Ninguém vai lembrar de mim, de Gabriela Soutello | Especial Dia da Visibilidade Lésbica

Ninguém vai lembrar de mim, de Gabriela Soutello | Especial Dia da Visibilidade Lésbica

Autora fala de um livro sobre memórias, desejos dissonantes e fissuras, não necessariamente nesta ordem.

Gabriela Soutello escreve desde que pode se lembrar. E desde o início da adolescência, se dedica a explorar a própria escrita e linguagem, por meio dos contos, da literatura e do teatro. 

Aos 26 anos, com duas FLIPs na bagagem – primeiro como escritora em aposta e depois como a própria aposta – lança seu primeiro livro Ninguém vai lembrar de mim“, premiado pelo Edital Livros da Prefeitura de São Paulo em 2018 e publicado pela Editora Pólen, sob o Selo Ferina. 

“Ninguém vai lembrar de mim” está cheio de notas de um calor intenso. E de notas sobre dias mornos, preenchidos com verdades cruas. São contos que pedem atenção por existirem verdadeiros e verossímeis, tão minuciosos quanto precisos em sua tentativa de reescrever memórias e situações.

Nos últimos meses, Gabriela se nomeou escritora algumas vezes. Para ela, ser autora e ser lésbica são coisas que se interrelacionam e tem significado político, mas não se limitam, pelo contrário. A autora já ensaiava expor sua escrita meses antes da publicação, mas foi numa janela de carreira que decidiu ampliar os horizontes técnicos, criar uma rotina – Gabriela gosta de escrever pela manhã e tem uma relação especial com as manhãs de sábado – participar de clubes de escrita criativa, conhecer outras autoras, para só então, receber o aval de si mesma e de outras pessoas para se reconhecer escritora. 

“São várias saídas de caixinhas que a gente vai se colocando. É quase como sair do armário de novo. Eu era jornalista e agora sou escritora”, comenta.  

Muito se fala sobre a solidão presente nas frases longas e contos curtos da autora, mas o caminho deste livro também parece ter sido o mergulho em busca de uma espécie de conforto para existir em si. “Quanto mais me sinto só, mais me grudo à solidão”, escreveu a autora em um dos contos.

“Acho que a gente tem uma dificuldade de se expor hoje, justamente por causa de toda a exposição, sempre parece que tem alguém melhor, a gente até pensa que é desinteressante o que tem para mostrar para o mundo”. Gabriela, no entanto, dedica um epílogo e várias pílulas de sua literatura a esse movimento de desbravar-se e de expor ao mundo o melhor e o pior de si.

Essa busca nos lança uma pergunta perturbadora: “você consegue suportar a sinceridade máxima de ser quem se é?“. 

Espelhos

O que se vê neste livro de estreia são contos, histórias e pequenas abstrações que refletem um eu-lírico que se debate contra o próprio vazio, ora estimulando-o com os dedos, ora chocando-se contra as órbitas de suas parceiras. A autora nos conta de relações que são espelhos e mergulhos, que são silêncios e surpresas, de olhos cheios de medo e corpos cheios de gozo.

Gabriela traz também o tempo marcando o ritmo em suas frases. Não o tempo verbal, não o tempo contratual e climático. É do tempo imemorial que nasce a matéria prima de Gabriela. O tempo que exige atenção de dentro para fora. São os meses de julho, agosto, março e dezembro que nos contam suas histórias, muito mais do que suas personagens. As histórias de Marias e Beatrizes, de mulheres inominadas, as quais a autora nunca esqueceu. Mas afinal, o que é o tempo é senão um mapa falso, marcado por um relógio convencionado, criado para designar corpos e espaços, preços e sentidos? 

Com um estilo rodopiante e sem diálogos forçados, os contos fluídos de Gabriela Soutello se espalham em três partes do livro, numa tentativa (bem sucedida) de construir linearidade e materialidade a reflexões tão íntimas quanto perturbadoras.

A primeira parte, “Estar só é meu maior medo e minha maior verdade” apresenta uma narrativa bastante crua e intensa, de mergulho. É o primeiro salto na própria sexualidade, nas tentativas pessoais de digerir sentimentos confusos como a ansiedade, a covardia e o medo – tal como qualquer ser humano.

Já o miolo, “O sexo entre duas mulheres não é assim tão simples – é assim:” traz a leveza e a dureza, a ambiguidade e o contraditório de se relacionar sem dizer, de criar redomas para se defender ou de se entregar inteira e plenamente numa relação.

“Meu livro não é só sobre ser uma mulher lésbica. Ele tem isso, mas ele é também sobre ser ser humano, sobre sensações. Ele transmite na linguagem, outras coisas. A ideia é justamente é naturalizar isso. Não é sobre gritar – e que bom que a gente tá gritando. E que bom que agora a gente também tá ampliando esse olhar sobre o que é ser lésbica, mas não é só sobre isso”, comenta.

Lésbica e além

Em seu Instagram, a autora convida escritoras e artistas que amam mulheres para falar sobre o que essas mulheres sentem hoje, para além dos relatos de descoberta da sexualidade. “Isso é importante, mas eu quero também saber o que sentem hoje as mulheres que se atravessam por essas relações, relações que são espelhos”.

Com suas frases cheias de adjetivos e ritmo, a terceira parte antecede os dois epílogos, que se somam como se fizessem parte dessa etapa desde o princípio. “Eu costumava associar aos fins a decadência da falha” traz o último texto para Maria, uma personagem que aparece em outros contos e que revelou uma narrativa intensa que reconfigura o tom do livro, bem na metade da leitura. Esta última parte revela uma nova linguagem, uma nova postura diante de si mesma e diante dos sentimentos tão profundos que exigem o nosso existir. As reflexões continuam nos epílogos e esta parte ainda parece estar sendo escrita por Gabriela, por dentro e exposta aos lados de fora da vida.

O projeto gráfico, desenhado por Débora Lopes Serralheiro, traduz a pulsão de vida que a curadoria e a edição de Jarid Arraes conseguiram enxergar. São páginas com tons de vermelho, com fotos internas e recortes de imagem que de tão cruas, a nós se tornam instantemente pessoais. 

Intercalando o dito com o não dito, as chegadas e as partidas, a imersão e a descoberta, este com certeza é um livro que será lembrado e não só pelas lésbicas, mas por todos aqueles que gostam de uma boa narrativa e estão dispostos a mergulho interior. 

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Sobre o Especial #DiaDaVisibilidadeLésbica 

Desde 1996, o dia 29 de agosto marca o Dia da Visibilidade Lésbica no Brasil. A data marca o 1º Seminário Nacional de Lésbicas no país. A comunidade LGBTQIA+ no Brasil nunca esteve à salvo. As violências simbólicas que envolvem a existência lésbica vão desde as frases e apagamentos diários chamar um casal de mulheres de “amigas”, como destacou o projeto especial realizado Coletivo Dignidade e do Coletivo Cássia, com cards digitais que ilustram e corrigem estas pequenas violações até casos de estupros corretivos e demissões no trabalho.

O Margens se junta às reflexões sobre a data e a existência das mulheres lésbicas para destacar outros aspectos de vida e vivência de importantes autoras lésbicas que se encontram à margem da heterossexualidade, do mercado editorial ou da existência limitante de caber num rótulo. Autoras que não se definem por sua lesbianidade, mas que se atravessam por ela.

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