“E se?” – a urgência pelo debate sobre curadoria no mercado literário brasileiro 

“E se?” - a urgência pelo debate sobre curadoria no mercado literário brasileiro 

Quantas vezes deixamos de nos posicionar por medo ou melindre 

“E se eu disser o que penso e não for convidada para integrar aquele projeto?”. “E se eu endossar o coro de racista àquele organizador/curador e ele não me chamar mais para as festas privadas que faz?”. “E se eu parar de curtir os post daquela curadora e ela não me chamar mais para trabalhar de graça para ela no evento que ela faz?”. “E se eu disser o que penso e não for mais chamada para ser jurada de prêmios?”. “E se eu for eu mesma e perder os parcos acessos que tenho, mas espero ter mais, porque ‘e se”. 

Quantas vezes o “E se?” te impediu de se posicionar contra a barbárie? Contra projetos de genocídio? Contra projetos que miram, inclusive, a tua cara, a tua casa, a tua existência? Quantas vezes você se calou com medo de perder algum tipo de parceria, benefício e/ou regalia?

Quantas vezes o medo e o melindre nos impedem de criticar posturas opressoras e negacionistas porque ficamos na expectativa do ‘e se’ para aquele convite que pode chegar. Mas que também pode nunca chegar. 

Minha pergunta é: tais convites, prêmios e acessos valem mesmo nossa vida? Sim, porque, no final, das contas, estamos falando das nossas vidas. 

Quando a gente opta por silenciar diante de uma postura negacionista frente à Covid-19 que já vitimou mais de 20 mil brasileiros, estamos compactuando com o projeto político genocida do presidente eleito e com a eugenia proposta em suas falas e ações. 

Quando optamos por nos silenciar diante da escolha de homenageados que refletem preferências pela ditadura e são racistas, estamos compactuando com outros milhares de mortes. E negando-as. É desrespeitoso não só conosco, mas com as vítimas e familiares destas.

Quando aceitamos convites para integrar programações que privilegiam apenas homens – ainda que se digam homenageando mulheres – pessoas brancas, pessoas sudestinas e sulistas, pessoas, estamos compactuando com um projeto muito mais amplo e segregacionista. E, antes que me digam “mas é preciso ocupar estes espaços”, eu questiono: ocupar por ocupar não significa nada. Se não ocuparmos para sermos cavalo de tróia, só estamos servindo de isca e fazendo coro à cota que entenderam muito bem que devem cumprir, mas que se eximem igualmente quando falamos sobre prática. 

Quando aceitamos estar em espaços que promovem diferentes tipos de opressão – racismo, LGBTQIA+fobia, gordofobia, eugenia, etc – estamos concordando com tais posturas, ainda quem, intimamente, neguemos isso. 

E a questão é: queremos, de fato, estar nestes espaços? Queremos receber prêmios das mãos de quem zomba de mais de 20 mil mortos? Queremos falar para plateias em lugares que chamam opressões de mimimi? 

Ou queremos criar novos espaços, que sejam mais seguros e acolhedores e que celebrem a vida e suas pluralidades?

Vivemos no Brasil de 2020 e qualquer tipo de neutralidade não é mais tolerada. Desde a dos isentões que por antipetismo se abstiveram nas urnas no segundo turno até os ‘sim’ que dizemos em festivais e eventos que são segregacionistas, negacionistas e opressões em sua essência, mas se valem de imagens produzidas através de cotas para dizerem o contrário. 

Nos últimos anos presenciamos curadores que defendem Bolsonaro, booktubers se atracando para defender – e elogiar Olavo de Carvalho, pessoas à frente de festivais literários chamando de mimimi as críticas ao racismo explícito de William Wack e Donata Meirelles. A Flip insistindo em homenagear Elizabeth Bishop – depois de homenagear Euclides da Cunha e evitando defender seus frequentadores em um atentado gravíssimo à democracia durante a presença do Glenn Greenwald na programação paralela do festival, gente defendendo o golpe de 1964, gente se apropriando do discurso feminista, gente se apropriando da pauta racial, entre outros, para ganhar dinheiro e manter o status quo disfarçado de incentivo às artes e a leitura. 

É urgente que repensemos as formas de curadoria. Já tivemos, recentemente, curadores racistas que fugiram da Flip na madrugada após o registro de um boletim de ocorrência, curadores homenageando pessoas simpáticas ao golpe, curadores que vivem na escandinávia – porque só tem pessoas brancas em suas programações – curadores que são declaradamente racistas e gordofóbicos, entre outras posturas que me fazem pensar: por que o dinheiro está circulando por estas mãos? Por que seguimos endossando, autorizando e validando estes eventos como se fossem os únicos?

Por que seguimos fortalecendo a história única? Não nos faltam eventos que se fortalecem na contramão desta hegemonia eugenista, mas, por que insistimos em seguir adulando os que nos ferem e evitando favorecer os que nos representam?

O que precisamos entender sobre curadoria no ambiente literário e conservadorismo é o que problema não está somente na figura do curador. Não é uma questão da pessoa física. É macro. Esta crítica não é a A ou B do mercado literário. É ao sistema, que segue endossando um tipo de comportamento desprezível e a nós mesmos, que seguimos fortalecendo.

E me incluo em todas as perguntas que fiz neste texto, porque me faço-as diariamente. É claro que já estive em inúmeros eventos cuja curadoria não me é representativa. É claro que já trabalhei por dinheiro, contrariando meus ideais e posições políticas. É claro que já não me posicionei pensando no “E se…”, mas, reflito sobre isso constantemente e repenso os lugares em que quero estar. Os espaços em que quero fincar raízes e não só surfar na onda que está ali, pronta para ser dropada. 

Não tenho absolutamente nada contra a figura da pessoa física dos curadores – contudo, minha história e o que eu quero para minha vida não casam com tais posturas, por isso, minha recusa ou desinteresse em ocupar vários espaços. Para mim, literatura é algo muito sério. E é ao lado de pessoas que valorizam a vida, as liberdades, as individualidades e as pluralidades que eu quero estar.

Claramente, me custa muito caro ter este – e outros – posicionamentos, mas, é o preço que me disponho a pagar pela liberdade que quero saborear. 

Posto isso, te convido também a refletir: vamos seguir endossando tais práticas que nos negam a vida ou vamos criar espaços para fortalecê-la? No caso da segunda opção, estou abertas a convites. 

1 comentário


  1. Caramba, vc é de uma lucidez e coragem impressionante.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *