O hip-hop me trouxe outra história: o dia que visitei o presídio com o Dexter

O hip-hop me trouxe outra história: o dia que visitei o presídio com o Dexter

Rapper conversou e fez show de 1h para detentos do Presídio de Poços de Caldas durante o Flipoços

“O hip-hop me trouxe uma outra história”. Essa foi uma das muitas frases impactantes que o rapper Dexter me disse durante a entrevista que fiz com ele durante a 13ª edição do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, o Flipoços. E que entrevista.

Pude acompanhá-lo durante a visita ao Presídio de Poços de Caldas, onde ele conversou e cantou para 150 detentos. No webdoc que produzimos durante a visita – assista aqui – ele diz que viu vários presos chorando. E não só os presos. Enquanto ele cantava “como vai seu mundo”, não aguentei. Caí no choro também. E que mistura incrível de sentimentos. Saí de lá com a adrenalina a mil. