Autora afrofuturista N.K. Jemisin recebe prêmio de literatura sci-fi 3 vezes seguidas

Autora afrofuturista N.K. Jemisin recebe prêmio de literatura sci-fi 3 vezes seguidas
Imagem: Momentum Saga

Segundo volume do universo distópico de “A Terra Partida” chega ao Brasil em setembro pela Morro Branco

Em algumas semanas começa a primavera no Brasil. Passeios ao ar livre, sábados de sol e flores cobrindo o chão são cenas comuns nesse período – quase sempre agradável ao corpo e aos olhos. Mas como seriam as estações do ano num mundo desequilibrado e com terremotos semi-controlados por humanos? Existiriam estações?

É justamente num cenário apocalíptico, pós-aquecimento global e além-estações que a narrativa instigante de N.K. Jemisin floresce. O livro “A Quinta Estação”, lançado no Brasil pela editora Morro Branco, literalmente começa quando o mundo acaba. A analogia remete a um mundo ambientalmente caótico, devastado pela ação humana, escasso em recursos naturais, mas que pode ser controlado pelos comandos sensoriais de um grupo socialmente marginalizado.

Inquietude presente
As placas tectônicas que dão origem a terremotos, erupções vulcânicas e tsunamis no mundo real e no mundo de “Quietude”, onde a narrativa se desenrola, são movimentadas pelos orogenes. Os orogenes formam um grupo de humanos hiperssensíveis que podem ativar ou controlar movimentações terrestres e no entanto, são mal vistos pela sociedade em que vivem, por conta do poder que têm em mãos.

Ironicamente, em “Quietude”, a única sensação inexistente é a paz. Esta é uma terra de finais, que escancara para os leitores feridas da humanidade através de rachaduras, traições e cataclismos ambientais num contexto desolador. É “uma terra familiarizada com a catástrofe, onde o poder da terra é empunhado como uma arma. E onde não há misericórdia”, resume a contracapa.

Aclamado pela crítica e pelos fãs, “A Quinta Estação” tem uma narrativa imersiva, poética e envolvente. O enredo é narrado pela perspectiva de 3 protagonistas femininas e em uma delas, a escrita acontece em segunda pessoa, isto é, a autora conta a história apontando o leitor como personagem. “Você é Essun”, provoca Jemisin. A partir desse momento, nos tornamos cada vez mais empáticos com a personagem e seus pares, já que no decorrer das páginas a repetição nos leva a pensar e sentir como Essun.

Reescrevendo a história
Publicado em 2015 nos Estados Unidos, o livro faz parte da trilogia “A Terra Partida” de Nora K. Jemisin. Utilizando o velho artifício literário de encurtar o nome e tornar-se conhecida – leia-se mais vendável – apenas pelo sobrenome, a autora se tornou a primeira pessoa negra a ganhar um Hugo Award, desde sua fundação em 1953. E não apenas isso. O Hugo Award, um dos principais prêmios de ficção científica do mundo literário foi abalado três vezes consecutivas pelo talento inegável da autora norte-americana.

Em 2016, Jemisin recebeu o foguete metálico com “Fifth Season”, no ano seguinte consagrou sua obra com a sequência “The Obelisk Gate” e no último dia 19 de agosto, recebeu a terceira estatueta por “The Stone Sky”, publicado em 2017. Com isso, Jemisin torna-se também a primeira pessoa – viva ou morta – a ser premiada com todas as obras de uma trilogia na principal categoria do Hugo Award.

 

N.K. Jemisin por Brian Derbala

 

Num gênero literário reconhecido por narrativas de homens brancos como Neil Gaiman, George R. R. Martin e Isaac Asimov, a conquista se torna ainda mais simbólica, segundo Giovana Bomentre, editora da Morro Branco, responsável pela publicação no Brasil. “Publicar N.K. Jemisin é amplificar uma voz diferente em um gênero que desgasta-se em perspectivas eurocêntricas, além de dar acesso a histórias que ajudam a pensar o momento que vivemos a partir de uma perspectiva diferente”, comenta.  

Afrofuturismo Jemisiniano
Partindo de uma perspectiva que subverte a importância dos grupos socialmente marginalizados, dando a eles poder e complexidade, Jemisin lança um olhar provocativo sobre o futuro da humanidade, sem cair no ativismo explícito.

“Eu vejo a ficção científica como um impulso aspiracional do zeitgeist [espírito da época]. Somos criadores e engenheiros de possibilidades e este gênero – de má vontade, no entanto – finalmente reconhece que os sonhos dos marginalizados importam e que todos nós temos um futuro, assim como o mundo”*, comentou a autora durante a premiação.

Victor Gomes, publisher da editora Morro Branco, afirma que o sucesso da obra se dá tanto pela representatividade política dos personagens, inseridos num contexto crescente de discussões afrofuturistas sobre as pautas raciais e de gênero, quanto pelo universo inovador da narrativa. “Vivemos um cenário no qual novos preconceitos têm surgido e antigos são manifestados com menos pudor, também onde opiniões diferentes geram discórdia e desrespeito. Trazermos diversidade nas experiências e discutir temáticas relevantes com nossos leitores é também dar a eles poder para tomarem decisões e tornarem-se mais tolerantes”, afirma Bomentre.

Futuro próximo
Na primavera brasileira, em outubro de 2018, a editora Morro Branco lançará o segundo volume da trama, intitulado “O portão do obelisco”, lançado em 2016 nos EUA.

Gomes acredita ainda que a narrativa conquistará novos públicos à medida que as pautas ganham cada vez mais espaço na mídia e nos movimentos sociais.  Em seu discurso potente, N.K. Jemisin revela o acolhimento necessário para resistir às injustiças sociais e aos incontáveis dias ruins em tempos de caos.

“Acho que é bastante óbvio que estou escrevendo uma história sobre opressão estrutural na trilogia de ‘A terra partida (…) mas outra coisa que tentei mostrar é que a vida no mundo difícil nunca é apenas luta. A vida é família, sangue, encontro. Viver significa celebrar toda vitória, não importa quão pequena seja. Então estou aqui, diante de vocês e quero lembrar que 2018 também é um ano bom”*.

*traduções livres do discurso de aceite em 19/08/2018, disponível no vídeo embedado.

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