Quando a vítima vai parar no banco dos réus, o caso de Marie, no livro “Falsa Acusação Uma História Verdadeira”

Quando a vítima vai parar no banco dos réus, o caso de Marie, no livro "Falsa Acusação Uma História Verdadeira"

Publicado no Brasil pela editora Leya, obra foi escrita pelos jornalistas T. Christian Miller & Ken Armstrong 

Imagine sofrer um estupro na sua própria cama, denunciá-lo à polícia e acabar como ré do próprio processo, acusada de mentir à polícia. Por mais inverossímil que pareça, isso aconteceu na vida de Marie, quando, aos 18 anos, foi vítima de um estupro e acabou sendo processada pelo estado e esta é a história contada no livro “Falsa Acusação Uma História Verdadeira”, dos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong, vencedores do Prêmio Pulitzer.

Lançando neste ano pela editora Leya, com tradução de Daniela Belmiro, o livro teve início com um artigo que os jornalistas escreveram para o site ProPublica e começa com a história de Marie, que revela os meandros da cultura do estupro no mundo e como uma jovem de 18 anos pode passar de vítima à ré baseada em achismos.

Marie, uma jovem que viveu toda a vida em lares temporários e adotivos, que sofreu abuso ainda criança, que, pela primeira vez na vida estava vivendo uma “vida normal”, foi vítima de um estupro dentro da própria casa. No relato feito à polícia, ela confundiu detalhes do que houve. Mais tarde, ela não reagiu como esperavam algumas pessoas próximas. Ela não se comportou, segundo a polícia, como vítimas de estupro devem se comportar. E uma sucessão de erros investigativos e de depoimentos fez com que ela terminasse assinando uma confissão de que teria mentido. Ao voltar atrás, foi intimidada e ameaçada de que poderia perder o local em que vivia e até ser presa. Marie teve todas as provas do crime descartadas e só depois de um intenso trabalho conjunto entre equipes de polícia de diferentes distritos é que teve a verdade revelada.

Vale destacar também os perfis das detetives, Stacy Galbraith e Edna Hendershot, tão bem escrito e cuidadoso feito pelos repórteres e também o trabalho de ambas, que garantiu que Marie fosse indenizada pelo crime que o estado cometeu contra ela e que outras vítimas encontrassem, finalmente, algum tipo de justiça.

Com um exímio trabalho de apuração – que me faz ter ainda mais fascínio e paixão pelo jornalismo investigativo e literário – os repórteres conseguem recuperar cada detalhe da história que fez não só Marie, mas outras mulheres vítimas de um mesmo abusador. Uma verdadeira aula prática de jornalismo e responsabilidade com os envolvidos.

Apesar do tema espinhoso, é um livro que me deixou muito feliz, começando pelo fato dele existir. As estatísticas de estupro são sempre obscuras e envoltas de medo, crimes que não foram denunciados e vítimas como a Marie, acusadas de mentir e, ver dois homens se lançarem, através de um projeto de bolsa de reportagem, numa pesquisa bastante atenta aos detalhes e muito cuidadosa. E me deixou ainda mais feliz saber que dois homens se importaram com o assunto – e conseguiram através da minuciosa checagem, contar uma história de dor, revolta, mas também de resiliência e muito aprendizado.

Sem obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos, os repórteres nos apresentam as personagens reais da história com detalhes sobre suas roupas, seus móveis, a disposição dos objetos em suas casas e salas, a cor de seus cabelos, seus pratos preferidos, suas relações mais íntimas, mas, tomam todo cuidado do mundo ao descrever a cena dos estupros, para que não sejam erotizadas, mas revelem o momento em que tantas mulheres foram violadas.

Mais do que isso, o livro traz também um perfil do agressor. Do homem frio e meticuloso, que agia como um profissional do estupro e mantinha uma vida dupla. E o faz com total responsabilidade.

