RESENHA | Lírico e voraz, “A Casa na Rua Mango” é um passeio em busca de ‘um teto todo seu’

RESENHA | Lírico e voraz, “A Casa na Rua Mango” é um passeio em busca de ‘um teto todo seu’

Publicado pela primeira vez em 1984, romance da literatura chicana de Sandra Cisneros chegou este ano ao Brasil 

“Ela acha que histórias dizem respeito à beleza (…) Ela pensa que as pessoas que estão ocupadas tentando ganhar a vida merecem belas pequenas histórias porque elas não têm muito tempo e estão quase sempre cansadas”, é assim que Sandra Cisneros apresenta o próprio livro, “A Casa na rua Mango”, que chegou ao Brasil neste ano, com tradução de Natalia Borges Polesso, pela editora Dublinense

E é isso. Temos um livro com histórias sobre a beleza, muito embora esta seja, por vezes, triste e sobre violências cotidianas e em vários momentos podem nos passar despercebidas, especialmente, sobretudo se estamos ‘acostumados’ a elas por viver perifericamente também.

Mas, estamos diante de um livro belíssimo. Desde o projeto gráfico, numa edição de luxo, com capa dura (de Luísa Zardo) e cores estonteantes, Sandra consegue o que almeja: entrega histórias que conseguem dosar simplicidade e profundidade de uma forma única: poética, lírica e intensa. 

A protagonista, de nome Esperanza, cuja autora lembra que é ‘mais macio” se dito em espanhol ao contrário do inglês e sua aspereza, imprime um olhar ingênuo sobre o que acontece durante alguns anos que marcam o final da infância, a adolescência e o início da vida adulta na Rua Mango, com seus moradores, idas e vindas, histórias vivas e pulsantes e o desejo da protagonista, tal qual o da autora, de ter “Um teto todo seu” para escrever, muito embora ela saiba disso ainda antes de conhecer Virgínia Wolff e sua obra.

Confesso que o livro me ganhou já na apresentação. Com uma foto da autora na década de 1980, quando, inclusive, o livro foi escrito e publicado – e sim, demorou para chegar aqui – ela versa sobre quem era à época e quem se tornou, num exercício de escrita intimista, próxima e muito visceral, aproximando o leitor da literatura chicana ou chicano literature – nome dado aos autores que vivem nos EUA, mas escrevem sobre a América Latina

Já os capítulos se apresentam breves e, por vezes, sem necessariamente estarem ligados ao anterior. “Ela tem em mente um livro que pode ser aberto em qualquer página e ainda assim vai fazer sentido para o leitor que não sabe o que veio antes ou o que vem depois”, foi possível, como almejou a autora. 

“A Casa na Rua Mango” é um romance de formação para ser lido e relido. Revisitado, porque oferece uma intimidade que poucos livros, como os do mesmo estilo de tema, conseguem. Conhecemos a Rua Mango pelos olhos de quem vive ali, guardadas todas as proximidades entre a autora e a protagonista, tanto que ousaria descrever como autoficção. Pelos olhos e pela voz de Esperanza, conhecemos os moradores daquela rua, que abriga imigrantes, que inspira medo em quem vem de fora – e aqui, toda semelhança com qualquer quebrada – e não tem céu suficiente, mas, ainda sim, os moradores fazem o melhor com o que têm. 

A Rua Mango fica em um bairro pobre de Chicago, em que o maior sonho de Esperanza é ter uma casa, não aquela encontrada pela família, mas uma só dela. Não aquela, localizada num lugar em que os roedores entram pelos canos, em que falta água, comida e, por vezes, esperança num futuro menos sofrido. 

“Marin, sob a luz do poste, dançando sozinha, ela está cantando aquela mesma música em algum lugar. Eu sei. Está esperando um carro parar, uma estrela cair, alguém mudar a vida dela”, lemos num dos capítulos em que a personagem tem nome, diferente da “mulher velha e ela tinha tantos filhos que não sabia o que fazer”, que conta a história da família Vargas, cuja matriarca, abandonada, não consegue cuidar de todos os filhos. “Veja. É isso que eu digo. Não é de se espantar que todos desistiram. Só pararam de cuidar quando o pequeno Efren lascou o dentão num parquímetro e nem mesmo impediram Refugia de ficar com a cabeça entalada entre duas ripas no portão de trás e ninguém olhou nem mesmo uma vez no dia  que Angel Vargas aprendeu a voar e caiu do céu como um pãozinho de neve, como uma estrela cadente, e explodiu aqui embaixo na terra sem fazer um ‘ai’”. 

