“Se não eu, quem vai fazer você feliz?” conta a história de amor entre Chorão e Graziela Gonçalves

"Se não eu, quem vai fazer você feliz?" conta a história de amor entre Chorão e Graziela Gonçalves

História de amor nos fazer ter vontade de viver nossos próprios sonhos, afinal, temos tão pouco tempo

Que eu sou a louca dos livros, rata de livraria e biblioteca todo mundo já sabe. Eis que, na última quinta-feira eu estava em uma unidade da Livraria Cultura em São Paulo e me deparei com o livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz? – minha história de amor com o Chorão”, da Graziela Gonçalves, a Grazon, pela editora Paralela. Viúva do músico Alexandre Magno Abrão, o Chorão, líder e vocalista da banda Charlie Brown Jr., morto em 2013.

Ao lado de Champignon, Renato Pelado, Thiago Castanho e Marcão, Chorão foi fundador e vocalista da banda Charlie Brown Jr., sendo o único integrante a participar de todas as formações da banda. O artista ainda foi idealizador e roteirista do filme O Magnata, protagonizado por Paulo Vilhena. O cantor foi encontrado morto em seu apartamento, em março de 2013.

Fui fisgada pela capa, pelo título, pela imagem do casal sorridente, pela paleta de cores escolhida pela editora Paralela para esta publicação e pela curiosidade de saber mais dessa banda que eu cresci ouvindo e sempre curti muito, ainda que com uma certa distância dos bastidores.

Entre um segundo de dúvida e a ânsia de ler a história, adicionei o livro a uma pilha que eu já tinha em mãos e pronto, tava feito. Comecei a ler na noite daquela quinta-feira mesmo e foi impossível largar o livro.

Pronto. Eu tinha devorado toda a história de amor de um dos maiores ícones da cena musical brasileira. E que história meus caros, que história. O livro é todo escrito em primeira pessoa e tem início nos primeiros anos de vida da Grazi, passando pela adolescência, até conhecer o músico nas ruas e baladas de Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo, onde ambos moravam à época. Caiçara, Grazi conheceu o músico “achou o cabelo dele engraçado”, como entregam os versos de “Proibida pra mim”, clássico do primeiro disco da banda, quando ele se mudou, aos 17 anos, de São Paulo para a cidade, para viver com o pai, após a separação dele com a mãe.

O mais louco é que, conforme eu fui lendo o livro, fui revivendo minha própria adolescência, marcada pelo som da banda, que estourou nas rádios de todo o país no final dos anos 1990 com “O coro vai comê” e “Proibida pra mim”. Eu, com meus 12/13 anos, não tinha MTV em casa (em Minas Gerais, só pra assistir via TV por assinatura, e eu não tinha), mas meu primo, aficionado por música nacional, gravava os clipes em VHS pra mim e eu passava horas e horas em frente à TV, decorando os novos sucessos, vidrada nas produções audiovisuais e outras tantas horas percorrendo as já quase totalmente extintas bancas de jornais da cidade, em busca das revistas adolescentes (Toda Teen, Capricho, Atrevida, etc) para ter os posteres dos que eram os poetas da nossa geração.

Lembro que quando assisti pela primeira vez ao clipe de “Proibida pra mim” fiquei encantada. Nele, a modelo Alessandra Scatena aparece sobre patins na orla santista. Era a mesma época em que eu não tirava meu roller dos pés e adorava os garotos que andavam de skate. Ler o livro e entrar em contato com a história foi revistar minha própria adolescência e quase morrer de tanta nostalgia de um tempo muito feliz e divertido da minha história.

Com 16 capítulos e o epílogo, a linguagem que Grazi usa no livro é bem direta. Às vezes, tive a impressão de estar lendo um diário muito bem escrito. É uma história quase linear. Em poucos momentos ela avança na história para, no ponto seguinte, voltar a explicar com mais detalhes algum fato que marcou a história dela com o Chorão. É, o tempo todo, uma história de amor. E é uma história que sabemos o final. Não tem spoiler. A gente sabe que termina de uma maneira muito triste, mas, ao mesmo tempo, é muito edificante ler o livro e saber mais sobre um cara que marcou toda uma geração com a sua música e poesia.

