Culturas populares adaptam hábitos ancestrais durante os tempos de pandemia em Poços

Culturas populares adaptam hábitos ancestrais durante os tempos de pandemia em Poços

AÇÕES DA CULTURA POPULAR EM POÇOS DE CALDAS  no contexto da Pandemia 

Contextos e gerações das culturas populares em Poços de Caldas:

por Gabriela Acerbi*

Coletivos de cultura popular de Poços de Caldas estão, durante o contexto da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), alinhando as práticas ancestrais às transmissões via live.

RELEASE: AÇÕES DA CULTURA POPULAR EM POÇOS DE CALDAS  no contexto da Pandemia 

Contextos e gerações das culturas populares em Poços de Caldas:

Para compreender a formação das práticas denominadas “culturas populares” na nossa cidade, é necessário entender o contexto de formação do território mineiro como um todo, considerando principalmente os desdobramentos da configuração colonial e também os seus processos de escravização das populações negras trazidas do continente africano – e, em algumas localidades, também do controle das populações indígenas.  É importante ter em mente que já na metade do século XVIII, a região mineira reunia a maior concentração de pessoas escravizadas da Colônia. E que de acordo com os registros encontrados (Sousa, 2018), eram cerca de 174.135 indivíduos já no ano de 1786, representando 47,9% da  população total da capitania (estimada em 362.847 habitantes). Um panorama de formação do Estado mineiro, em que do período setecentista para frente, os africanos transladados para a região constituíam nada menos que 2/3 de toda mão de obra cativa.

Sobre o solo mineiro, precisamos ter a dimensão de que ele se forma a partir do tráfico de sujeitos escravizados (que chegavam pelos portos do Rio de Janeiro, principalmente vindos da África Centro-Ocidental) atuando na produção de café e plantações, além da mineração e ttrabalhos domésticos nas casas das famílias escravocratas. E que essas condições foram de intensa violência e brutalidade, manifestadas principalmente no sul de Minas Gerais: uma região em crescimento na época, que apresentava porcentagens, em termos de sistema de escravidão e presença das populações africanas ainda maiores, aproximando-se às condições de regiões como São Paulo e Rio de Janeiro.

Considerando todo esse contexto e suas consequências, a nossa cidade apresenta por exemplo, em termos de registro histórico oficial, celebrações na Capela de São Benedito por comunidades negras desde pelo menos 1904, onde esses protagonistas já exerciam ao som dos tambores, as suas rezas, sua devoção e seus conhecimentos ancestrais. Nesse sentido, destaco que ainda que Nossa Senhora das Águas de Caldas seja a padroeira oficial do município, com aparecimento datado da mesma época que São Benedito, foi ele, um santo negro, quem se tornou referência para a cidade. Só esse fato já marca a importância e o valor dessas manifestações e populações para nosso território, assim como a maneira pela qual elas resistiram a cada geração. Uma resistência que demonstra a importância em termos de conhecimento e tradição, e principalmente da força e da potência criativas das comunidades que permaneceram nessa terra ainda que submetidas a regimes de violência – garantindo que até os dias suas festas sejam realizadas e seus conhecimentos perpetuados.

Na sequência, enfatizo que não só as comunidades congadeiras, mas também outras práticas culturais populares compõem nosso município, trazendo múltiplos conhecimentos de matrizes africanas assim como heranças indígenas, dos antigos povos que ocupavam nossas terras antes da invasão colonial, como os grupos Cataguases. Práticas como a Catira, a Folia de Reis, as Romarias, considerando as variações dos catolicismos populares, carregam as marcas do encontro (assimétrico) de referências negras, indígenas e europeias, consolidando experiências rurais, caboclas e sertanejas. Entre tais composições, é significativo destacar também que temos na nossa cidade manifestações Caiapós, um conjunto de saberes de benzimentos, benzedeiras, mestres produtores de garrafadas, além da presença de erveiros e índios-raizeiros com suas práticas medicinais a partir das plantas e outras expressões espirituais de cura. Além disso, podemos reconhecer também o número expressivo de grupos musicais de samba e suas variações, como o pagode – com elementos percussivos das matrizes africanas e que compõem culturalmente (e artisticamente) nosso município há anos. Vários contextos artísticos que passam de geração a geração e que estão enraizados nas experiências ancestrais. 

E mais ainda, por um olhar mais contemporâneo, encontramos como parte dos arranjos mais recentes das culturas populares as experiências artísticas urbanas do município, que tem no rap, no hiphop, uma base forte de composição de trabalhos. Falo aqui de um contexto que traz também dimensões criativas das periferias poços-caldense, como a Zona Sul, e referências de culturas afro-americanas urbanas que politicamente, através da dança, das batalhas e dos bailes, pautam questões raciais e a dimensão do racismo estrutural no Brasil.

Nesse sentido, esse breve panorama tem a intenção de destacar que a trajetória do nosso município se faz a partir do conhecimento e da experiência de muitos mestres e mestras da cultura popular: os mais velhos e mais velhas que expressam de forma resistente suas culturas enquanto modos de vida, fé e práticas de cuidado com a comunidade. E que seus saberes estão nas casas, nos bairros, nas ruas, nos quintais, nos terreiros, nas matas, nas festas, nas cerimônias religiosas, nas igrejas, nas narrativas, nos cantos e também nos projetos que se perpetuam. E que além deles, temos uma juventude também atuante, que aliançada nos conhecimentos vindo dos antepassados, manifesta numa pluralidade de formas a perpetuação da arte, da resistência e da potência da criação.

Ações na Pandemia já realizadas e em andamento:

Durante a Pandemia, os segmentos das culturas populares seguiram atuantes e articularam alguns projetos que foram efetivados entre os meses de abril, maio e junho. São eles:

 

  • Live 1 – Primeira Roda de Congo em Homenagem a São Benedito.

 

A live foi organizada com o objetivo de celebrar a fé em São Benedito ainda que, dado ao contexto da Pandemia, a festa não pode ocorrer. A live aconteceu no dia 13 de Maio, às 16h e foi transmitida através do Canal “Estamos Aqui” – no Youtube e Facebook, uma plataforma utilizada para divulgar projeções, ações e a memória das populações negras do território poços-caldense. A live foi financiada a partir da organização de uma rifa feita pelo jovem congadeiro Renato Felipe Pereira dos Santos, que através dessa iniciativa organizou toda parte técnica e de transmissão, garantido uma qualidade artística para o projeto audiovisual. Durante a live, doações foram realizadas para compra de cestas básicas que foram doadas para as famílias congadeiras e também envolvidas em outros segmentos da cultura popular. A ação de doação se estabeleceu a partir do entendimento de que, dado o contexto de crise de saúde mundial, as dificuldades de acessos e garantias sociais estão ampliadas. A live teve um alcance de mais de 20 mil pessoas, a partir dos dados base das plataformas digitais.  

Ficha Técnica da Live: Produção, direção e concepção: Renato Felipe Pereira dos Santos / Assistente de Produção e Produção Executiva: Gabriela Cardoso Gonçalves / Produção e Organização: Congadeiros de Poços de Caldas / Presidente da Associação e colaboração cultural: Lilia Regina Clementino / Colaborador: Associação dos Ternos de Congo de Poços de Caldas / Renato Felipe Pereira dos Santos – Banjo e Vocal / Paulo César – Violão e Vocal / Pedro César – Violão e vocal / Anderson Lucio – Surdo e Vocal / Tiago de Paula – Tarol / Willian  Afonso – Surdo / Pedro Luciano – Surdo / Mestre Bucha – Ailton Santana – Locução e Vocal.

