“Ele – Quando Ryan conheceu James”: um romance gay sobre o amor

"Ele – Quando Ryan conheceu James": um romance gay sobre o amor

Escrito a quatro mãos pelas autoras Elle Kennedy e Sarina Bowen, livro aborda relação entre dois amigos jogadores de hóquei nos EUA

Há poucos dias tivemos a estreia da Copa do Mundo na Rússia e, para além das notícias futebolísticas, o que chegou à minha timeline foi a notícia de um casal gay agredido, logo no primeiro dia do campeonato, em São Petesburgo. Antes de escrever esta resenha, um ativista contra a homofobia foi preso, também na Rússia. Desta vez, na capital, Moscou. Mas, os casos não acontecem apenas no país que sedia um dos eventos mais importantes do mundo. No Brasil, mortes ligadas à homofobia já ultrapassam a marca de 1 por dia. Nos EUA, as mortes ligadas à crimes de homofobia e transfobia também crescem, junto com a onda conservadora. Em 2017, 49 pessoas foram mortas em um ataque a uma boate na Flórida.

Por conta destes números – e de casos imensamente tristes – vibrei quando recebi, no meu e-mail, a chance de ler a prova do livro “Ele – quando Ryan conheceu James”, das autoras Elle Kennedy e Sarina Bowen. A obra, publicada pelo selo da editora Paralela é indicada para maiores de 18 anos e  conta a história de dois jovens – Ryan Wesley e James Canning –  jogadores de hóquei que passam anos sem se falar após um episódio em um acampamento de férias, nas montanhas. O livro chega às livrarias no próximo dia 29 de junho e é uma das apostas para a Bienal do Livro em São Paulo.

O livro começa com a história de dois jovens, chamados de Jamie e Wes, que se conheceram ainda crianças no acampamento para jogar hóquei e viveram aventuras que eles consideram incríveis durante todos os anos em que se encontraram no local. As lembranças de cada um permeiam a história antes deles se tornarem, respectivamente, goleiro e atacante de times rivais de universidades e caminharem rumo a times profissionais, como sempre sonharam.

Cada capítulo é marcado pelas lembranças de cada personagem. Alternados, eles reconstroem as memórias desde a última noite em que passaram juntos – e se afastaram pelos quatro anos seguintes – até se encontrem num confronto entre os times rivais universitários. A partir daí, a relação de amizade que teria se transformado em paixão fica evidente e, cada qual, vai contando como se sente em relação ao que está vivendo e ao que já passou.

Curiosa é a forma como eles se reaproximam – com um pedido de desculpas que não vem através das palavras, mas de uma brincadeira que faziam quanto jovens, que é a troca de presentes. A saudade que um sente do outro, embora de formas diferentes, também é evidente e ela que nos faz passar de uma página para outra em um fôlego só, pra entender o que ocorre quando dois caras, melhores amigos, se envolvem.

A trama, bem desenvolvida e picante,  alterna entre o super erótico, o amor e os sonhos, mas, passeiam, principalmente, sobre o respeito e as formas de lidar com o preconceito, que, apesar de no livro ser pequeno, é inevitável.

A leitura é fluída e evidencia que as duas mulheres se uniram para escrever uma história de amor permeada de sexo entre dois homens, mas também recheada de amor e, como eu já disse, respeito, o que nos faz pensar que estamos diante de um livro indispensável, inclusive pelas estatísticas que fiz questão de alardear no começo da resenha. Parecem deslocadas, mas estão intimamente ligadas.

A história de Jamie e Wes é uma história de amor. É um romance que narra como dois homens podem se apaixonar, apesar de serem melhores amigos e se desenrola em como eles fazem para lidar com os próprios sentimentos e o turbilhão de emoções que irrompe após o reencontro entre eles.