Jornalistas responsáveis por contar a história, T. Christian Miller & Ken Armstrong (foto: Divulgação)

Confesso que, como jornalista, já reportei inúmeros casos de abuso, estupro e agressão sofrido por mulheres, mas, foi só depois da chegada do feminismo à minha vida é que percebi que existe um jeito responsável de fazer isso e, foi só depois de ter me tornado ré do cara que foi abusivo comigo por anos – lembrando que ele não me estuprava ou batia, mas deixou inúmeras marcas psicológicas – é que entendi, com muita propriedade – e raiva, frustração e impotência – o que ocorre nestes casos. É que entendi – e chorei junto com Marie – o que movimenta as engrenagens do machismo para que fiquemos sob suas asas, respondendo, submissas, aos abusos que sofremos.

Fiquei muito feliz por me encontrar com esta obra. Senti que minha voz está ali, exposta, de alguma maneira, nos depoimentos de outras mulheres que foram vítimas do machismo. Senti que tantas outras – que escaparam e conseguem viver – também se sentem representadas pelo trabalho dos repórteres.

O livro me chegou justamente em um dia que eu conversei com uma amiga sobre um caso que ocorre no Brasil em que uma jornalista acusa dois parlamentares de terem sido abusivos com ela. Ela é processada por ambos – e, por sorte, tem uma família rica para bancar o processo – e, circula um laudo médico dizendo que ela mente compulsivamente. Contrário a isso tudo eu e algumas outras mulheres acreditamos nela. E em tudo que ela relata. E, talvez cruzar esta linha seja só para quem já viveu algo parecido e percebe que não dá pra padronizar comportamentos ou exigir que vítimas sigam uma cartilha de reações.

No entanto, a obra me fez ver que seja no Brasil, seja nos EUA, os mitos que cercam o estupro e a relação do comportamento, do tamanho da roupa, do local em que estavam ou da quantidade de álcool ingerida. Isso, claro, quando não relacionam, claro, tudo isso à loucura. A famosa frase “ela é louca” é a mais recorrente em casos envolvendo abusos e estupros. E não importa o país.

Outro ponto que os jornalistas trazem com muita competência é a desumanização da vítima, que é tratada de todas as formas que uma pessoa que relata ter acabado de ser violada não deve ser. Entendo o livro como mais um pingo de luz em meio à muita escuridão e projetos que são criados para dar manutenção à cultura do estupro e impedir que vítimas sejam atendidas gratuitamente, tenham o atendimento que precisam e o acolhimento necessário. A obra jornalística é uma denúncia contra a precarização do trabalho policial, o despreparo e o machismo.

“Na internet, a ‘linha do tempo mundial de falsas denúncias de estupro’, mantida pelo sujeito de Londres continua exibindo até hoje o caso de Marie em Lynnwood. O nome dela continua sendo usado para dar força ao argumento do sexo consensual seguido de arrependimento. A verdade ainda não venceu a mentira” ___ página 283

O trecho acima revela como as vítimas são vistas pela sociedade e, mesmo após a prisão do agressor, os casos ainda são lidos – e divulgados – como tendo sido de sexo consensual. O livro deixa claro que as mulheres são duplamente vítimas. Tanto do abusador quando da sociedade, totalmente despreparada para lidar e tão desesperada para manter o machismo em curso, o que autoriza comportamentos como este.

É também um grito em nome de todas nós, mulheres que um dia fomos silenciadas, seja por nossos abusadores, seja pela família, seja pela polícia. É um livro que me fez ter vontade de voltar a escrever reportagens sobre o tema. E sobre tantos outros temas silenciados. É uma forma de dizer pro mundo que não, não estamos loucas. Que não estamos mentindo. Que o tamanho da nossa roupa não importa. E é também um livro que deveria ser obrigatório. É um livro muito bom. Em muitos momentos, esquece-se que se está lendo um livro-reportagem e a impressão é de que estamos diante de um thriller. É uma história muito bem conduzida. São personagens muito bem construídos. É uma obra digna do prêmio que recebeu e de tantos outros. É um livro que deveria ser adotado como leitura obrigatória nas faculdades de jornalismo e direito. É um livro humano. Que humaniza não só as vítimas, mas também o algoz. É um livro que humaniza. E isso é muito.

E agora nos resta esperar pela série inspirada no livro que deve chegar à Netflix em 2019, com o nome de “Unbeliveble”.

Resenha | Falsa Acusação Uma História Verdadeira
Autoraes: T. Christian Miller & Ken Armstrong 
Editora: Leya
Páginas: 334
Avaliação: *****
O livro foi uma cortesia da editora Leya

 

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