tati nascimento: princípio poético de reflexão | Especial #DiaDaVisibilidadeLésbica

tati nascimento: princípio poético de reflexão | Especial #DiaDaVisibilidadeLésbica

poeta e editora brasiliense, fundadora da padê editorial reflete sobre narrativa lésbica, espelho e desafios 

No Especial “Dia da Visibilidade Lésbica”, entrevistamos a poeta tati nascimento. Poeta, contista, compositora, editora, sócia fundadora da padê editorial, tradutora, cantora, entre outras tantas. A brasiliense nos fala sobre desafios e as batalhas pessoais na escrita literária, sobre processo criativo, sobre espelhos e caleidoscópios. tati é preta e sapatão, mas não só.

tatiana nascimento é daquelas profundanças, que se prontifica inteira à palavra. À palavra, aos porquês e comos, aos infinitos que cabem num único fim: a própria palavra. Escreve poemas e contos desde os 8 anos e há um bom tempo, vem trocando as maiúsculas pelas minúsculas, o “e” pelo y, desmontando palavras em busca de novos sentidos e sons. Seus versos são o que são: diretos, profundos e sobre tudo o que vive de dentro e olha para fora. São sobre o mundo, a soja, os orixás, as dores, as saudades, as canções. São também sobre seu corpo, seus desejos e seus amores. Mas tati não se reduz. tati nos alarga. Dê um mergulho e confira:

Você conta, em entrevistas, que o sistema literário cânone é um sistema excludente, que cria um espelho irreal. Qual a importância de romper estas narrativas, como mulher negra, fora do eixo SP-RJ, sapatão?

espelho sempre me soa abebé [1] y a sabedoria de oxum de, a despeito da tradição que interpreta sua paramenta como sinal de vaidade, olhar-se pra se re/conhecer. minha produção como poeta, como compositora, como cantora, como editora, como tradutora – minha produção palavreira – sendo uma lésbica negra (não uma “mulher”, que não é minha identidade de gênero) tem a ver com essa fé na produção y difusão de narrativas dissonantes que criem espelhos pra quem não se enxerga nas hegemonias. uma profusão de espelhos. caleidoscópios.

Quais as batalhas pessoais, emocionais, políticas que você precisou travar consigo mesma para começar a publicar, escrever, a se entender como poeta e como cantora?
pra cantar, o mais difícil y importante é desaprender cotidianamente o treinamento devassador de autoestima que a gordofobia me impõe. romper definitivamente com as expectativas alheias quanto às feminilidades performativas (maquiagem, figurino, aparições no palco). como poeta, mas como cantora também, entender minha timidez, aceitar, saber me movimentar desde aí, sabendo que não me limita a performance no palco, mas sim me põe em condições de expressão muito únicas, muito minhas, muito bonitas. publicar teve mais a ver com a gana, né? especialmente autopublicação. gana de ter meus livros, noção de que minhas palavras podem ser mal-vistas nos espaços editoriais mais tradicionais (recebi de uma editora média o comentário “os contos são ótimos, mas muito experimentais. estamos apostando em coisas mais certas comercialmente”), tranquilidade soberana do faça-você-mesma.

publicar tem a ver com a tranquilidade soberana do faça-você-mesma.

como foi, pessoalmente, o processo de traduzir autoras negras lésbicas?
acho legal. ainda traduzo. é importante. um tipo de espelho, como chamo: inspirado pelo caso de amor, de sexo, de perda que o itan Oxum seduz Iansã conta. mas como escrevi uma tese inteira sobre isso, vou deixar o link pra não ficar me repetindo, quem quiser consulta lá: http://bit.ly/noespelhodeoxum

mulher negra de óculos, de perfil, com os olhos fechados. na imagem ao lado, a mesma mulher aparece com os braços levantados, não aparecem seus olhos, apenas sua boca em prece.
Tatiana Nascimento para a série “narrativas: dípticos, trípticos”, de Daisy Serena

A sua poesia é uma poesia que brinca e experimenta a palavra, os caminhos plásticos e elásticos da língua. Como funciona esse processo? O que a provoca nessa viagem pela palavra?
desarquitetando as palavras, pra mostrar que se formam nas ruínas, de ruínas. lá mesmo onde o asfalto quebra y a planta brota. desimaginando muito do que taí, que confina, pra imaginar o impossível – y assim poder chegar lá. o processo de desmontar, examinar etimologias, desdobrar radicais em novos sintagmas funciona com atenção, com labor. palavra, pra mim, é labor, trabalho, manufatura. observo muito as palavras, como soam na minha boca, como ocupam o papel, ou o ecrã (agora escrevo mais no computa né). que possibilidades sugerem, que descaminhos permitem. que limites elas têm, morfológicos mesmo. sintáticos. exercito todo dia. leio releio escrevo reescrevo.

palavra, pra mim, é labor, trabalho, manufatura.

O que você gostaria de ter ouvido de outras autoras quando começou a se publicar e que gostaria de contar à outras mulheres negras e lésbicas? (ou, em tempo, há algo que gostaria de dizer para estas mulheres que te leem?)
o que eu gostaria de ter ouvido y ainda preciso, ainda me digo, digo pra outras pessoas, especialmente outras pretas, outras sexual-dissidentes, é que pra cada uma de nós a palavra mais importante tem que ser a nossa mesma. pra gente não cair na cilada da representatividade, pra não acharmos que alguém pode falar por nós.

dois poemas de @tatiananascimento:

vis
des
confiança herança
des
menina:
os arautos do sexo fá
ci
o sexo frá
gi
o sexo
vil.
violado
(por eles mesmos!)

pajubá, ou
tradução alvejante de cultura retinta:
chamar de padê
cocaína
(y depois Laroyê que eh diabólico…
mas quem mata quem morre
quem ganha na trata do
tóxico?)

[lundu, padê editorial, 2017.]
Para acompanhar o trabalho de tati nascimento, acesse: http://pade.lgbt/tatiana/

Sobre o Especial #DiaDaVisibilidadeLésbica 

Desde 1996, o dia 29 de agosto marca o Dia da Visibilidade Lésbica no Brasil. A data marca o 1º Seminário Nacional de Lésbicas no país. A comunidade LGBTQIA+ no Brasil nunca esteve à salvo. As violências simbólicas que envolvem a existência lésbica vão desde as frases e apagamentos diários, como chamar um casal de mulheres de “amigas” até casos de estupros corretivos e demissões no trabalho.

O Margens se junta às reflexões sobre a data e a existência das mulheres lésbicas para destacar outros aspectos da vivência de importantes autoras lésbicas que se encontram à margem da heterossexualidade, do mercado editorial ou da existência limitante de caber num rótulo. Autoras que não se definem por sua lesbianidade, mas que se atravessam por ela. Conheça indicações e referências de autoras lésbicas aqui.
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[1]  O abebé (abébé em iorubá) é o objeto distintivo do poder das mães ancestrais e possui uma similaridade com o abano. Oxum costuma usar o abebê como arma, para cegar a vista dos inimigos.

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