A narrativa percorre uma linha do tempo linear, com flashbacks aos anos em que eles ainda eram garotos e nos ensina, para além do amor, a importância do perdão. E é só com o perdão e a vontade de fazer acontecer e escrever, de uma maneira diferente, a própria história, é que eles conseguem atravessar os episódios de preconceito, a hostilidade de alguns familiares e a balança que os coloca em lado oposto da própria carreira.

Apesar de discutir temas importantes e extremamente necessários, o livro não se arrisca tanto. Embora o preconceito surja em alguns momentos, ele não é o mote. A história de amor – como deve ser – vence, porém, o desenrolar dos acontecimentos favorece amplamente os personagens, destoando do que seria uma realidade aceitável e privilegiando a fantasia. Contudo, isso não compromete o livro. Ele ainda é indispensável.

Discutir a homofobia, ainda que em meio a cenas absurdamente eróticas e quentes, é pra lá de necessário e, ao apresentar uma história de amor em que um dos protagonistas é obrigado a lidar com a experiência de se envolver com outro homem, mesmo sendo hétero e sem nunca ter imaginado isso.

É também um livro sobre segundas chances e como lidar com os próprios esqueletos no armário – até sair do armário (socorro! Não aguentei não fazer esse trocadilho) e se encontrar com o amor, na sua forma mais pura. A evolução dos personagens deixa bem claro como as autoras tiveram essa intenção. É bonito acompanhar os processos de amadurecimento deles, que passam de egoístas e, por vezes, arrogantes e até desrespeitosos com o sentimento um do outro, para preocupados e interessados em resolver as questões passadas com respeito a amor. E é isso que importa: há amor e respeito dentro da relação, objetivando encontrar o mesmo fora dela, no mundo.

A tradução é muito bem feita e não fossem os cenários e o esporte característicos da América do Norte, poderia ter ocorrido  no Brasil. As falas e expressões foram traduzidas de forma efetiva. Até mesmo as partes eróticas. Ponto para a tradutora Lígia Azevedo.

Foi uma experiência rica ler o romance. Primeiro, pela temática. Confesso ser raro eu ler livros sobre homens gays, mas, sou adepta da leitura escrita por mulheres. Segundo, porque estas mulheres conseguiram captar essências muito íntimas e que nos envolvem profundamente na atmosfera de romance entre dos homens que transpiram testosterona em seus uniformes de jogadores de hóquei, seus corpos sarados, tatuados e suas blusas colando no corpo e… sim! É um livro excitante. E claro, essa foi intencional e assertiva.

O final, claro, deixa o gostinho de quero mais. E mais um ponto para as autoras, que já tem pronto o livro “Us”, que trata do romance de Jamie e Wes pós o “Ele” e nós esperamos que a obra não demore a chegar no Brasil.

 

Sobre as autoras

Elle Kennedy cresceu nos subúrbios de Toronto, Ontario, e é bacharel em Inglês pela Universidade de York. Desde cedo, ela sabia que queria ser uma escritora, e começou a perseguir ativamente esse sonho, quando ela era adolescente.

Aqui no Brasil já tivemos a publicação da série Amores Improváveis – Off Campus – composta por quatro livros: O Acordo, O Erro, O Jogo e A Conquista. Cada livro tem como protagonista um dos quatro jogadores do time de hóquei da Universidade de Briar que dividem uma casa: Garrett Graham, John Logan, Dean Di Laurentis e John Tucker.

Sarina Bowen é autora best-seller do USA Today e de romances contemporâneos e new adult. Cresceu no Vermont e, quando não está escrevendo ou lendo, gosta de esquiar, tomar café e uma boa taça de vinho. A autora tem diversos livros publicados, mas nenhum deles chegou ainda ao Brasil.

 

 

Resenha | Ele – Quando Ryan conheceu James
Autoras:  Elle Kennedy e Sarina Bowen
Tradução: Lígia Azevedo
Editora: Paralela
Páginas: 260
Avaliação: ****

*O livro foi uma cortesia da editora Paralela

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