Quando você vota no Bolsonaro, você me mata!

Quando você vota no Bolsonaro, você me mata!

Queridos amigos e familiares,

“Eu vi vencedores nos olhos de muitos derrotados. Dignidade é tudo”.
___ Sérgio Vaz

Este texto não é pra tentar te fazer mudar seu voto. Seria incoerente da minha parte, já que uma das coisas que mais gosto na democracia é a nossa possibilidade escolher quem melhor se alinha com nossas propostas e valores. Mas, é um texto para que você saiba que, ao votar em Bolsonaro, você me mata. E eu preciso que você saiba disso.  Eu preciso que você saiba que os números que você aperta no teclado da urna eletrônica disparam uma arma – que você defende o uso – diretamente na minha cabeça. Eu preciso que você saiba que quando você aperta os número pra eleger Bolsonaro, as teclas 1 e 7 da sua urna eletrônica ficam sujas de sangue. Do meu sangue. Do sangue dos meus pares. E você tem que saber disso.

Você tem que saber que quando você vota em Bolsonaro, você me assassina.

Você me mata porque eu sou mulher. Porque você, mulher que vota no Bolsonaro, só pode fazer isso porque outras, como eu, feministas – que você adora estereotipar e rechaçar chamando de histéricas, peludas, gordas e feias – tiveram a mesma coragem que eu tenho, foram pras ruas, enfrentaram o machismo, o patriarcado, morreram, mas garantiram que a gente possa votar hoje.

Você me mata porque outras mulheres como eu morreram para que todas nós pudéssemos trabalhar. Você me mata porque eu sou mulher e seu candidato prega que mulheres devem ganhar menos porque engravidam.

Você me mata porque eu sou jornalista e ele é contra liberdade de imprensa. Você me mata porque, na democracia, o Brasil é um dos países que mais mata jornalistas. Não preciso nem dizer como é numa ditadura, não é mesmo? Você me mata porque meus pais, que só tiveram a chance de estudar até o 4º ano do ensino fundamental, trabalharam a vida toda para que eu pudesse cursar uma universidade.

Você me mata porque eu trabalhei 10h por dia, durante dois anos e viajei outras 4h por dia pra fazer meu mestrado e ele é contra a educação, contra a universidade pública, contra as bolsas de pesquisa, contra os cursos na área de humanas.

Você me mata porque ele quer me censurar. Você me mata porque eu sou artista e ele é contra artistas. Você me mata porque ele é contra “ideologias” e eu tenho as minhas muito fortes. Eu acredito, por exemplo, que todo mundo deve ter direito à alimentação, moradia, estudo e saúde, mas, sou ameaçada por candidatos que acham que pessoas que acreditam nisso devem acordar com coturno no pescoço.

Você me mata porque eu acredito que pessoas devem ser tratadas como pessoas e não exterminadas por serem pobres, negras, gays, lésbicas, trans, feministas, ou diferentes do que seu candidato entende como “cidadão de bem”.

Aliás, você me mata porque eu sou cidadã de bem. Eu sempre trabalhei com carteira registrada – até ser demitida e poder trabalhar como microempreendedora individual, atividade que só foi regulamentada no governo que você odeia – não me envolvo em brigas, nunca fui presa, não tenho armas em casa, pago meus impostos, nunca soneguei nada, nunca recebi dinheiro de propina, nunca desviei R$ 1 de onde quer que seja. Meus documentos estão em ordem. Eu voto em todas as eleições. Eu paro na faixa de pedestre. Eu não bebo e dirijo. Eu não ultrapasso pela direita. Eu não estaciono em vagas preferenciais.  Eu quero que as pessoas tenham igualdade de oportunidades na vida. Eu sou do bem. Por que você quer que eu não exista?

Você me mata porque eu não tenho medo. Eu tenho tristeza. E essa tristeza faz com que eu murche. Não queira sair de casa. Você me mata porque meus amigos são agredidos por causa da orientação sexual deles. Você me mata porque quer impedir que as pessoas se amem. Você me mata porque meus amigos são negros. Você me mata porque eu moro no bairro mais pobre e distante do centro da cidade que eu vivo.

Você me mata porque eu só consegui ter uma profissão diante de muito trabalho e esforço individual. E você não quer que eu tenha. Eu trabalho muito. E você me mata porque me chama de vagabunda. Você acha mesmo que eu sou vagabunda? Ou só repete, feito um robô, o que te dizem para repetir, pra defender um conservadorismo que sequer você pratica?

Você me mata porque o candidato que você quer para presidente quer extinguir o Ministério da Cultura e a maior parte dos meus trabalhos é oriunda de verbas captadas pela Lei Rouanet através da dedução de impostos das empresas. Você me mata porque meu trabalho é com literatura e antes mesmo dele ser eleito já estão censurando livros, rasgando e queimando. Por que você apoia isso?

Você me mata porque eu sou escritora e ver os meus passarem por isso ofusca meu brilho e meu prazer na vida. Você me mata porque eu sou poeta, mas faltam palavras pra dizer como é horrível saber que seus irmãos, familiares e amigos não querem que você exista. Você me mata porque não quer mais que eu vá às ruas lutar por mim e por você. Você me mata porque não quer mais que possamos votar. Você me mata porque acredita que o grito é melhor que o diálogo.