Mas o choque não fica só aí, através de uma lírica voraz, Sandra consegue nos contar a história de várias gerações de imigrantes, especialmente do México, que ocupam o país e não poderiam estar mais distantes do sonho americano do que ali dentro, mas o que marca mesmo é a proximidade com os moradores, tal qual só é possível em ruas como a Mango, de janelas próximas, de quintais abertos, de crianças soltas e, de algum modo, livres e vivas. 

Dominando o espaço, as crianças da Rua Mango, são, muitas vezes, as vozes que narram essas histórias de pessoas ordinárias, mas que se tornam extraordinárias quando olhadas pelo filtro de Esperanza. É ali, no caminho entre a escola, a loja da esquina e alguns quintais que ela encontra garotas que usam salto, que se preocupam em agradar homens mais velhos para ganhar 1 dólar, anda de bicicleta divida com as amigas e tenta buscar o próprio espaço como indivíduo. Muitas situações como abuso, violência doméstica são narradas com uma ingenuidade e fragilidade que deslocam, como o capítulo sobre o primeiro emprego de Esperanza. 

“e ele disse que nós podíamos ser amigos e que da próxima vez eu podia sentar ao lado dele no refeitório, e eu me senti melhor. Ele tinha olhos simpáticos e eu não fiquei mais nervosa. Então ele perguntou se eu sabia que dia era, e quando eu disse que não, ele disse que era o aniversário dele e se eu podia, por favor, dar um beijo de aniversário nele. Eu achei que podia porque ele era tão velho e bem quando eu estava prestes a pôr os meus lábios na bochecha dele, ele agarra a minha cara com as duas mãos e me beija bem forte na boca e não me larga”. 

Há uma crueza cotidiana que fica camuflada, de alguma forma, como nas nossas vidas e lembranças mesmo. É como se, de algum jeito, houvesse uma espécie de poesia naquelas dores todas. Nos comportamentos machistas e abusivos. Nos medos. Nas faltas de Estado, dos pais que falem inglês, de amor. 

Como as casas de qualquer quebrada, as da Rua Mango estão se despedaçando, tal qual seus moradores. Ora literalmente, ora com os sonhos fragmentados, os moradores daquele quarteirão transitam por entre o lixo, os carros abandonados, as mortes dos próprios sonhos, as mortes reais e as brutalidades impostas aos que são imigrantes. Jovens que deixam de ir à escola, chicanos que são mortos e não passam de corpos – e só, garotas que se vendem pelos próprios sonhos, que são sapatos, casas e amor. 

E no meio de tantos escombros,fantasiosos e físicos, Esperanza dribla a morte dos sonhos e encontra, ainda que em meio a muita dificuldade, formas de continuar. E nós, leitores, a seguimos por este caminho, que fica familiar, ainda que vertiginoso. E ela continua: “as pessoas que vivem nas colinas dormem tão perto das estrelas que elas se esquecem daqueles como nós, que vivem muito perto da terra. Eles não olham pra baixo, exceto para ficarem satisfeitos por morarem nas colinas”. E ela olha, pra baixo, pra trás, pros seus. E constrói o mais tocante nisso tudo: suas histórias. E são belas histórias. 

“O que temos em comum é a nossa ideia de que a arte deveria servir às nossas comunidades (…) Nós fazemos isso sem capital, exceto o nosso valioso tempo. Nós fazemos isso porque o mundo em que vivemos é uma casa em chamas e as pessoas que amamos estão queimando”. 

Resenha | A Casa na Rua Mango 
Autora:Sandra Cisneros
Editora: Dublinense
Páginas: 143
Avaliação: *****

1 comentário


  1. Ai que prazer que dá de ler uma resenha de um livro feito, traduzido, com projeto de capa feito por mulheres. Que delícia é ver a beleza mesmo na dor. Que delícia é poder conhecer textos fora do eixo EUA-Europa! Sem dúvida, fiquei com uma vontade louca de ler esse livro. 🙂

    Um beijo,

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