Que país é esse?!

Que país é esse?!

por Brisa de Souza* 

“Somos tão jovens” é uma ficção de 2013, dirigida por Antônio Carlos da Fontoura, livremente inspirada na vida de Renato Russo, líder das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana.

Antes de tudo, elogio aqui o recorte que fizeram ao filme (pseudo) documentando a parte profissional de Renato invés de pautar sua vida pessoal, delineando sua trajetória entre 1976-1982 – inicio de sua carreira. Convenhamos, é muito mais humano retratar alguém dentro dos limites do que sabemos, certo?!

Vemos, obviamente, alguns traços da personalidade de Renato – burguês, mimado, pirracento, manipulador, sensível, sem limites, genial.

Não tenho muito a acrescer sobre fotografia nem direção artística porque o filme segue uma linhagem bastante crua, mas a interpretação de Thiago Mendonça é impecável. Sua voz e trejeitos são quase uma viagem ao tempo (eu imagino).

Renato levou à Brasília o punk rock em plena ditadura militar, e apesar de ser acobertado por toda sua gama de influenciadores do qual se cercava, disse tudo o que uma geração (e as subsequentes) queriam dizer – que país é esse? Parece um hino, não é?

Um hino feito por alguém que sentia, a sua forma e em seu tempo, as dores da censura, ainda que apesar e com aspas infinitas. 

Antes de assistir esse filme já havia escrito muitos textos sobre alguns outros longas e curtas esperando ocupar esse domingo, mas “Somos tão jovens” me tomou por inteiro. Nos faz acalorar que só é possível sair do estacionamento quando se está em movimento. 

Tive o prazer de, durante minha adolescência, acompanhar amigos que tinham bandas e todos esses ensaios assim como composições e festas – assim é ser jovem e dá vontade de ser ainda, todos os dias, todos nós. A possibilidade surgindo da impossibilidade, a arrogância se transformando em potência… Todos os encontros, amores, decepções, bebidas, cigarros, shows, namoros: tudo está no roteiro sem que percamos o foco da magnitude artística do Aborto Elétrico, Legião Urbana e, sim, temos também Capital Inicial.  (Recomendo que complementem essa apreciação com o documentário “Rock Brasília”).

É nostálgico pra quem nasceu entre as décadas de 80-90 e ainda é ativo! Essa mistura de sensações transforma a história em algo que precisa ser visto, ainda que eu não tenha achado o filme em nenhuma plataforma exceto youtube e então lidamos com vários anúncios cortando cenas, mas vale a pena, cada minuto da 1hora e 44minutos. Uma banda que teve um tempo tão pequeno ainda prova sua grandeza, mesmo que atualmente seja tão questionada.

De fato, o personagem não pode ser o cenário, mas também, como não ser?! O paradoxo da sua vida prática e da sua ideologia está lindamente registrado, Renato se inventou, quase que literalmente mesmo sendo tão sincero. Como escreveu Marcelino Freire, “Juro que tudo / o que eu escrevo / é verdadeiro. / O mentiroso sou eu.”. Renato talvez não concordasse, mas nunca saberemos. 

É inquietante, é irreverente, é jovial.

*  escrevo porque preciso ilustrar. fotografo porque preciso verbalizar. e produzo o processo porque gosto. mãe do Bento, lgbt, afro-indígena, anarquista, paratiense, autora dos zines “POR.TRAI.T., lado A”, “2B” e “Dois Peitos”. agradeço à vida pelas matriarcas que me criaram: nada seria desfrutável se não fosse por elas. agradeço à vida pelo que criei: nada seria continuável sem o parto. @brisadesouza_

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