Você me mata porque eu queria te dizer que você é pobre. Não importa que você ganhe R$ 3 mil por mês. Que você ganhe R$ 20 mil por semana. Que você ganhe dinheiro honestamente ou de propina. Você é pobre. Qualquer ação no país pode te impactar. Você não detém os meios de produção. Não influencia nas decisões. Sua empresa não é tão grande quanto você pensa. Seu concurso público te diz o óbvio: você trabalha pro estado. E você me mata por defender a quebra, inclusive, dos seus próprios direitos.

Você me mata porque meus amigos são todos periféricos. Você me mata porque eu acredito nas pessoas. E no melhor que elas têm. Você me mata porque acredita que votar em um partido de esquerda é escolher uma ditadura. Você me mata porque grita quando eu tento conversar com você e te explicar que, no plano de governo do Haddad, do Ciro, do Alckmin, da Marina, do Cabo Daciolo, não existem propostas para fazer os brasileiros morrerem de fome, como você acredita – ou finge – que esteja acontecendo na Venezuela. Você me mata porque me manda pra Cuba. E quer me exilar do meu próprio país.

Você me mata porque me chama de vagabunda, de petralha, de idiota, de burra. Mesmo sabendo que eu não sou. Mesmo sabendo que eu estudei muito. Que eu trabalhei – e trabalho muito. Que eu sou honesta. Que eu gosto de ver as pessoas bem. Você me mata porque eu faço saraus nas praças. Porque eu arrecado livros juntos às editoras e autores e distribuo para pessoas que moram em periferias. Você me mata porque eu trabalho com culturas periféricas. Você me mata porque me ofende a cada postagem, a cada meme, a cada vez que fala comigo, mas não me ouve.

Você me mata porque não quer mais me ver trabalhando com que eu amo. Porque não quer me encontrar mais na rua. Porque quer exterminar meu amigo que é casado com um homem, minha melhor amiga que é casada com uma mulher, meus amigos – quase todos jornalistas ou de humanas – meus amigos pesquisadores da área de ciência e tecnologia. Você me mata e mata aos meus. Você me mata e mata também meus pais, já idosos, que enfrentaram a ditadura por 21 anos. Que viram um país ser silenciado e a a corrupção crescer exponencialmente, mas ninguém falava, porque quem falava morria.

Você me mata porque eu te amo. E não queria acreditar que você apoia isso. Que você realmente me acha vagabunda. Que você realmente acha que eu, meu pai de 79 anos e minha mãe de 70 devemos morar em Cuba ou na Venezuela. Você me mata porque não quer que eu frequente os mesmos espaços que você. Me mata porque não me quer no restaurante que você almoça, na universidade que você frequenta, no bar que você bebe, no aeroporto que você embarca, no hotel que você se hospeda.  Mas eu, e os meus pares estão lá. E você me mata porque me odeia, mesmo eu sendo sua irmã, sua tia, sua comadre, sua amiga de faculdade, sua prima, sua colega, sua vizinha. Você me mata porque eu só desejo um país com mais igualdade, porque eu respeito as orientações sexuais de cada pessoa, porque eu ando com pessoas negras, com indígenas, com imigrantes, com jornalistas, com poetas.  Por que você me mata?

Você me mata quando naturaliza a morte de uma criança. Quando acha que as pessoas escolhem morar em favelas. Quando acha que é normal uma cidade viver sob intervenção. Quando compactua com militares estuprando garotas nas favelas, quando defende o estupro de uma jovem por 33 homens. Quando vota num homem que tem um projeto de lei que impede o atendimento às vítimas de estupro pelo SUS.

Você me mata quando diz que não precisa de pessoas iguais a mim na sociedade. Você me mata porque eu sou uma mulher gorda. Você me mata quando me chama de porca. Quando me trata como escória. Quando me chama de pária. Quando exige que o governo me mate, me torture, me tranque num porão. Você me mata quando acha natural que uma mulher grávida seja torturada. Que mulheres tenham ratos enfiados em suas vaginas. Você me mata quando vota num homem que apoia o maior torturador brasileiro e o reverencia. Você me mata quando escolhe um candidato que deseja que a presidente eleita democraticamente saia do poder infartada.

Você me mata quando me olha nos olhos e ainda sim, aperta 17 na urna. Você me mata quando acredita que um homem que diz que algumas mulheres merecem ser estupradas, que diz que negros pesam “arrobas”, que diz que não demarcará terras indígenas no país, que diz que eu e todos os meus amigos, pai, mãe e cachorro, vamos acordar com o coturno no pescoço. Por que você faz isso? Você me mata quando me dá os parabéns por eu ter feito algo, mas aperta o 17 na urna, sabendo que seu candidato afirma que sonega quantos impostos for possível. Você me mata quando diz que vota contra a corrupção, mas nós sabemos que você não honesto. Você me mata quando diz que vota contra a corrupção, mas seu candidato diz que através do voto não se pode mudar nada no país. Você me mata quando vota num candidato que diz que o erro da ditadura foi torturar e não matar. Por que você faz isso?