 

  • Live 2 – Primeira Roda de Samba de Caboclo

 

A primeira Roda de Samba de Caboclo foi uma iniciativa da Comunidade Afro-Ancestral organizadora do Tributo aos Orixás e do Encontro de Curimba de Poços de Caldas, que tem como presidenta Ana Maria de Paula, liderança na Umbanda. A live teve como objetivo destacar as manifestações afro-brasileiras, colocando em evidência seus conhecimentos e linguagens artísticas ancestrais. Para esta live, a temática escolhida foram as entidades caboclas, destacando sua ação em relação às “curas” e as dimensões espirituais de cuidado e resistência que compõem os cantos e rezas para caboclos – manifestações entendidas enquanto donos das terras brasileiras, nativos ancestrais. A live também aconteceu dado uma parceria com a Plataforma Internacional Ehcho (https://ehcho.org/) que financiou todo custo técnico de transmissão e produção. A live também proporcionou uma campanha de doação de alimentos, com distribuição voltada às famílias que compõem os terreiros e as comunidades afro-religiosas do município. A live apresentou cerca de mais de 9 mil visualizações e um alcance de 22 mil pessoas. Ela aconteceu no dia 07 de Junho de 2020, também via plataforma “Estamos Aqui” (Facebook e Youtube), além de ter sido retransmitida na plataforma artística Ehcho, que permitiu um alcance de transmissão em países como Canadá, Argentina e Reino Unido.

Ficha Técnica da Live: Raphael de Paula Ferreira –  Percussão e Produção / Débora de Oliveira Romano – Produção / Gabriela Cardoso Gonçalves – Percussão e Produção / Renato Felipe Pereira dos Santos – Percussão e Produção / Ericles da Cunha Estevam Luiz – Percussão e Produção / João Gabriel Moura – Percussão / Gabriela Acerbi Pereira – Percussão e Produção / Pedro Henrique Simões Delboni – Produção e gestão / Ana Maria de Paula Cruz – Produção / Sabrina Carvalho – Produção e cinegrafia / Lilia Regina Clementino – Colaboradora / Maria Augusta Clementino – Colaboradora / Maria Antonieta de Paula – Colaboradora / Silva Aparecida da Cunha – Colaboradora / Ile Asé Omi Talade – Colaboração e espaço para ensaio / Galpão Candeias (responsável Carlão) – Espaço para gravação da live.

 

  • Mapeamento dos fazedores de cultura popular para cadastro e ações de assistência social: 

 

Ação organizada pela Câmara Setorial de Cultura Popular através das representantes Maria Augusta Clementino e Gabriela Gonçalves, e que recebeu apoio da presidente da Associação dos Ternos de Congo, Lilia Clementino. A articulação iniciou um mapeamento dos fazedores de cultura popular para registro junto a Secretaria de Cultura, objetivando acompanhamento das situações dos agentes, suas dificuldades nessa pandemia e ações para garantir segurança alimentar e cadastramento no CADÚnico. Importante destacar que o mapeamento das culturas populares é previsto no Plano Municipal de Cultura e é aguardado pelo setor, visto que com a sua execução será mais fácil suprir demandas sociais do segmento e também incluí-los nas políticas culturais municipais, assim como estabelecer novos critérios para editais de fomento.

 

  • “Trajetória do Ofício de Benzer” – Mapeamento acadêmico voltado às experiências religiosas, sob responsabilidade da professora Giseli do Prado Siqueira.

 

Mapeamento que está sendo realizado pelo Grupo de Pesquisa/ CNPQ – Filosofia, Religiosidade e suas interfaces, da PUC Minas – campus Poços de Caldas. Identificação e estudo sobre o ofício de benzer no planalto poçoscaldense: religiosidade e saberes de cura. FIP 2015 / 10230- S2 – desenvolvida nos anos de 2015 e 2016 e tornou-se fonte de dados primários para o estudo de caso. Propiciou: Mapeamento religioso de manifestações religiosas de benzimentos e locais de culto das diferentes religiões na cidade de Poços de Caldas. FIP 2018/ 1153 – S1 – desenvolvida nos anos de 2017 e 2018 –georreferenciamento e geração de mapas conceituais

