Resenha | Gabyanna, negra & gorda

Resenha | Gabyanna, negra & gorda

Encontrar um amor e formar uma família. É difícil dizer que nunca pensou sobre isso, seja de forma isolada – encontrar o amor – e – forma a família – ou as duas coisas juntas. Quem é que nunca imaginou que tudo se ajeitaria após o casamento? Quem é que nunca pensou que teria filhos – um ou vários – para não estar mais só no mundo. Quem é que nunca imaginou que a plenitude estaria nisso? Pois é, a Gabriela Rocha, contadora especializada na área tributária vive em Oslo, na Noruega e conta, no livro “Gabyanna – Negra & Gorda” as idas e vindas à procura de um amor que possa lhe dar a tão sonhada família.

Contando assim, pode parecer óbvio, mas não é. E o título do livro já entrega os motivos. Gabyanna é incrível: fala vários idiomas, já viajou o mundo, é animada, gosta de festas, de gastronomia, é bem-sucedida, mas é negra. E é gorda. E estas duas últimas características – impossíveis de se esconder – são as razões que ela encontra para ser tão incrível e ainda estar solteira.

Sem medo de julgamentos, ela abre o coração ao longo das 181 páginas do livro e conta como se envolveu com diversos homens, como tem uma vida sexual ativa, como usa os apps de namoro e as redes sociais para encontrar parceiros e como é solitária vivendo em outro país à procura de alguém que a aceite.

No livro, a personagem Gabyanna é uma jovem independente, que adora bailes de charme, shows, bares e viagens. Muito apaixonada pela vida, ela não tem medo de sonhar e acreditar que um dia pode encontrar um homem disposto a assumi-la publicamente, um dos grandes desafios das mulheres negras.

Enquanto sua vida no Rio de Janeiro tomava o seu rumo cotidianamente, Gabyanna é transferida para trabalhar em Oslo, na Noruega. Diante de uma grande mudança de vida, ela precisa decidir se deve fazer as malas e, quem sabe, continuar sua busca pelo amor nas terras geladas da Noruega.

“Amar é intrínseco ao ser humano e não importa as dores que a jornada nos promete. A gente sempre vai insistir”, diz Érika Leite no prefácio da obra, antes de anunciar que a Gabyanna se mostra colorida e quente –  e eu amo estas palavras – mesmo em meio a tantas adversidades. E é justamente isso que me faz gostar da Gabyanna. Ela insiste. Ela ama. Ela segue e tenta novamente. Ler o livro foi quase como olhar no espelho. Ainda que eu não seja negra. Sou gorda e periférica. Sei como é ser rejeitada. Mas, talvez eu não tenha o mesmo traquejo e tenha desistido. Ou dado um tempo beeeeem maior ao longo desta jornada.

“Gabyanna vive e é impossível não ser envolvida por esta vontade de insistir e de agir sempre para conseguir o que deseja”. E sim, isso é admirável. Eu já teria desistido. Na verdade, já desisti. Já não consigo acreditar que os homens gostam das mulheres e acredito, fielmente, que eles não nos amam. Apenas nos usam. E as inúmeras histórias do livro só deixaram isso mais evidente aqui pra mim.

Mas temos uma obra incrível, pulsante. Apesar disso, não deixa de ser dolorida. É, como já disse, encarar o espelho. Deitar no divã e se encarar.

“A gordofobia está em todo lugar. Na catraca do ônibus, no tamanho da poltrona do avião, nos olhares das pessoas enquanto uma gorda caminha pela rua, na acusação de preguiçosa ou da incapacidade de cuidar do corpo”.

Este é um dos trechos em que Gabyanna abre o coração. Durante todo o livro, ela oscila entre achar que é preterida em relacionamentos por ser negra e gorda. Ora, ela acredita que a etnia é a principal responsável por ela não ser assumida pelos homens com quem se relaciona, por não saírem de mãos dadas com ela, por não a apresentarem às famílias, por sempre tentarem tirar alguma vantagem financeira. Em outros momentos, ela conclui que, muitas vezes tentou amores afrocentrados e, ainda sim, foi preterida, o que ela atribui ao corpo gordo.

Apesar de todas as dores e amores, Gabyanna recusa fazer terapia ou análise. Ela acredita que sentar no bar com os amigos e abrir o coração pode ser mais vantajoso. E eu admiro. Admiro a coragem de recomeçar cada vez que dá errado. De seguir, mesmo com o coração partido. De se amar e não se permitir relações abusivas que durem mais do que alguns meses. Mas, de toda forma, o livro me deixa mais triste do que feliz. Se, por um lado, comemoro o sucesso de uma mulher negra e gorda na vida profissional e nas realizações e também no mercado editorial, lançando um livro bem massa, por outro, lamento que ele tenha sido necessário e que ela tenha precisado viver isso tudo. Que ela termine a obra sem ter encontrado o amor e pensando ainda sobre ter uma família. É absurdamente cruel o que o mundo faz com as pessoas que estão fora dos padrões estabelecidos. E mais cruel ainda a forma velada como isso acontece. Enxergar isso é um desafio, como ela mesma lembra:

“O principal desafio da mulher negra e gorda é se enxergar. E isso pode ser bastante difícil, porque não estamos no campo de visão de ninguém, nem de homens, nem de empregadores de grandes empresas”.

E isso é assustadoramente dolorido. Terminei de ler o livro dois dias depois que um segurança matou o jovem Pedro Henrique Gonzaga, de 19 anos, em um supermercado Extra, no Rio de Janeiro, após lhe aplicar uma gravata. O jovem era negro. Foi morto na frente da mãe e de populares. E ninguém fez nada. A sociedade sequer se comoveu com a morte. E, ler o livro da Gabyanna me deixa ainda mais triste diante disso tudo. De saber que ainda temos um longo caminho a ser percorrido.

“As pessoas comentam ‘diva, poderosa’. Mas, no fundo, continuamos sozinhas. Ninguém beija a gente na balada (..) Só que a gorda e negra também merece ser amada, como qualquer outro ser humano. Não é questão de raça, é sobre ter um coração batendo”.

Essa foi a parte do livro que mais mexeu comigo. Talvez porque eu evite falar das frustrações e rejeições. Talvez porque eu tente acreditar que não acredito mais no amor. Talvez porque eu tenha investido tudo em ser feliz profissionalmente e viajar e não mais em amar. Talvez porque eu não consiga admitir nem pra mim mesma o quão solitário é ser uma mulher gorda nesta sociedade.

Por vezes, fiquei brava. Tive vontade de intervir. De dizer para ela parar. De dizer que os homens não gostam das mulheres. Que eles não valem a pena. Que eles só nos usam. Que a sociedade menospreza mulheres gordas e negras. Que o mundo não nos merece. E que ela é incrível. E que não está mais solitária. Que a gente precisa se unir. Se dar as mãos. Quebrar estes padrões.

E achar o livro é dividir esta solidão. É como conversar com uma amiga que realmente te entende. E o que eu mais amo na Gabyanna é que ela se aceita. Ela não tenta emagrecer. Não tenta se embranquecer. Ela é ela mesma. E acredita que vai encontrar um amor que a valorize exatamente assim, como ela é. E é isso.

Mas, pra além da frustração, é uma obra que diverte. Que faz rir. Que faz querer ser amiga de Gabyanna e viajar com ela pelo mundo, pelos bailes de charme, pelos shows de rap, pelos bares de Oslo. O livro nos faz ter vontade de viver mais intensamente. Ela se permite e a gente fica se perguntando: por que não?

E eu espero que logo menos ela possa escrever um segundo título nos dizendo que sim! Que encontrou o amor, que formou uma família e que está ainda mais feliz. Até lá, a gente segue refletindo sobre como é ser fora de padrão – negra e gorda – nesta sociedade atual.

 

Resenha | Gabyanna – Negra & Gorda
Autora: Gabriela Rocha 
Editora: Schoba
Páginas: 181
Avaliação: *****
O livro foi uma cortesia da autora 

 

 

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