toda pessoa gorda é doente, certo?

toda pessoa gorda é doente, certo?

não. errado. mentira. nem toda pessoa gorda é doente assim como nem toda pessoa magra é saudável. um dos mitos mais perversos é o da saúde, que permite justificar toda e qualquer forma de discriminação e violência contra a pessoa gorda em nome de um bem-estar coletivo e imaginário.

vamos lá. eu sou uma mulher gorda. segundo o IMC, eu me encaixo na categoria de obesidade mórbida. e não existe nada, absolutamente nada, que uma pessoa magra faça que eu não consiga fazer – e que não exija anos de treino e habilidades específicas, obviamente. logo, não sou, este termo horrível designado a quem esta acima de uma categoria inventada apenas para oprimir: mórbida. eu ando, corro, me exercito, durmo, prático atividades, trabalho em horas iguais ou superiores às de muita gente e, pasmem: não sou preguiçosa, indisciplinada e/ou comedora compulsiva. aliás, foi preciso muita disciplina para trabalhar 10h por dia, viajar 4h, estudar, me alimentar com um pão de queijo ou uma salada de frutas e concluir um mestrado, por exemplo.

e foi preciso força de vontade também para chegar aqui. e é mais difícil lidar com as ofertas não solicitadas de médicos, ‘amigos’ e estranhos sobre como é bom fazer uma cirurgia bariátrica, mutilar o próprio corpo, sofrer pelo resto da vida com problemas de saúde para, vejam só, ter um corpo magro, que, claro, é lido como saudável, não importa a quantidade de cocaína cheirada na noite passada, os litros de uísque exalando nos poros, a quantidade de gordura trans ingerida ou o tanto de nicotina inalada. importa o que aparenta ser. e se for magro, é saudável e sem pecados. mas, ai de quem for gordo. ou obeso – essa palavra médica indicada para quem já não é mais aceitável e deve, ou se tratar, ou vai morrer. curioso é que os exames dizem o contrário. todas as taxas dentro do que devem estar. sem colesterol. sem diabetes. sem dores físicas. não, não como doce. pois é, não gosto muito. meu almoço? foi salada, arroz, feijão e carne. é. como quase de todos os brasileiros. mas tem que se cuidar, fazer exercício. pois é, mas eu faço. não beber todo dia. não, não bebo. mas tem que se amar. mas eu me amo. me cuido. faço análise. exercício.

ah, mas você ainda é nova, quando tiver 60 anos, as doenças vão começar a aparecer. diabetes, pressão alta. colesterol. ah, mas pessoas magras não tem essas doenças? bem, tem. mas o índice é muito maior em pessoas gordas. ah, sim. quanto? não importa, mas de você não se cuidar, vai ficar pior. mas eu to bem. ah, agora, que você tem 30 anos. mas eu me cuido. mas tem que emagrecer. não pode comer tanto. mas eu não como. e bariátrica? a filha da vizinha da minha prima fez e está ótima. não come mais, mas emagreceu, está linda. que bom. mas eu me acho bonita assim. ah, mas … e esse mas, na verdade, é o que usa a falsa preocupação com a saúde pra justificar o nojo e asco de pessoas gordas (também chamado de gorosofobia).  não importa o quão saudável você seja. o quão saudável seja sua vida, sua alimentação e seus hábitos.

e claro, as histórias de ‘superação’ do corpo gordo sempre aparecem. especialmente nos comentários da rede social. a primeira coisa que gordofóbicos farão – não importa quantas pesquisas eu apresente refutando o argumento – será dizer que tudo que eu pesquisei e disse é mentira. desacreditar.

a segunda coisa – e não menos patética – vai ser usar uma experiência pessoal, que aconteceu consigo mesmo ou com alguém próximo, dizendo como era gordo e sofria com vários problemas (ok. isso acontece. mas não é inerente às pessoas gordas, senão magros seriam imortais e não seriam afetados pelas mesmas doenças, vejam só) e aí, resolveu se cuidar – porque, claramente, uma pessoa gorda não se cuida. é sempre negligente, desleixada é preguiçosa, vide o senso comum) e, ‘se cuidando, está muito melhor e mais feliz’ (ok. que bom. e tem quem esteja feliz e bem gorda. experiências são individuais e subjetivas).

a terceira coisa – e mais bizarra – serão os que vão atacar dizendo que é mentira. que a pessoa em questão é doente sim. e que faz isso para chamar a atenção. e que ela dúvida/tem certeza que esta pessoa não se ama nada. e mais: ninguém é obrigado a achar gordes bonitos. que é questão de gosto. e que a pessoa deveria emagrecer sim, afinal, é ofensivo ter que olhar pra ela.

a quarta coisa. a quinta coisa. a milionésima sétima coisa. a infinidade de absurdos vai sempre dar conta de escancarar a hipocrisia, o nojo e o medo que o mundo tem do seu corpo, não importando o quão saudável, feliz e celebrativo ele seja. haverá a data de comemorar a prevenção da existência de corpos como seu, mas nunca de celebrá-lo como ele é. e talvez, isso seja pior à sua saúde do que aquela única vez que você misturou batata com arroz no seu prato ou comeu aquele pedaço de pizza e depois se arrependeu, com medo de engordar ainda mais, de não estar se esforçando o suficiente para ser magra como desejam. e talvez, nunca te digam ou validem o que você já sabe: seu corpo é assim por fatores genéticos, metabólicos, emocionais. e tá tudo bem. você é saudável e ter um corpo fora do padrão, um corpo gordo, não é crime ou pecado, por mais que tentem te convencer do contrário. e você não precisa prevenir que você mesmo exista, veja só.

se o seu corpo não corresponder aos padrões esperados, além de ter o seu direito de ir vir tolhido, a sociedade vai te por na caixinha das pessoas doentes e não necessariamente seu peso ou seu corpo, mas este preconceito opressivo e limitador é o que vai te adoecer.

hoje ‘comemora-se’ o Dia da Prevenção à Obesidade e eu fico perguntado: por que prevenir algo assim? E como? Já que os hospitais não tem macas que suportam nosso peso. já que fazer um exame de sangue para entender de onde vem a calvície é lidar com perguntas sobre quantos big macs você comeu no café da manhã. já que, ao buscar um atestado para fazer atividades físicas, você pode ser questionada se ama bolacha recheada e pudim. não. eu nem gosto de doce, menos ainda de bolacha. eu só quero me exercitar. mas nada comporta. logo, te impõem um “cuidado” com a saúde, mas nenhum sistema de acolhe para tal e a única conclusão é que tais datas e processos só existem pra te exterminar aos poucos. pra te anular enquanto pessoa. pra te desumanizar enquanto corpo. que além de não poder existir, se desafiar isso, carregará o estigma de doente. que pode nunca ser e/ou se manifestar. mas carregará. e quanto a dias preventivos, penso que seriam mais eficazes se prevenissem a desigualdade social, a morte da menina Agatha, da jovem Amanda Rodrigues que morreu após uma bariátrica, da Dielly Santos, que tirou a própria vida por não aguentar as ofensivas contra seu corpo – gordo é saudável. então, já que vamos prevenir algo, que seja a fome, que atinge 5,2 milhões de brasileiros. nem todo gordo é doente, mas a sociedade que impõe esse estigma, é sim. e peloamordedeus, já que estamos falando em prevenção, vamos prevenir esta falácia que é dizer: estou preocupado com a sua saúde, emagreça. ninguém está preocupado com a saúde de ninguém. isso não existe. e se estiver, os hemocentros recebem doação de sangue e de medula diariamente, é só fazer a sua parte.

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