Como você tem coragem de continuar olhando a mim e aos meus nos olhos, sabendo que seu candidato não vê a hora de assumir o comando do país pra mandar torturar e matar pessoas como eu, porque eu fui pra Cuba, porque eu ouço rap, porque eu faço eventos literários, porque eu sou jornalista, porque eu acredito que todo brasileiro deve ter comida na mesa, acesso ao estudo, posto de saúde com médicos – ainda que cubanos – próximo e carteira de trabalho assinada, com direito a 13º, férias, etc.  Por que você faz isso?

Por que você quer que eu e os meus não existamos mais? Qual é o seu prazer em nos torturar? Você sabe, nós somos maioria. Mas, seu candidato acha que as minorias – ou ainda sim, nós – devemos nos curvar. Você me mata quando acha que crianças devem saber fazer sinal de arma com as mãos, mas sequer sabem segurar a caneta e assinar o próprio nome. Você me mata quando acredita que o ensino à distância desde a infância é melhor do que a corrupção.

Você me mata quando usa os programas sociais, mas vota contra eles. Quando comete todas as corrupções pequenas e possíveis no dia a dia, mas aperta 17 “contra elas”. Você me mata quando compartilha fake news.

Você me mata quando diz que eu tenho bandidos de estimação. Eu não tenho. Eu tenho amor por meu país, pelos direitos das pessoas e por você, que ainda sim, me mata. Quando você vota 17, com a mão ou com a arma. Quando candidatos do partido que você apoia rasgam a placa com o nome da Marielle, você me mata. Você a executa de novo. Quando ninguém consegue esclarecer a execução dela, você me mata. E quando você legitima a execução dela. Você mata a mim, aos meus. E você tem a coragem de me ter no seu Facebook, no seu Instagram, no seu Whatsapp e me mandar gif de bom dia? Você me mata e me deseja feliz aniversário e feliz Natal? Você me mata, mas me cumprimenta na fila do pão. Você me mata, porque leva, com sua convicção na “mudança”, a minha esperança no país.

Você me mata porque eu quero continuar convivendo com você, mas você não quer que eu exista. Você me mata porque eu não quero te excluir das minhas redes sociais. Eu não quero te excluir da minha vida. Mas você quer que eu não exista. Você é contra a democracia e, consequentemente, contra mim mesma.

Você me mata porque é fascista. Você me mata porque sua luta não é contra corrupção. Ela é contra mim. E contra pessoas que estão comigo no dia a dia, lutando pela democracia e por melhores condições para todos nós. Você me mata porque repete, como um disco arranhado, que odeia o PT e a corrupção, mas ignora que o partido do seu candidato é o campeão de denúncias envolvendo corrupção. Você me mata porque sua luta é contra mim. E contra quem eu amo.

Você me mata todos os dias. Mas eu não te odeio. Eu quero acreditar que você está desinformado. Que você não sabe que seu candidato prefere horrores. Quero crer que você não sabe que ele repete frases de Hitler. Quero acreditar que você não sabe que corremos o risco de voltar a ter uma ditadura.  Quero confiar que você não sabe que mesmo com todos os defeitos de uma democracia, inclusive a corrupção que nos assola, ela é melhor do que qualquer regime autoritário. Que o combate à corrupção só é possível numa democracia. Com a liberdade de imprensa. Quero também que você acredite que eu voto no PT porque é o menos pior que temos atualmente. Não compactuo com tudo do partido ou seus candidatos, mas, pra mim, a tortura, a morte, a violência e o ódio são piores.

Você me mata todos os dias. Você me mata muito. Mas eu não quero te excluir da minha vida. Eu só quero você saiba disso. Quero você tenha consciência de que no próximo dia 28 de outubro, quando você for votar para presidente no segundo turno e apertar o 17, escolhendo Bolsonaro, você está me matando. E não só a mim. Você está matando meus sonhos, minha profissão, as pessoas que eu inspiro.  Você está matando meus amigos. Meus professores. Meus colegas. Você está matando meus pais. Meu cachorro. Os pássaros que vêm na minha casa. Você mata o meu e o seu futuro. Você mata tudo que construímos nestes poucos anos de democracia. Você me mata porque eu acredito no amor. 

Eu não espero que você mude seu voto. Mas espero que você saiba, que da próxima vez que me ver na rua, na minha casa, na fila do pão, no check-in do aeroporto, você terá me matado.

Eu não tenho medo de morrer. Eu morro todos os dias. Mas eu sigo adiante. De punho erguido. Um sorriso nos lábios. A luta não para. Mas, você precisa saber que você me mata. Eu lamento muito por nós. E eu te perdoo por isso. Talvez um dia você perceba que arma que você empunha nas suas fotos, no seu perfil, sob a minha cabeça, também te mata e que estamos juntos. Só de lados diferentes. Eu, lutando. Você, atirando. Eu te respeito. É a democracia. Mas você me mata. E eu espero ainda estar aqui, te esperando, quando você vier me ajudar a levantar e não me matar mais.

Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de não lutar.

  • Jéssica Balbino é jornalista e acredita na democracia

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *