Eu prefiro morrer do que engordar na quarentena

Eu prefiro morrer do que engordar na quarentena

por Jéssica Balbino* 

É claro que eu tenho medo de morrer. Mas que pergunta! Todo mundo tem, não? Ainda mais agora, com esse vírus por aí, né? Mas eu tomo cuidado. Desde que as baladas foram proibidas, eu não saí mais de casa.

Ah, mas ir correr não é furar a quarentena, né? Eu preciso gastar energia, além disso, já não dá para fazer o crossfit, apesar de continuar pagando a academia, se eu não for correr com a turma, vou virar uma porca gorda. Já pensou? kkkkkkkk. Deus me livre ficar uma gorda por causa da quarentena. 

Lógico que eu tenho medo de ser infectada, mas eu só corro com o Kayan, o Lucas e o Fernando. E as meninas, né. Mas só vamos nós. Não tem perigo. A gente toma cuidado.

E outra, com 31 anos e ativa como sou, mesmo que eu pegue esse coronavírus, as chances de eu morrer são bem pequenas. Menos até do que se eu ficar gorda, né. 

Eu li na internet que as pessoas obesas têm mais chance de morrer. São doentes né. Agora, imagina eu, euzinha, Maria Clara, com meu histórico de atleta. Impossível.

Se bem que, dia desses, fiquei preocupada.  Fui experimentar aquela calça nova da Farm e tive um pouco de dificuldade para fechar. Também, pudera. Nos primeiros dias de quarentena eu não segurei a onda. Fiquei fechada no apartamento, comendo. É o que as pessoas sedentárias e infelizes fazem, não é?

Sem poder ir para o treino, acordei às 5h30 e fiquei revirando na cama. Fiz meus seis ovos, comi, mas, meia hora depois, a vontade que eu tava de comer chocolate era insuportável e, quando vi, já tinha aberto o ovo de Páscoa que ganhei do Fernando e comido praticamente inteiro. Ansiedade, né. 

Quem aguenta a TV ligada 24h por dia falando desgraceira, as redes sociais entupidas de gente choramingando e a Bárbara naquele mimimi de autoaceitação, expondo as banhas no Instagram como se fosse algo bonito. Perdi a linha, mas, foi só lembrar da última foto da Bá que parei de comer imediatamente. Até guardei o pedacinho. Meeeeu, como ela tem coragem? hahahaha

Eu dou risada. Porque é muito feio. Falta senso, né. Eu penso assim, quer ser gorda, tudo bem? Mas precisa ficar fazendo apologia à obesidade? Qual a necessidade disso, sabe? Você sabe qual é a foto que eu tô falando, né? 

É ela, praticamente pelada, cheia de pelanca, a barriga imensa aparecendo e um textão cheio de coisa, querendo lacrar. Ai, que preguiça, viu. Por que não levanta aquele rabo gordo e enorme do sofá e não vai malhar? 

Eu só não paro de seguir porque pegaria mal, afinal, quando tudo isso passar, vamos ter que nos encontrar, né. Mas, confesso que tenho vontade. Não dou conta de ficar vendo aquelas fotos não. E outra coisa, ela só fala disso. Antes ela era mais legal. Quando ela gostava do Nelson e postava mais coisas sobre música, literatura, teatro, eu até gostava de seguí-la, mas, desde que eles romperam, ela começou com essa história de feminismo, depois de gordofobia e tudo é fobia. Daqui a pouco, quem não aceitar as merdas dela vai ser chamado de Barbarofóbica. hahahhahaha. Mas não é?

E sabe o que é pior? Tem gente que curte. Ou finge, né. Porque eu duvido. Du-vi-do. Duvido que alguém ache aquilo bonito. Aquelas tetas caídas dela, aquela barriga imensa, aquelas fotos toda lacryany na praia, acha que convence quem? E agora na quarentena, deve estar se matando de tanto comer, sozinha em casa. 

É, ela terminou com o Nelson e duvido que conseguiu sair com outra pessoa. Acho que ela virou sapatão e andou pegando a Flávia. Como assim? Não sabe? Você não acha que elas se pegam? Eu super boto fé. Até o Fernando já veio falar. Ele me mandou um print uma vez, de uma foto delas, super coladinhas na balada e falou: – Maria Clara, você não acha que a Bárbara e a Flávia se pegam? Aliás, você e a Flávia já se pegaram? 

Eu fiquei meio pá, né amiga. É meu boy perguntando se eu já peguei a Flávia. Olha pra mim, né. Não, não que eu seja quadrada. Nem homofóbica. Ah, você também? Já não basta a Bárbara com esse papinho chaaattooo de corpo, agora vem você querer dar lição de moral. Não tenho nada contra ela ser sapatão, mas eu não gosto, ué.

Eu já pensei em ir numa balada de swing e beijar uma mulher para agradar o Fernando. É o sonho dele, né? Tô pensando em ir no aniversário dele e fazer uma surpresa. Mas, eu quero escolher a mulher. Tem que ser uma que eu goste. Eu acho mais bonita mais branquinha assim, igual a mim, sabe? A Flávia é bonita, mas não me atrai desse jeito, amiga. Não, não tem nada a ver, mas eu acho o mamilo dela muito escuro, sei lá. 

Então, mas deixa te falar. Você acha que ela já beijou a Bárbara? Será que ela ia ter coragem? Ai, por que né, amiga? Parece que você não enxerga o tamanho da Bárbara. Tô aqui faz tempo falando sobre isso e você me pergunta  por que. risos. Eu, se fosse homem, não teria coragem de beijar ela. Tenho nojo daquela barriga cheia de banha. Ai, amiga. Para. Parece que quer ficar defendendo. 

Claro que eu gosto da Bárbara. Ela sempre me ajuda quando preciso com as coisas da agência. Eu acho ela super inteligente. Mas agora sou obrigada a achar bonito ela ser obesa? Não sou. Não me desce esse papinho de autoestima, de plus size, de amor próprio. Pra mim, isso é preguiça. Veja bem, tô aqui, toda preocupada porque minha calça nova quase não fechou. Com medo de ficar gorda. Com medo de ser rejeitada. Não é por mal, mas você não acha que ela poderia ser melhor? Até acho que ela tem um rosto bonito. Precisa de se cuidar mais, né. Aplicar um botox. Eu mesma, já fiz vários. Você, né? Não custa, gente. Levanta aquele peito. Eu, depois que operei, o Fernando ficou louco. 

Ah, amiga. Homem gosta de mulher com tudo em cima, né. E eu já tô velha. Tenho 33 já, né? Daqui a pouco, tudo despenca. Por isso fico nesse esforço. Meu pai comprou pizza segunda-feira e quase me obrigou a comer o segundo pedaço. Tava maravilhosa, né? Mas se eu descambo, é o que eu te tô falando, onde eu vou parar? Eu queria ficar subindo e descendo as escadas do prédio pra substituir os treinos, né amiga, mas o síndico proibiu porque tem gente com suspeita de Covid-19 no prédio. Adivinha se não é alguma velha. Só pode. Acho injusto pra caralho que eu seja penalizada por causa disso. Porque olha, parece radical, amiga, mas eu juro. JURO. JURO PELAS DEUSAS, que se eu engordar, eu me mato. 

Claro que eu tô fazendo dieta, mas nessa ansiedade, não consigo, né? Sem falar que eu não tenho a injeção de adrenalina dos treinos, não tenho o frio na barriga quando eu vejo o gostoso do Julian. Que personal, né? E ainda tem o Fernando, que foi pro interior cuidar dos pais idosos e nem transando eu tô. Como que não engorda? Me fala. 

Cê acredita que eu vi até a Ivete Sangalo falando sobre isso? Pois é, amiga. Ah, ela postou um meme. Como que eu vi? Eu sigo ela, MA-RA-VI-LHO-SA, né, VIADO! Mas, advinha quem já meteu textão criticando? Claro que é a Bárbara. 

Amiga, cá pra nós. Você não acha que se ela se aceitasse gorda como ela diz, ela ia ficar falando só disso? Tá na cara que ela não se aceita. É fingimento. Primeiro porque não tem como. NÃO EXISTE alguém se sentir bem assim. 

Eu já falei, mas repito. Eu prefiro morrer do que ser daquele tamanho. Como será que ela faz pra amarrar o tênis? Não aguenta andar um quarteirão, não deve caber nem na privada, entala na poltrona do avião. Transar deve ser um martírio, não gosto nem de pensar. Aí vem pagar de felicidade. Não tem como ser real isso. 

Não é preconceito. Não existe esse lance de gordofobia. Isso é mimimi. Eu era chamada de branquela azeda na escola. Fiquei traumatizada? Claro que não. Todo mundo tem inveja do meu corpo. Por isso que eu tô falando. Não dá pra ceder aos impulsos, nem na quarentena. É absurdo, amiga. 

Eu derrapei e comi uma panela de brigadeiro domingo. Mas também, eu tô com muita saudade do Fernando. Ele fica longe, a gente fica meio sem assunto. Até da Bárbara a gente falou. Ele veio me dizer que gostou do poema ela. Eu fiquei puta. Como assim? Desde quando recalque é poema? Eu fiquei puta com ele. Veio me dizer: a Bárbara é engraçada e inteligente, né?

