Um Sopro de Vida

Um Sopro de Vida

por Tadeu Rodrigues* 

Viver é um risco. E a nossa vida abraça clichês e passa como um sopro, e tem a esperança, que é a última que morre, e tem o viva o presente, e tem a vida que é só uma, e viva o presente de novo, e não sabemos o dia de amanhã, e não se arrependa do que faz; e variações profundamente rasas do que nos consola enquanto finitos, enquanto quebradiços, enquanto vertebrados.

A onomatopeia  do sopro é o quase silêncio. 

A vantagem de ser escritor é (__preencha aqui com o seu ego__) que não há tantas vantagens. Mas o ser Deus seduz. Por que você matou ela? Não: por que você a matou? Agora sim. Luta de espadas sentimentais e gramaticais, afogada na sensação de história contada ou punhal no peito que corta tanto que parece que não fomos feitos para viver.

Às vezes escrever é só um ato de organizar palavras costurando pensamentos e bebendo ideias. Não a mercê de um cachimbo esbaforido com a biblioteca clássica exibindo capas do Séc XIX; Tolstói, Flaubert, Tchekhov, George Eliot, Herman Melville, Dickens, Dostoievski entre alguma edição ou outra da LP&M.

Estado íntimo, e Clarice ensina bem, é não servir para mais nada de modo prático. Para que serve um livro? Vão nos perguntar os exatos.

Clarice está fraca em Um Sopro de Vida, esse livro não tão extenso publicado com ela já morta.

Clarice está forte em Um Sopro de Vida, como em nenhum outro livro seu.

Escreveu amarrada ao fim. Com menos feições esnobes  que o tempo deixa, esperteza dela.  

A vida é um sopro, sério, Clarice? Esse é o título? Maldito clichê. Maldita Clarice. Bendita Clarice. Odeio te amar (touché cliché).

Mas por que tantas? Por que só uma?

Clarice está angustiada enquanto fala comigo. Sem maquiagem e bonita. Como as escritoras e os escritores são, bonitos.

Ela está tentando e nunca chega. Não sacia. Pré-orgasmo. O dom de se inacabar. Esperar algo que nunca vai se ter. Não há um motivo. Somos essências descabidas do extravasar; do transbordamento que emprestamos sem volta à morte, que se finge, mas só os artistas. Como um vaso que quebra sem a flor é menos desperdiçado. 

O livro é ela.

Pelas esquisitices, um livro publicado após a morte é honroso, para que ela não precise suportar o peso de se ver violada nas mãos comerciais das livrarias, pagando algum preço por aquilo que ela julgava ser seu bem mais valioso. 

Acho que foi um milagre, Santa Clarice. Sua bíblia. Uma autobiografia não autorizada que você a vestiu  com um romance sem dó.

Olga Borelli que nos diga. Caco a caco a juntou. Haveria de dizer mais se ainda viva? 

E acredito que não porque Olga diz:

“Para Clarice Lispector, minha amiga, Um sopro de vida seria o  seu livro definitivo. (…) este livro, de criação difícil, foi, no dizer de Clarice, ‘escrito em agonia’,  pois nasceu de um impulso doloroso que ela não podia deter.”

Cadê A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H. e Laços de Família? 

Prefiro o seu (sub)mundo. E a prefiro quando diz:

“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém.  Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que  a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.”

Viver é falhar. E se ao falar sobre o seu sopro de vida eu falho, é porque cheguei lá.

 

foto de Marc Dourdin e Flávia Machado

*Tadeu Rodrigues é advogado, escritor e podcaster.

Ensaio Literário

Livro: Um Sopro de Vida

Autora: Clarice Lispector

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