sentiu colorido. Porque a sensação de ter uma obra independente tomar grande proporção sobre o tema que vandalizam é radical. É enxergar os seus, representados de alguma forma, mesmo que não seja sua linguagem, o silenciamento, se atinge a um segmento, atinge a todos.
A higienização da classe artística nunca é só.

Em 2008, sob governo de Gilberto Kassab, a prefeitura de São Paulo iniciou uma política de limpeza urbana, pintando de cinza os muros da cidade; atitude grotesca que tomava pouca proporção e grande revolta até o dia em que o mural na Avenida 23 de Maio, pintado pelo Kobra foi vandalizado pela empresa contratada pela gestão; publicamente se manifestaram como sendo um engano da empresa acinzentar 680m de tela. Cinco meses depois, como reconhecimento do erro, a prefeitura incentivou que a obra fosse refeita.  Surge então, Cidade Cinza, como registro e manifestação à forma de utilização dos espaços: não só como mercado ou submisso à especulações imobiliárias, mas como quadro público, o direito de dizer.
Os artistas que participam do filme têm obras expostas em museus e galerias do mundo todo, afirmando também o paradoxo do que é considerado arte, e onde a arte é considerada arte, mesmo que seja o mesmo produto, mesma época e mesmo produtor.

Quem define a cultura, afinal? 

Em determinado momento, Nunca diz que vê o grafite ‘como único movimento que os jovens falam’; discordo dessa colocação enquanto ‘único’ mas concordo que seja uma fala marginal comum.  Marginal enquanto palavra de margem, enquanto contorno. Marginal enquanto acessível. Suburbano como ocupação. Subversivo. 

Assim como em outros tantos documentários sobre pichação, pixação e grafite, esse também direciona essa expressão como forma de burlar o sistema, que corre. Começa com uma fala d’Os Gêmeos dizendo o quanto quem passa pelas ruas e viadutos não se incomoda com qual tipo de intervenção os muros sofram – e, convenhamos, qualquer intervenção que qualquer um sofra. Até o momento que a expressão passa a ser maior que a indiferença. 

Sigo na linhagem de entendimento da arte urbana como expressão natural do homem, “a arte rupestre em sua locução moderna”; paredes, significâncias, cores, formas. O corpo que fala, tomando extensão em outras superfícies e suportes, argumentando sobre outros fluidos-tinta. É pôr o nome, gastar energia.  


Cidade Cinza é um documentário independente feito sob crowdfunding em 2013 com meta de arrecadar 83mil reais e tendo chegado a quase 100mil, apoiado por mais de 500 pessoas. Dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, contou com a participação dos artistas Os Gêmeos, Nunca, Nina, Finok, Zefix e Ise. Trilha sonora composta por Criolo e Daniel Ganjaman, se encaixa perfeitamente com toda direção de arte das filmagens.
 

Recomendo que assistam esse e outros filmes, documentários, longas e curtas sobre arte urbana e tantos outros declives, nacional ou não, afinal, a expressão é universal sob suas várias condições e camadas de tintas, de letras, de cola, degraus, sol e sombra. É o que conecta países, questiona modos e fazeres.
E se questiona fazeres, é importante que façamos. Sob câmeras, baterias, microfones, canetas, papeis e sprays. 

*Doum, Criolo.

 

**   escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *