Festival Literário de Iguape, um festival que é a cara do Brasil

Diálogos foram pontos altos da programação da Fli (foto: Bruna Quevedo)

Protagonismo negro e participação da população local deram o tom da 7ª edição do evento que teve Conceição Evaristo, Zezé Motta, Mel Duarte, Luedji Luna, Nação Zumbi, entre outros 

“Futuro, lugar e memória”. Este foi o tema da 7ª edição do Festival Literário de Iguape, o Fli, que aconteceu nos dias 7 e 8 de junho, na cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, com uma das maiores áreas de vegetação de todo o estado de São Paulo e que cumpriu, exemplarmente, o que se propôs: refletir sobre a temática a partir das mesas e levar ao festival a cara do Brasil em 2019.

Eu, que não conhecia Iguape, fiquei encantadíssima, não apenas com a cidade e sua arquitetura – bem como sua história, que data do início do Brasil oficial – como também pela programação, cuidadosamente pensada e planejada, entregando aos participantes uma potência difícil de ser traduzida.

A curadoria feita pela jornalista Bianca Santana foi o ponto alto da festa, que conseguiu reunir, no mesmo fim de semana, nomes como Zezé Motta, Mel Duarte, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Angélica Freitas, Luedji Luna, Nação Zumbi, Russo Passapusso, Geovani Martins, Marcelino Freire, Lu Bento, Janine Rodrigues e Eda Nagayama na mesma cidade, no mesmo espaço.

O plano de criar uma ‘overdose’ na programação funcionou: as inúmeras discussões levaram o público a refletir sobre espaço e insurgência. Com a maioria dos convidados negros, o Fli recorta o que há de mais latente na produção literária do país e cumpre o que se propõe, além de realizar uma edição potente e provocativa, com discussões que deveriam estar presentes em todos os espaços e não em um único fim de semana – como uma brecha do tempo – em uma cidade litorânea escolhida para sediar o evento.

ABERTURA

A abertura do festival contou com a poeta e slammer Mel Duarte, que comandou o FliSarau, com participação do público local, de adolescentes a idosos, que ocuparam a praça com poesias sobre diferentes temas.

Mel Duarte fez o sarau de abertura da Fli (foto: Bruna Quevedo)

CONVERSAS
O futuro não demora

A união de personalidades como o escritor Geovani Martins, o músico Russo Passapusso e a atriz Zezé Motta mostra que a literatura vai além do papel, bem como as narrativas. Com mediação de Bianca Santana, a mesa lotou a praça central da cidade e discutiu, a partir dos olhares e gerações dos convidados, a importância da palavra para o futuro.

Escrevivência insubmissa
No sábado pela manhã, quem comandou foi Nega Duda e seu Samba de roda, com as mem´roias de sambadeiras e sambadores do Recôncavo Baiano. Na sequência, Conceição Evaristo, com mediação de Bianca Santana, falou sobre suas obras e sobre como ter uma escrita que não se submete. Na plateia, foi raro quem não se emocionou com a potência da fala da escritora, que ali, no palco, é a representação que muitos esperavam – e ansiavam.
Bianca Santana foi a curadora desta edição e acertou (foto: Bruna Quevedo)

Histórias que a história não conta ou o avesso do mesmo lugar

Com Ana Maria Gonçalves, Deborah Dornellas, Deivid Domênico e Marcelino Freire, a última mesa da noite foi pautado pelas memórias de cada convidado de como eles encontram os próprios avessos para a escrita, no entanto, as perguntas rumaram para o lugar das pessoas negras na sociedade e obrigaram o público a refletir sobre o tema. O destaque vai para a participação de Marcelino Freire, que fez questão de marcar o lugar de onde vem – Sertânia, em Pernambuco – a todo momento em sua fala, além de referenciar os desmontes por parte dos governos em relação à cultura, lembrando o público presente de que, estar ali, numa noite fria de sábado, era revolucionário. “O que estamos fazendo hoje é resistência”. E que assim seja.

População local no protagonismo
Outro ponto alto do festival é a participação da população local no que diz respeito ao protagonismo. Desde o sarau de abertura até o final da programação, moradores da cidade e dos municípios vizinhos estiveram presentes e construíram o festival da participação vinda do lado de dentro. Houve, inclusive, o lançamento do livro “Futuro e Memória – Escrevivências do Vale do Ribeira”, que reúne textos de escritores de Cajati, Cananeia, Eldorado, Iguape, Itaoca, Registro e Ribeira, Antonio Lara e Júlio Cesar da Costa unem música e poesia num ato de celebração da riqueza cultural do Vale, com curadoria das escritoras Cidinha da Silva, Angélica Freitas, Bianca Santana e Eda Nagayama.

Ponto do livro
Em frente ao palco, o ponto do livro, construído embaixo de uma tenda, foi também o ponto de encontro entre os autores presentes, que durante toda a programação autografaram e venderam suas obras, bem como atenderam o público, trocaram ideias e fomentaram a literatura.

Luedji Luna fez o show na primeira noite do evento (foto: Bruna Quevedo)

SHOWS

As duas noites do festival reservaram shows incríveis ao público. Na sexta-feira, a baiana Luedji Luna subiu ao palco com o show do álbum “Um Corpo no Mundo” e esquentou a tenda do palco, fazendo toda Iguape dançar.

Já na segunda noite, sábado, Nação Zumbi tocou por quase duas horas os grandes clássicos da banda de Chico Science. Com o maracatu atômico e muita energia, a banda lotou o espaço e, para não deixar dúvidas a que veio, somou ao coro da plateia, de “ei, Bolsonaro, vai tomar no c*”, que se engasgava desde o primeiro dia, teimava em sair e encontrou vazão. Pra além disso, ainda me impressiona como Nação Zumbi consegue ser incrível e, no meio do show, consegue melhorar a canção “Sexual Healing” de Marvin Gaye.

Nação Zumbi encerrou o festival em grande estilo (foto: Bruna Quevedo)

Fli Paralelo
No Museu Histórico de Iguape ocorreu o Fli Paralelo com rodas de conversa sobre oralidade e literatura, bastidores das escrevivências e futuro, lugar e memória, com as presenças de Nega Duda,  Timóteo Verá Tupã Popyguá, Islene Motta, Luciana Bento,  Maria Mazzarello, Angélica Freitas, Cidinha da Silva, Eda Nagayama e Júlio Cesar da Costa.

Produção
Outro destaque do evento vai para a equipe de produção, que foi absurdamente receptiva, atenciosa e muito prestativa em relação a todas as demandas

 

 

Fato é que saí do 7º Fli muito maior e mais feliz do que cheguei. Confesso que não esperava nada. Apenas fui. E me deixei surpreender positivamente. Um, pelo tamanho do evento. Com noção das limitações e do tamanho, o evento é pequeno. Condensado em apenas dois dias, reúne, num mesmo espaço, vários nomes incríveis, o que favorece a troca, o contato, a convivência. Diferente dos grandes festivais, o clima intimista do Fli é muito gostoso. Alinhado com o clima da cidade, que é pequena e tende a ficar mais aquecida com o evento, o Fli cumpre, como já disse, lo que promete. Passei três dias na cidade e que delícia que foi.

Os encontros com grandes autores pela rua dão a ideia de um evento acessível. Poder sentar na mesma mesa do bar que Ana Maria Gonçalves, almoçar no mesmo restaurante que a Conceição Evaristo, conversar e sair para ir à praia com Lu Bento e Janine Rodrigues. Ficar no mesmo hotel que Nação Zumbi. Reencontrar amigos.  Este é o grande clima do evento, que fortalece a troca, para além das discussões nas mesas, que, para mim, pessoa branca, foram imprescindíveis.

Novamente, a curadoria de Bianca Santana acerta ao mesclar, ao criar espaços de escuta, ao reunir, num mesmo evento, tantas potências, ao ter convidados majoritariamente negros – ainda que nem todos retintos – ao destacar temas que são tão caros em 2019, como futuro, lugar e memória. Como lugar de fala. Como escrevivência. Como avesso.  E que incrível foi me encontrar com meu avesso. Trocar e poder ouvir tanto e tantas experiências. Como saí melhor do que cheguei. E esse texto é uma forma de devolver isso. E de tentar segurar os momentos daquele fim de semana de alguma forma, antes que eles escapem da memória ou sejam preenchidos por outros.

Minha conclusão é: o Fli é um festival com a cara do Brasil, vale a pena conhecer e eu, com certeza, vou voltar.

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