RESENHA | “Minha irmã, a serial killer” eleva a literatura nigeriana publicada no Brasil a outro nível

RESENHA | "Minha irmã, a serial killer" eleva a literatura nigeriana publicada no Brasil a outro nível

Obra de estreia da slammer e escritora Oyinkan Braithwaite revela thriller psicológico e ressalta patriarcado nigeriano 

Provocativo a partir do título, chegou ao Brasil em março o livro “Minha irmã, a serial killer”, da slammer e escritora nigeriana Oyinkan Braithwaite. Publicado pela editora Kapulana, com tradução de Carolina Kuhn Facchin , o livro já teve os direitos vendidos para o cinema e já foi traduzido para outras quatro línguas, revelando o talento nato da jovem autora, que nasceu em Lagos e estudou escrita criativa na Kingston University, em Londres.

A novela, cujas protagonistas são as irmãs Korede e Ayoola, navega entre o tom bem-humorado e sarcástico e assustador, firmando-se como um thriller psicológico que se passa em uma família de classe média alta de Lagos, o hospital onde trabalha a irmã mais velha e os três últimos namorados da caçula, todos mortos por ela.

A cena inicial, muito bem descrita, é, inclusive, o ponto chave que não nos deixa largar o livro antes do final. Confesso que li de uma tacada só, num fôlego único, ansiosa pelo final, algo que os bons livros que envolvem drama, suspense e morte fazem.

“Suas mãos estavam sujas de sangue e morte mesmo sem ter cometido os assassinatos; e claro, cheias de produtos de limpeza, pois era Korede quem estava lá esfregando e eliminando os últimos resquícios de sangue deixados pelos atos de sua irmã, Ayoola, cuja mente funcionava de forma egocêntrica e psicopata sem nenhuma gota de remorso.

Korede pesquisara na internet: e afirmava que três ou mais assassinatos era considerado serial killer; decerto que sua irmã era uma serial killer, sua irmã mais nova quem sempre tentou proteger, mesmo nas circunstâncias que deveria negá-la. E acredito que esse é o ponto chave dessa obra: a relação entre irmãs onde uma era a protegida e a outra era sempre a protetora e sentia no dever de proteger. Entretanto, a obra aborda outros temas, como por exemplo, a relação familiar e o relacionamento abusivo”

De um lado da história temos Korede, a irmã mais velha, enfermeira de um hospital e amargurada em sua vida afetiva. Considerando-se feia diante da irmã, lida como a filha favorita e perfeita, ela sente-se também responsável pela caçula e por, literalmente, limpar suas bagunças e sujeiras. Já Ayoola, a filha mais jovem seria a mais bonita, porém, com distúrbios comportamentais que beiram a sociopatia – ou talvez sejam.

É evidente que o livro, pra além do thriller que se apresenta, é também um drama familiar que passa pelas relações entre irmãs e, no pano de fundo, pelo machismo arraigado de uma sociedade fragmentada por uma guerra e – mais do que isso – pelo patriarcado tão evidente e viçoso. O pai de Korede e Ayoola é referenciado no passado, como alguém que deixou de existir naquela casa onde habitam as irmãs, a mãe e uma funcionária. Aos poucos, a autora nos revela como e quando o pai abandonou a família, o que nos faz entender um pouco do viés do comportamento da irmã: seria autodefesa ou seria só sociopatia? E nisso, talvez o título – bem vendável, admito – seja injusto. Não estamos diante apenas de um suspense psicológico, mas de algo mais profundo e arraigado, que são as relações de poder dos homens sobre as mulheres e as escolhas que cada um faz.

E sim, é uma obra sobre escolhas. Esconder ou não um corpo? Contar ou não a verdade para a polícia? Revelar uma paixão secreta ou mantê-la apenas nas fantasias? Minha irmã ou o homem que eu amo? E tudo isso é perpassado, cirurgicamente, por uma faca que atravessa não só corpos, mas também gerações.

Minha sensação é que elevamos o nível da literatura nigeriana que acessamos no Brasil. Saímos do testemunho ou do romance enviesado e atingimos outros temas, outras perspectivas – ou as mesmas, vistas por outro ângulo – outras linguagens e uma literatura fluída e bem escrita.

Na trama, senti ódio e amor na mesma proporção. Entendi e me identifiquei com as duas personagens centrais. Bem como com o personagem que está em coma e ouve as confidências de Korede, que o tem como único  e melhor amigo. É quase palpável a solidão da irmã mais velha, enquanto a mais jovem diverte-se mundo afora. E a autora não erra no tom. Sabe exatamente onde quer chegar. A sensação que temos é de que nenhuma frase está fora de lugar, deslocada, no texto. Tudo que está ali, deveria estar. Poderia, sim, ser mais poético, afinal, foi escrito por uma poeta, mas, damos este desconto à história criada e que, como eu já disse, evidencia o machismo e os micro machismos cotidianos.

As atitudes de cada uma são muito bem construídas. Ayoola é a personagem de quem sentimos ódio, mas, ao mesmo tempo, como sua irmã, queremos proteger e resguardar. Estamos diante de uma potência. Uma personagem muito bem construída, que sabe, com seu egocentrismo, se aproveitar da irmã e conseguir tudo que quer. Ou quase. Ser respeitada pelos homens ainda parece um desejo longínquo.

“Minha irmã, a serial killer” cumpre o que se propõe  e evidencia a voz de uma jovem escritora, tão pulsante nos campeonatos de poetry slam e agora, tão evidente na literatura contemporânea. E é uma grande estreia. É ambiciosa, mas sem passar do ponto. E faz jus à fala da escritora, que diz que se não pudesse ser uma escritora, preferiria se esfaquear. E, claro, daí já identificamos de onde vem a paixão – ou não – pelas facas.

Para encerrar, posso dizer que é uma obra para todos. Não sei se poderia classifica-lo como um “Young Adult”, mas sei que gostaria de ter lido ainda adolescente. É, sem sombra de dúvida, uma escrita sobre o poder das mulheres. Sobre raiva. Revide. Amor e perdão. Empatia. E, o quanto antes pudermos entrar em contato com estes temas, melhores seremos.

E, antes de botar um ponto final nesta resenha, quero destacar o press-kit – batizado de kit evidência – enviado pela editora. Eleva, a outro nível, os envios de livros. Acoplado à obra, um par de luvas azuis, utilizadas em limpezas cirúrgicas ou em perícias, já nos traz um spoiler do que nos espera nas páginas. Os mimos como adesivo, marcador de páginas e um saquinho estilizado também dão o tom do cuidado com que todo processo editorial é feito pela Kapulana e sua equipe, elevando, ainda mais, a editora no patamar do que está na vanguarda e publicando bons livros no Brasil.

Resenha | Minha irmã, a serial killer
Autora: Oyinkan Braithwaite 
Editora: Kapulana
Páginas: 184
Avaliação: *****

O livro foi uma cortesia da editora Kapulana

 

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