Me poupa. Até chorar eu chorei, amiga. Por isso, fiz uma panela de brigadeiro e comi inteira. Maldita quarentena. Eu não posso sair, não posso ver minhas amigas, não posso ficar com meu namorado e ainda sou obrigada a engolir ele elogiar a Bárbara? Como que eu vou cuidar do meu corpo? Porque né? Se eu ficar uma baleia, como ela, como o Fernando vai me querer?

Por isso eu preciso casar logo. Fisgar ele foi muito difícil. Agora, se eu tiver que disputar com uma gorda, prefiro morrer. Eu também acho ela engraçada e inteligente, admito. Mas é gorda, amiga. Deus me livre um dia ficar uma leitoa como ela. 

Ah, para, vai! Não é desumano. Não estou desumanizando ninguém. Mas tenho medo de ficar entediada, comer demais e acabar como ela. Se eu não tiver meu corpo para exibir, vou mostrar o quê? Você sabe que até o Nelson, quando tava com a Bá, me xavecou, né? Você acha que ele faria isso se ela fosse gostosa? Claro que não. Não entendo como ele namorava com ela. Mas ele me mandou mensagem. Me elogiou. Eu gostei, lógico. 

Por isso que eu estou te dizendo: prefiro morrer a ter uma barriga como a dela. Como que vive sendo uma porca daquele jeito? Eu prefiro ser atacada durante a pandemia do que sair na rua com essas dobrinhas que já estão aparecendo. 

Meu pai falou: Maria Clara, a pandemia só vai acabar no verão, relaxa. Mas me fala, amiga. Imagina se eu chego no verão, justo no verão, com esse corpo gordo que to criando. Morro de medo de ser julgada. Mas tô sem saber o que fazer Que nervo! A academia tá fechada, sem previsão de reabertura. Como fico em casa, aguentando a saudade do Fernando, a falta dos amigos, sem comer?

O tédio me corrói. Tenho vontade de jogar tudo pro alto. Mas será que o personal furaria a quarentena por mim? Eu cheguei até a pensar em xavecá-lo. De repente, convidar pra algo a dois e aproveitar para fazer um treino antes. Mas já vi que ele tá usando máscara e eu me recuso a fazer isso. Já imaginou, amiga, sair com aquele trem horrível na cara? Ah, nem a pau. 

Eu tenho vontade, amiga, de jogar tudo pro alto. De sair sem máscara, sem álcool gel, sem nada. De correr no parque. De tomar um doce e ver o pôr-do-sol. De respirar, sabe? Essa pressão toda tá me sufocando. Eu não consigo mais respirar direito. Não, não é por causa da máscara. Nem por causa do presidente. Nem vejo o que ele fala, senão, fico ainda mais ansiosa. É o Fernando, né. É a Bárbara. É o medo de engordar na quarentena, de não caber nas roupas que ainda não usei. 

O que eu vou fazer se isso acontecer?Olha, pra mim já deu. Pra não ser uma porca gorda, eu preciso me esforçar. Quarentena não é férias. Eu não conheço ninguém que tenha morrido com a doença. Até ouvi dizer que foi criada em laboratório, será que é verdade? Além disso, só atinge velhos e pessoas gordas e, pra não engordar, eu preciso me cuidar. 

Não sou nem uma coisa, nem outra, mas, se continuar noiada em casa, sem mexer o corpo, vou acabar obesa e aí, ter o risco de morrer, né? E a gente já sabe que o segredo é parar de comer e mexer o corpo. Aliás, é mais importante mexer o corpo, assim, quando eu estiver com saudade do Fernando, vou poder comer meu bombom sem culpa, porque vou ter me esforçado o suficiente para isso. 

E te digo mais, amiga,eu vou sair melhor dessa, você vai ver. Mais sarada. Mais desejada. Eu vou conseguir. Porque se for pra engordar, é melhor nem sair. Fodaaaaaa-sseeee a viiiidddaaaa! Eu não queria admitir, mas depois disso tudo que falamos aqui, eu tô te dizendo, amiga, meu maior medo, nessa quarentena, não é morrer, é engordar. 

 

  • Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.

4 Comentários


  1. Adorei o texto. Mesmo a repetição de frases e ideias serve pra fixarmos o medo da personagem, e justifica-se por dar a entender que é uma possível conversa telefônica, ou virtual, com a amiga. Critica ácida.

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  2. Falas reais de muuuuiita gente por ai, infelizmente. Um texto muito bem escrito, crítico na medida. Parabéns Jessica, sempre nos levando, ou melhor, nos arremessando às reflexões mais do que necessárias,

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  3. Texto fantástico!!! Fala de muitas Marias ignorantes e preconceituosas, famosas e simples mortais.
    Reflexão belíssima.
    Reflete infelizmente, a falta de empatia.
    Parabéns!!!

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