As pesquisas geraram desdobramentos, publicações e muitas descobertas. No que tange ao ofício de benzer: a) Trabalho de campo – visita e entrevista a todos(as) agentes do ofício de benzer, com submissão Comitê de Ética em Pesquisa e o parecer favorável, número CAEE: 43649215.1.0000.5137. b) Na fase exploratória, fizemos recortes para compreender os processos brasileiros de registro da cultura imaterial e como se aplicaria as benzedeiras/benzedores, concluindo com êxito. c) Ao revisitar os(as) agentes do oficio de benzer, percebemos que a pesquisa poderia ser ampliada e submetemos novamente ao Comitê de Ética em Pesquisa e o parecer favorável, número CAAE: 01575218.5.0000.5137 para catalogarmos as plantas utilizadas nos tratamentos (chás, banhos, patuás, etc.).

5) Coletivo em formação”Estamos Aqui” e  novos projetos:

Estamos Aqui é um coletivo criativo que atua organicamente desde 2018 e que nesse ano de 2020 passou a existir formalmente. O coletivo se comunica através do grupo de Cultura Popular poços-caldense e opera como uma rede de articulação e alianças voltadas às culturas ditas “populares” – negras, periféricas, tradicionais, rurais, caboclas, de matrizes afro-indígenas do sul de Minas Gerais. Nesse sentido, o coletivo atua e  Poços de Caldas mas incorpora ao seu trabalho também a vizinhança parceira de cidades como Alfenas e Machado. O coletivo se sustenta para preservação, manutenção e estruturação de ações voltadas aos fazedores de cultura que através dos seus modos de vida garantem a perpetuação dos universos culturais, seus conhecimentos e técnicas. Estamos falando de congadeiros e congadeiras, Associações de Ternos de Congo, grupos Caiapós, Folia de Reis, Catira, Romeiros, Terreiros e Comunidades religiosas de matrizes africanas, Erveiros, Benzedeiras, Índios-raizeiros e também grupos periféricos associados às culturas negras e urbanas como o Hip-hop, Samba e o Pagode.

Desde a pandemia, o Coletivo atua via reuniões virtuais e organiza ações como a Live do Samba de Caboclo, a produção e inscrição de projetos dos artistas do segmento no Editais municipais, também com discussões voltadas às questões raciais e também na articulação de campanhas de doações de alimento e assistência aos segmentos das culturas populares. Atua produzindo materiais audiovisuais artísticos, divulgação e articulação coletiva de ações. Atualmente, o coletivo atua em parcerias internacionais com a  Plataforma Ehcho, (https://ehcho.org/) que é um fórum e uma estratégia de articulação entre artistas brasileiros e internacionais, propondo ações e experimentações. 

Para acompanhar o trabalho do coletivo, os seguintes canais estão disponíveis:

https://www.facebook.com/docestamosaqui/

https://www.facebook.com/ehcho.org/

https://www.instagram.com/docestamosaqui/

  • O coletivo é composto por mestres e mestras da cultura popular, músicos, artistas, pesquisadores e pesquisadoras da cultura, históriadores, psicólogues, antropólogues, artesãos, produtores culturais, empreendedores, gestores, biólogues, fotógrafues, lideranças religiosas, cinegrafistes, técnicos, engenheires, congadeires e congadeires, capoeiristes, cantores, dançarines, enfermeires, comunicadores e educadores. É um espaço sempre aberto para novos participantes e interessados.

Gabriela Acerbi Pereira é antropóloga, pesquisadora, professora e produtora cultural. Atualmente é doutoranda em Antropologia Social pela UFSCAR, mestre em Antropologia Política e especializada em metodologia de pesquisa e o método etnográfico. Possui trabalhos de campo na área de políticas públicas e culturas populares sul-mineira (Poços de Caldas, principalmente), com ênfase nas relações entre política e subjetividade, considerando os campos afetivos e espirituais nas práticas culturais sul-mineiras e seus contextos coloniais. Tem experiência em elaboração e execução de projetos culturais (audiovisual, antropológico e de arquivo) e produção de conteúdo para revistas, periódicos e mercado editorial acadêmico. Atualmente é membra no coletivo Estamos Aqui – grupo que assina a autoria desse texto.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *