Jornalista francesa questiona relação do patriarcado com a comida em “Fominismo”

Jornalista francesa questiona relação do patriarcado com a comida em "Fominismo"

Em entrevista, jornalista falou sobre ecofeminismo, veganismo e relações de poder que permeiam a alimentação; leia

Para discutir como o machismo se faz presente em todas as estâncias da cadeia alimentar – da agricultura à mesa, a Quintal Edições, de Belo Horizonte (MG) e o Grupo Saliva realizam, no próximo dia 05 de junho às 18h30, o lançamento da obra “Fominismo: quando o machismo se senta à mesa”, da jornalista francesa Nora Bouazzouni. O lançamento terá uma roda de conversa com a presença da tradutora do livro, Fernanda Marçolla, para discutir sobre o processo de tradução e contextualização ao cenário brasileiro.

O livro, que foi lançado no Brasil em abril pela Quintal, que só publica obras de mulheres, traz uma visão da jornalista sobre como nossa relação com a comida está intimamente ligada ao machismo e ao patriarcado.

Capa do livro publicado no Brasil pela Quintal Edições

A obra de Nora explana temas como tarefas domésticas, agricultura, meio ambiente, body shaming. Seja pela divisão sexual do trabalho, pela segregação alimentar ou pela orientação das práticas de consumo por meio de proibições, discriminações ou ditames estéticos, a comida serve para manter as mulheres no lugar que lhes foi designado, há milênios, no espaço ou na sociedade. Apesar de elas terem, mais do que nunca, um papel crucial na sobrevivência da espécie humana, na sua história e no seu desenvolvimento, pela comida que produzem, transformam, estocam ou consomem, as mulheres ainda são consideradas inferiores aos homens. Qual a relação entre o patriarcado e uma picanha? Onde se escondem as cheffes de cozinha? A agricultura é coisa de homem?

“Neste livro, nós tentamos explicar em detalhes como comida, sexo e gênero feminino permanecem intimamente ligados e como a alimentação sempre possibilitou o subjugo das mulheres”, destacam as editoras, Carol Magalhães e Ludmila Fonseca.

Já o Saliva é um grupo de estudos e experimentações em torno da comida, aberto à comunidade e sem fins lucrativos. Os encontros são quinzenais e sempre acontecem às terças-feiras no Café Juta (Casa Juta). De acordo com a organização, o ponto de partida é a importância de reunir pessoas interessadas em debates, reflexões e construções em torno do tema, entendendo que ele atravessa diversas dimensões sociais, históricas e afetivas. As reuniões se alternam entre dois eixos: Conversas sobre alimentos, norteadas por textos filosóficos, literários, jornalísticos, entre outros, e Laboratórios e Papilas, vivência gustativa experimental acerca de sabores, texturas e montagens com ingredientes previamente preparados pelos participantes a partir de uma proposição. O grupo é organizado por Laís Veloso e Maria Fernanda Ambuá.

Além desta obra, neste ano, a editora lançou também o “Não sou Exposição”, fruto do trabalho de Paola Altheia enquanto nutricionista, que usa as redes sociais para discutir a cultura da magreza (canal no youtube: http://bit.ly/naosouexposicao) , a saúde, o corpo e coloca em xeque mitos sobre as dietas e corpos fora do padrão.

 

A editora
A Quintal Edições é uma editora que acredita e publica apenas mulheres.  Composta apenas por mulheres, surgiu com a proposta de criar espalho num mercado sabidamente restrito para que escritoras possam começar a encontrar seu lugar como autoras. Com tiragens pequenas, o objetivo é, antes de tudo,  colocar no mundo textos realizados por e para mulheres.

Para, Ludmila Fonseca, os assuntos abordados nos livros – Fominismo e Não Sou Exposição fizeram os olhos dela e da outra editora, Carol Magalhães, brilhar. “Os livros têm tudo a ver com a proposta da Quintal, que é promover escritos de mulheres e que trazem um ponto diferente dentro da nossa produção até agora, falando sobre a situação da mulher contemporânea”, declarou.

De acordo com ela, os livros trazem textos não ficcionais e que discutem direto com os leitores os temas em pauta.

“São livros que falam com quem está diante deles e dão pistas sobre como podemos nos amar mais, amar nosso próprio corpo e entender os padrões de beleza exigidos e como lidar com isso. A Paola traz a desconstrução da cultura da dieta, que é importantíssima e que até hoje, apesar de todo feminismo que temos, as mulheres ainda adoecem por conta disso. Então, estes livros, além de terem a ver com a Quintal, eles têm uma mensagem muito grande. O Fominismo vem com uma perspectiva ainda inédita no Brasil, que faz uma ponte direta entre a alimentação e o patriarcado, que vai desde a agricultura e a gastronomia”, acrescentou.

Confira a entrevista

No início do livro você traz algumas situações que mostram o feminismo ainda incompreendido, o que leva a uma visão equivocada do que de fato é. Você acredita que isso prejudica o avanço da pauta em relação à alimentação e patriarcado?

Acho muito triste e particularmente irritante que, em 2019, tantas pessoas – mulheres e homens – continuem convencidas de que as mulheres feministas são seres amargurados e desprezíveis, cujo único propósito é castrar os homens.

Mas com alguns exemplos concretos, eles rapidamente percebem o quanto isso está relacionado, seja agricultura, hábitos alimentares, gastronomia ou a preparação de refeições. A comida é universal, política e, ao mesmo tempo, muito pessoal.No Fominismo, tento mostrar que a comida não escapa à dinâmica de poder e privilégios inerentes ao sexismo, e esse patriarcado foi construído sobre a desapropriação e exploração das mulheres, especialmente através da comida.

O que você poderia nos dizer do ecofeminismo? Ele converge como o Feminismo em algum lugar?

O ecofeminismo foi teorizado pela bióloga e escritora americana Rachel Carson em seu livro de 1962, Silent Spring. Mas é uma francesa, a romancista Françoise d’Eaubonne, que usa esse termo pela primeira vez em 1974 em um ensaio intitulado Feminismo ou Morte. É uma ética e movimento na intersecção do pensamento feminista e ambientalista. Para as ecofeministas, o patriarcado e o capitalismo são sistemas destrutivos que exploram as mulheres e a natureza. Não se trata de atacar o essencialismo dizendo que as mulheres têm uma relação especial com a natureza, ao passo que os homens estariam do lado da cultura, mas para dizer que existe significando lutar de frente com as lutas feministas e ecológicas. Movimentos de protesto ecofeministas, nascidos no final da década de 1970 nos Estados Unidos, espalharam-se pelo mundo até a Índia, incluindo a filósofa e física Vandana Shiva.

Você acredita que o patriarcado ainda mantém as mulheres – especialmente as que cozinham – em gaiolas? Por quê?

Não é exatamente isso. Em geral, o patriarcado mantém as mulheres em posição de subordinação aos homens e dependência, especialmente financeira. Eu não digo que as mulheres que cozinham são prisioneiras de qualquer coisa, eu só percebo que o trabalho doméstico, especialmente a preparação de refeições, ainda é em grande parte sua responsabilidade, e isso em todos os países do mundo. Por quê? As mulheres não nascem com uma colher de pau nas mãos, assim como os homens não têm um gosto inato pelo futebol! Somos seres eminentemente sociais e, se continuarmos a socializar as meninas de maneira diferente dos meninos, dizendo-lhes que o lugar deles é em casa, preparar refeições para toda a família, então sim, eles já estão trancados em uma espécie de jaula mental da qual é difícil sair.

 

Em termos práticos, ainda existe a separação de que homens podem/devem/merecem comer mais, especialmente carne, do que as mulheres?

Sim, mas não apenas carne: carne vermelha, aquela que ainda está sangrando. Ao contrário das aves de capoeira, consideradas como alimento mais sutil, portanto associadas à fêmea, a carne vermelha continua associada à força física. E como a força física continua associada ao masculino, a carne vermelha permanece um símbolo da virilidade, da dominação do homem sobre o animal. É completamente absurdo, é crença pura, sem qualquer validade científica! Além disso, homens vegetarianos ou veganos costumam ser insultados: dizem-lhes que é uma dieta de “mulher” e que um homem “real” deve comer animais mortos para mostrar que é tudo. no topo da pirâmide alimentar … Mas a carne está longe de ser a única comida “sexuada”: rosé, por exemplo, é suposto ser um vinho de mulher, uísque é o álcool de um homem, saladas são para garotas e hambúrgueres de bacon, para meninos …

Lendo o livro, me lembrei de que, quando criança, questionei minha mãe sobre o por quê de o bife maior e melhor ter que ser sempre deixado ao meu pai. Ler o livro me remeteu a isso fortemente e foi algo que sempre me incomodou. Você acha que isso pode ser transformado? Em termos práticos, qual seria a sugestão? É engraçado porque muitas mulheres me disseram, depois de ler o meu livro, que a mãe deles sempre enchera o prato do irmão mais do que o deles e que isso sempre os incomodava, mas que nunca ousara pedir explicações! E essa discriminação alimentar permanece válida em todo o mundo. Há também muitas mulheres que comem depois dos homens e têm que se contentar com as sobras, enquanto eles são os que fizeram as compras e prepararam a refeição! Não sou muito otimista, mas continuo convencida de que nada é imutável e de que a educação é a chave. Mas é muito difícil se livrar dos padrões sexistas milenares. Tenho muitos amigos para os quais é impensável ensinar a seu filho que ele merece mais do que sua irmã, ou que um homem na cozinha não é natural – mas também encontro pessoas para quem o papel de uma mulher é ter filhos, cuidar deles e fazer comida para todos.

Você enxerga no vegetarianismo um caminho para a igualdade?

Escrevi um artigo recentemente, onde imagino um mundo sem carne. Há lugares onde é impossível porque o gado é a única fonte de renda e proteína para as famílias pobres. Por outro lado, nos países mais ricos, onde muita carne processada é consumida, onde os animais são criados e abatidos em condições absolutamente escandalosas, é uma questão ética, ambiental e de saúde pública ao mesmo tempo. O interessante, por outro lado, é ver como o simples fato de se dizer vegano leva algumas pessoas às mesmas reações violentas que a uma feminista! Este é o famoso “mimimi, não podemos mais dizer nada, não podemos fazer mais nada …”, enquanto é simplesmente uma questão de respeito pelo outro, se é sobre um animal ou um humano!

Se você tivesse que convencer alguém a ler seu livro, o que diria?

Eu diria que é um ensaio para todos, independentemente do sexo, idade, origem ou nível de educação. Que é um livro bem pesquisado, mas também engraçado, espero, e que se aprende necessariamente alguma coisa, mesmo que não concorde com todas as minhas conclusões!

SERVIÇO

Lançamento do livro Fominismo
Quando: quarta-feira (5) das 18h30 às 22h
Onde: Café Juta
Endereço: Rua Almandina, 56 B, 31010-080 Belo Horizonte
Ingresso: gratuito
Informações: https://www.facebook.com/events/808814032839252/

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