Resenha | Cidade Espanto, de Clarissa Carramilo, uma voz necessária na literatura contemporânea

Resenha | Cidade Espanto, de Clarissa Carramilo, uma voz necessária na literatura contemporânea

Romance de estreia nos traz personagens marcantes e formas corajosas ambientado em São Luís (MA) 

Eu nunca tinha ouvido falar da Clarissa Carramilo até que, por acaso, ouvindo pela segunda vez o podcast da Mulheres que Escrevem, esbarrei num episódio dedicado ao “Cidade Espanto”, feito com a jornalista e escritora Seane Melo e a escritora Camila Chaves.

Fiquei louca. No dia seguinte, entrei em contato e comprei, via site, o livro. Chegou alguns dias depois e levei um tempo até pegar pra ler. Li no começo deste ano e era tudo aquilo que eu esperava – pra dar este retorno à Clarissa, que teve meio da expectativa que eu acabei criando.

Antes de ler, me dei conta de que poucas vezes, esbarrei em autores de São Luís (MA) e este foi mais um dos motivos que se somou à lista de querer me fazer ler o livro de estreia da Clarissa, que é jornalista e atuou, assim como eu, durante algum tempo na redação de um portal nacional, exercendo funções mil e se afastando cada vez mais do que nos move: apuração e escrita.

Cidade Espanto é um livro que nos pega já pelo título. Nada óbvio e importante na atual conjuntura brasileira. Escrito durante o golpe que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nos trouxe ao governo de Bolsonaro atualmente. Por isso, contrariando tudo que se espera da literatura contemporânea atualmente, Clarissa Carramilo espanta, sem dúvidas, a literatura. E é uma voz pra lá de necessária. Merece ser lida e ouvida.

No livro, imergimos na rotina da protagonista, Antonela, que assim como a autora, é jornalista de um portal de notícias. Do momento em que ela acorda, toma banho, pega o carro, enfrenta o trânsito, o calor até chegar à redação, se relacionar, cobrir notícias e sofrer por amor. O livro apresenta ao leitor uma São Luís diferente dos cartões postais – ou nem tanto – mas nos incursiona a particularidades da cidade que passariam despercebidas em outro momento.

Fico feliz por ter conhecido este livro. É preciso falar de uma obra de estreia escrita por uma nordestina, LGBTQi+, romancista e com um bom livro de estreia, belissimamente escrito, com qualidade literária e, pra além disso, cinematográfica.

Permeado de cenas imagéticas, Clarissa já avisa o leitor “Esta obra, os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção. Qualquer semelhança com a Relidade, lembrete: é coisa dela mesma”. Já aí, sabemos que é um livro corajoso. E provocativo. É um livro que mexe com as estruturas e que faria ainda mais barulho se a literatura feita por mulheres não seguisse sendo ignorada.

Cidade Espanto é um livro político. Seja pela personagem, que é uma mulher lésbica amando, sofrendo A Grande Perda e envolvendo-se em crimes sociais, políticos, com uma garota de programa  e com várias mulheres que dão nomes aos capítulos do livro.

“Antonela não faz ideia de que estaria ligada durante anos àquela história, cuja cobertura esporádica cairia no seu colo diversas vezes, nem que o mandante do assassinato viria a apertar sua mão como forma de cumprimentar toda imprensa no dia do julgamento. Quatro horas de sono depois, acordou se dando conta de que a noite anterior havia sido real e não um pesadelo. Uma sensação de estranhamento tomou conta do seu corpo novamente”.

Carregado de poesia em seus diálogos, situações e frases, o livro marca mais a personalidade de Clarissa como escritora estreante. Recheado de beleza e ironia, onde conseguimos enxergar não só a militância velada, mas também a sofisticação de uma escritora que é uma grande leitora. Isso fica evidente a cada parágrafo que avançamos num fôlego só no livro.

Clarissa consegue nos emocionar e ao mesmo tempo, despertar a raiva. Consegue nos fazer intervir na narrativa. No crime que assassina Melina, a jornalista do livro, que é uma história real que ocorreu no Maranhão. E as frases, ali tão bem colocadas e nada por acaso, nos fazem sentir a mesma ira, o mesmo lugar, o mesmo cotidiano louco das redações e, o medo da morte, que temos nestes tempos espantosos.

Histórias silenciadas por uma imprensa comprometida e por décadas de oligarquia no estado ganham novos contornos, através da ficção – ou talvez nem tanto – e coragem de Clarissa. Sim, Cidade Espanto é um livro corajoso.

“Os fascistas não tem rosto, eles estão no meio de nós. Um general moralista de bigode, uma burocrata assinando ofícios, um intelectual escrevendo no café, uma líder do movimento estudantil entrando para a política, um revolucionário contra uma oligarquia, bons e amáveis pais e mães de família. São muitas as variáveis a dificultar a definição: o que é um fascista? Como é um fascista? Entre variantes diversas e suas listas intermináveis, há uma particularidade que segue firme: o fascista considera-se dono de algo, sobretudo da verdade. O azar do Maranhão é ter visto praticamente todas as variantes de um fascista reunidas em um só homem, que, de alguma forma, se tornou poderoso o suficiente para definir quem governaria ou não o Brasil: Vitorino Segundo”.

E com esta coragem, espero que você também possa ler o livro e descobrir que há literatura de muita qualidade sendo feita pelas mulheres às margens do país.

Resenha | Cidade Espanto
Autora: Clarissa Carramilo 
Editora: oitoemeio
Páginas: 94
Avaliação: *****

 

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