20 violências gordofóbicas-  uma pra cada quilo ‘a mais’  – que a Cleo nunca sofreu

20 violências gordofóbicas-  uma pra cada quilo ‘a mais’  - que a Cleo nunca sofreu

Mas eu e outras mulheres gordas sofremos diariamente, durante toda nossa vida

 

  1. De quantas pessoas ‘preocupadas com a sua saúde’ a Cleo desviou esta semana?
  2. Quantas vezes, essa semana, a Cleo foi demitida porque o chefe dela decidiu que queria contratar alguém ‘mais gostosinha’ e não gorda como ela?
  3. Quantas vezes, essa semana, a Cleo foi humilhada por homens que só queriam transar com ela se fosse escondido?
  4. Quantas ‘amigas’ a Cleo ouviu, essa semana, dizendo que preferiam morrer do que serem gordas como ela enquanto se olhavam no espelho, seguravam a barriga inexistente e diziam que estavam de dieta?
  5. Quantas vezes a Cleo ouviu que não seria amada por causa do tamanho do corpo?
  6. Em quantas vagas de emprego, nesta semana, a Cleo foi recusada, mesmo tendo todas as competências, porque exigiam ‘boa aparência’ e mulheres gordas não se encaixam no perfil?
  7. Quantas vezes, nesta semana, a Cleo acordou e o muro da casa dela tava pichado tentando ofendê-la por causa do corpo dela?
  8. Quantas vezes, nesta semana, a Cleo ficou paralisada, com medo de sair na rua e ser agredida por ser gorda, porque na véspera, um carro cheio de homens parou no meio da rodovia para ataca-la?
  9. Quantas vezes, essa semana, a Cleo foi chamada de louca raivosa porque se posicionou contra a opressão de pessoas gordas e lutou por mais acessibilidade?
  10. Quantas vezes, essa semana, a Cleo desviou de pedras jogadas e de vaias públicas contra ela por ser gorda?
  11. Quantas vezes, essa semana, a Cleo saiu da balada e foi dormir sozinha porque ninguém fica com mulheres gordas em público?
  12. Quantas vezes, essa semana, a Cleo ficou sentada sozinha num banco na sala de espera, no ônibus, no avião ou em qualquer espaço, enquanto outras pessoas ficaram em pé por terem nojo/medo de se sentarem ao lado dela?
  13. Quantas pessoas, essa semana, não quiseram ser amigas da Cleo porque ela é gorda?
  14. Quantas vezes, esta semana, a Cleo sentiu a solidão da mulher gorda?
  15. Quantas vezes a Cleo deixou de sair de casa porque sabia que teria que pegar ônibus e teve medo/vergonha de ficar entalada na roleta enquanto todos olhavam e caçoavam dela?
  16. Quantas vezes, esta semana, a Cleo recebeu mensagens inbox de conhecidos chamando-a para sair, mas só que escondido, afinal, eles (as) não podem ser vistos acompanhados de uma mulher gorda?
  17. Quantas vezes, esta semana, a Cleo foi ao médico com bronquite, unha encravada, queda de cabelo e disseram que ela deveria mesmo era emagrecer, mesmo que o peso e tamanho dela nada tenham a ver com o motivo da ida ao hospital?
  18. Quantas vezes, esta semana, a Cleo teve que justificar que está bem, obrigada, e que não, não come igual um bicho, que come salada, não, não come fritura, não, não gosta de doce, não, não toma refrigerante, sim, come frutas, é, é saudável. Sim, faz exercício físico. Não, não sente dores. Sim, é gorda, mas é saudável. Não, não tem nenhuma doença crônica. Não vai morrer com 30 anos porque é gorda.
  19. Quantas vezes, esta semana, a Cleo desejou só existir, sem precisar provar que pode, sem precisar lutar contra todas as vezes que é anulada por um olhar, por alguém que esbarra na rua, por um comentário maldoso travestido de amizade?
  20. Quantas vezes, esta semana, a Cleo não conseguiu comprar uma calcinha, porque não existe lingerie do seu tamanho?

 

Organizei em tópicos muitas das coisas que escrevi ontem – com raiva, sim – em razão da mídia dizer que a Cleo sofre gordofobia. Em primeiro lugar, gordofobia é diferente de pressão estética ou de body shaming (a Flávia Durante fez um reportagem muito importante sobre isso e pode ser lida aqui ó). A pressão estética ocorre com qualquer pessoa e é provocada pela mídia, pela indústria cultural, por tudo que te obriga a ter um corpo dentro de um padrão pré-estabelecido e irreal. Toda e qualquer pessoa pode estar à mercê dela, desde que pare de corresponder ao que sempre correspondeu ou é esperado.

Quero esclarecer que não tenho nada, absolutamente NADA contra a Cleo. Mas não tenho empatia. Não consigo me sensibilizar com a frase: “não é normal uma pessoa ser julgada pela aparência” (a origem da deste post tá aqui, ó) porque ela é uma mulher que sempre se ofereceu e se prestou a isso, sendo julgada pelo próprio corpo e fazendo lipoaspiração há menos de seis meses porque se considerava gorda. Ela sempre julgou pela aparência. Só não sabia que isso poderia acontecer com ela.

E eu não estou invalidando a dor que ela sente. Só que eu e outras pessoas gordas sentimos essa dor há uma vida e ninguém nunca nos ouviu. E todas as vezes que falamos sobre isso, nos chamam de doentes, nos oferecem dietas milagrosas, riem na nossa cara e, não raro, dizem: não está feliz? É só emagrecer. Dizem que não temos força de vontade, que não temos disciplina, nos sugerem cirurgias de automutilação, entre outras violências.

Então, quando a Cleo, que é uma mulher magra, branca e padrão se apropria de uma pauta que não é a dela e sequestra essa causa, ela passa a ser o único corpo ‘gordo’ aceitável dentro da mídia. Qualquer pessoa que pesar mais do que ela, é considerada uma aberração, então, ela vir a público dizer que sofre gordofobia é tão ou mais violento do que a própria gordofobia, porque somos alçadas a um não lugar e qualquer tipo de pertencimento é anulado, mais uma vez. Eu fiz as contas e, para eu ter o corpo gordo da Cleo, tenho que emagrecer uns 80 dos 140 kg que peso hoje e estes 80 kg possivelmente são mais do que ela pesa se considerando gorda, entendem a equação?

Só que eu não quero emagrecer. Eu quero existir e ser respeitada. E eu não quero ser uma guerreira corajosa. Eu quero ser uma pessoa. A gordofobia nos desumaniza.

Como enumerei acima, não estou falando de julgamento e nem de preconceito. Estou falando de ter o direito de ir e vir tolhido. De não caber. De ter que viver numa sociedade toda pronta para te excluir e de ter que conviver com a hipocrisia de meio mundo que diz te amar, mas que tem nojo de encostar em você ou medo de sentar ao seu lado, ou de comer e se tornar gordo, ou que te acha corajosa porque sabe exatamente o tipo de sentimento que causa em você.

A gordofobia é violenta e extrapola comentários de haters nas redes sociais. Ela acontece o tempo todo. Diariamente. E aqui estão só 20 motivos, um para cada quilo que a Cleo diz estar ‘acima’ do peso antigo, mas eu poderia fazer uma lista com centenas de violências e nem assim elas iriam acabar, porque, para que acabem, não depende de mim. Eu não vou emagrecer para satisfazer o padrão. Depende de você.  E como? Não sendo gordofóbico. Sendo antigorodofobia.

 

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