Por diversas vezes, enquanto eu lia o livro, me senti absurdamente triste e perdida por saber que não tem mais volta. Que é impossível tirar o Chorão daquelas páginas e do passado. Tomei um susto ao constatar que já faz 5 anos que ele se foi e que estamos em queda livre desde 2013, o ano que se recusa em terminar. Terminei o livro com a sensação de “quero mais”. Fui pra internet e reassisti todos os documentários e programas disponíveis com a banda. Passei boras horas lendo artigos e revendo programas de entrevista. Ouvi toda discografia de forma ininterrupta. Talvez, quando Chorão se foi, eu não tenha feito isso. Era um tempo difícil pra mim também. De muita depressão, trabalho e relações abusivas e falta de poesia cotidiana. Talvez eu só tenha tido tempo de parar e sofrer por isso agora, 5 anos depois, lendo o livro.

O fio condutor do livro é a história da banda. Grazi detalha inúmeros episódios com a história do Charlie Brown Jr. e, na minha impressão, ela acerta as contas com a própria história e o papel desempenhado dentro da banda. Não foi uma, duas, nem três vezes que eu me enxerguei plenamente na pele dela diante da banda. Ora quando ela consegue o primeiro show, se passando por RP da banda, ora quando ela descobre o viés ainda inexplorado que eles devem seguir, ora quando ela toma frente de tudo, ora quando ela é a pessoa que está ali, o tempo todo, pronta para o que vier, ora quando ela “abre mão” de ir nas turnês e fica em casa, esperando, aflita, que tudo dê certo. Senti ali uma mulher que se dedicou por duas décadas à carreira do namorado e marido e se viu, muitas vezes, impedida de se dedicar à própria vida e aos próprios sonhos.

Não quero ser leviana ao dizer que enxerguei traços de um relacionamento abusivo ali – exatamente como o que eu já vivi – porque fica evidente o amor entre os dois no livro, afinal, o livro é também sobre isso, mas, percebi que muitas vezes, Grazi foi negligenciada e se negligenciou pelo bem do futuro do Charlie Brown Jr. E, imagino que escrever o livro foi o acerto de contas com isso, onde ela tomou o seu lugar na banda, que, claramente vai muito além da esposa do vocalista.

Uma das muitas fotos do casal que encontramos dentro do livro

Grazi foi muito mais do que a musa inspiradora de Chorão ou a primeira dama do Charlie Brown Jr. Em inúmeros momentos ela fez o papel de empresária, assessora, secretária e, não raras, mente pensante. Tem muito dela nas letras, nas ideias, nas negociações, nas mediações, na formação da banda, no carinho com que tratou todos ao longo desses mais de 20 anos que o Charlie Brown Jr. se manteve em alta no cenário da música brasileira, vencendo várias edições do VBM, vendendo um sem número de cópias de discos e fazendo turnês nacionais e internacionais.

O livro alterna entre o clima de romance entre o casal, os shows, os percalços com a banda, as viagens, até chegar ao período sombrio em que os músicos Champignon, Pelado e Marcão deixaram a formação original da banda, provocando uma das depressões que assolaram o músico Chorão, passando para o período ainda mais triste, em que ele começa a usar drogas, se descontrola por ciúmes e se afunda nos próprios sentimentos de tristeza e raiva.

Mas, o livro também mostra a própria Grazi forte, muito forte. Machucada pelo relacionamento, por ter aberto, tantas vezes, mão do próprio sonho para viver o de Chorão ao lado dele e, são raros os momentos em que não sentimentos vontade de abraçá-la, sentar para conversar e fortalecer.

Como já disse, me enxerguei em muitas partes da história, desde as melhores, como a nostalgia do início, até as mais sombrias, que mostram como adoecemos em uma relação que deixa de ser saudável e criamos o que chamam de coo dependência. É um livro triste, como eu também já disse. É um livro que sabemos o final, mas, que, para quem acha que “o impossível é só questão de opinião”, lemos tentando encontrar uma brecha para mudar o destino, para desfazer 2013, para resgatar o Chorão dele próprio, para mostrar pra ele que ele era um cara bom, inspirador, com um coração lindo. A sensação é que faltou tempo, sei lá. É que 20 anos de carreira foram muito pouco pra uma banda como Charlie Brown Jr. Que 20 anos de amor pro casal que se curtia tanto foi pouco. Aliás, me pus a pensar quantas vezes vivemos em busca de um amor que traga tanto sentido assim, apesar das dores.

Bilhetes trocados pelo casal também são reproduzidos no livro

Terminei o livro muito sentida por saber que nunca mais vamos conseguir abraçar o Chorão e dizer como ele foi importante pra gente. Que nunca mais vamos poder dizer pra ele o quanto as letras dele nos inspiram, tanto nos dias felizes como nos dias tristes. Não vou poder dizer como me identifico com ele na rebeldia e no coração puro. Na forma de ficar puta e pedir desculpas depois. No coração grande e na vontade de incendiar o mundo. Dói saber que não vou poder contar como a história dele é inspiradora. Como a vida sofrida dele no início parece com a minha e da de milhões de pessoas. De como queremos viver nossos sonhos e ser felizes. E dói. É triste sabermos que não poderemos dizer pro Marginal Alado como compreendemos suas dores e todo seu amor. Mas, a parte boa é que temos suas músicas, seus discos e agora, este livro pra lá de bacana.

Um dos pontos altos do livro são as fotos pessoais que ele traz, de Grazi e Chorão, ao longo de sua vida. É uma delícia olhar pro sorriso lindo que o Chorão tinha e entrar na intimidade deles de uma forma tão bacana, conhecendo tantos momentos importantes e bonitos. Poderia, inclusive, ter mais fotos. Os rascunhos dos bilhetes, com a letra de ambos, reproduzidos no livro, dão o toque de diário que eu comentei no início da resenha. Por vezes, me senti uma amiga de Grazi ouvindo confidências. E, não raros os momentos em que eu quis me sentar com ela, pegar na mão e dizer: miga, tamo juntas. Vamos resistir e resolver!

Outra falta que senti foi de um destaque maior pros trechos das letras citadas. Poderiam estar em negrito ou itálico, sinalizando que são letras/poesias da banda. (e que eu amo <3), mas isso não diminui a obra, que já é obrigatória para os fãs do Charlie Brown Jr., do Chorão, ou só pra quem gosta de uma boa história de amor.

Fotos do casal são encontradas em diferentes passagens do livro

Não existe lição de moral no livro, pedido de desculpa ou redenção. Existe a história de uma mulher que amou um cara. Uma história incrível, entre duas pessoas que suas artes também dizem ser incríveis. Existe um ponto de vista sobre uma história contada e recontada pela imprensa, pelas redes sociais, pelos fãs e pela própria música. Existe uma história muito tocante e que mexeu comigo. Que me fez agradecer pela minha própria vida, trajetória e chance de ter crescido com o som da banda nos falantes.

Estou muito grata por ter conhecido a história e por ter comprado o livro pra ler com o coração aberto. Funcionou como muitas horas no divã. Funcionou para eu entender minhas próprias posturas. Funcionou pra me encher de amor e esperança e para me fazer valorizar o agora, mais do que tudo. Ás vezes pode não dar mais tempo, então “vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo”.

Espero que esta resenha, assim como o livro, tragam pra vocês o que trouxeram pra mim: muito amor. Encerro com um trecho da Grazi, que simboliza bem o que representou pra mim:

“Apesar das cicatrizes que ficaram em nós dois, hoje consigo olhar para esse episódio da nossa vida com mais generosidade e amor. Éramos dois jovens cheios de planos, mais imaturos do que gostaríamos de admitir. Não existem culpados. Assim como não é possível passar por essa vida sem cometer erros”

Resenha | Se não eu, quem vai fazer você feliz?
Autora: Graziela Gonçalves
Editora: Paralela
Páginas: 262
Avaliação: *****

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