Eliane Potigura e Igiaba Scego: Escritoras e guardiãs de um novo mundo

Eliane Potigura e Igiaba Scego: Escritoras e guardiãs de um novo mundo

Encontro “Lá na Laje” de agosto convida autoras de origens distintas para debater raízes, passado e futuro

Nos últimos meses, a ideia de “resistir” parece ter ganhado espaço em todos os contextos, no Brasil e no mundo. Há poucas décadas, essa era uma ideia predominante apenas em movimentos políticos antissistêmicos, como o movimento negro, indígena e feminista. Nos últimos anos, no entanto, diversas democracias estão sob a mira do neoliberalismo, do desemprego estrutural, dos ataques cruéis aos direitos civis, minando diversos outros direitos socialmente conquistados, histórias e costumes ancestrais. Tudo isto em defesa da dita da economia e do uso eficiente dos recursos. 

Foi sob este prisma que aconteceu o encontro “Costumes Ancestrais”, realizado pelo clube do livro Lá na Laje, realizado pela jornalista e curadora Jéssica Balbino em parceria com SESC Pompeia, na noite de ontem, 07 de agosto, com a presença de escritoras célebres como italiana Igiaba Scego, autora dos livros Adua, Minha casa é onde estou e do ensaio Caminhando contra o Vento e da brasileira Eliane Potiguara, ativista indígena autora dos livros A Terra é Mãe do Índio, Metade Cara Metade Máscara, entre outros.

Estas mulheres, com idades e pontos de vista diferentes sobre o mundo, compartilharam com o público não apenas as suas histórias e reflexões, mas também fizeram um convite à ação num mundo cada vez mais atravessado pela crise imigratória, pela crise ambiental e pela liquidez das nossas identidades.

É hora de resistir e confrontar, criando algo novo.

Narrativas ancestrais e violências desiguais
Nascida e criada na Europa, Igiaba conheceu a cultura somali de seus familiares e também onheceu de perto a realidade da Somália durante a adolescência. No entanto, a autora destaca que sua realidade de escritora negra, filha de imigrantes, numa Itália branca, é “uma realidade muito solitária” e que esta condição a fez pesquisar sobre as origens e a história dos primeiros negros da Europa. 

Esta pesquisa-ação se reflete em suas obras não apenas como enredo, mas também na forma como a narrativa acontece. Igiaba conta que um dos principais desafios na sua escrita é transpor o som da tradição oral somali “muito mais bonito e doce” para a língua italiana escrita, mais dura e seca, em sua opinião. Ao longo do tempo a escritora reparou que sua forma de lidar com essa discrepância das palavras foi se transformando em diálogos, cartas e histórias que seus personagens contam uns aos outros, suavizando as diferenças entre narrativas orais e narrativas escritas, dando continuidade às reflexões ancestrais que suas histórias proporcionam.

Confira a cobertura completa do encontro aqui.

“A violência sofrida pelos corpos negros na Europa é uma violência que não permite que essas pessoas se apropriem nem de seus corpos e nem dos espaços, muito menos da sua própria história”, destaca. Neste sentido, a busca pelas raízes somali se aproxima muito da busca pelas raízes do povo indígena no Brasil, de acordo com Eliane Potiguara. A ativista de quase 70 anos acredita que o que mantém a resistência viva em tempos de renascimento do fascismo em todo o mundo é justamente a força da ancestralidade. 

“Eu acredito que o que nos mantém vivos é a nossa ancestralidade. Nosso dançar, nosso cantar, nosso jeito de celebrar. Apesar da morte, dos assassinatos, dos crimes, é o amor da nossa família, da nossa história, que nos mantém vivos há tantos séculos”, destaca Eliane. 

Igiaba destaca ainda que as desigualdades entre os povos não são apenas econômicas, mas também de identidades, que se refletem em documentos, como a existência da ideia de “passaportes fortes ou fracos” na Europa. “Quando eu falo em desigualdades, falo de corpos que valem mais ou menos do que outros. Falo de corpos que são desiguais. Eu gosto de pensar em raízes, mas eu também gosto de caminhar livre e talvez nesse caso eu resgate a palavra raízes, como uma resistência às colonizações. Na Somália, depois da invasão de extremistas dos últimos anos, estamos perdendo nossos costumes, não por mudanças próprias, mas por mudanças impostas pelos outros”.

Foto: Juliana Lubini

Guardiãs de novas perspectivas
Sobre as mudanças que estão acontecendo no planeta e na sociedade, Eliane faz um convite para que todos aqueles que estão interessados em cuidar do mundo se tornem guardiões das mudanças que querem ver. Sobre o protagonismo da mulher nesta era de transformações, Eliane reforçou que “a mulher é a fonte de vida e quando gera a vida, fica redondinha igualzinha a Terra. A mulher tem a visão da água, o espírito dos guerreiros. A mulher é uma guardiã da vida e só de parir, é uma guerreira”. 

Em reconhecimento mútuo, Igiaba enfatiza que a luta dos povos da Amazônia é a luta que se faz em defesa da Humanidade e da continuidade da vida na Terra. A autora também destaca que “vivemos numa sociedade patriarcal, racista, machista, homofóbica e que também faz mal aos homens”. “Temos que travar uma luta que una todas as pautas, uma luta intersseccional, essa palavra é muito importante. Eu sou otimista com o futuro, apesar do presente ser assustador. A gente precisa criar uma nova civilização, porque esta não está mais funcionando”. 

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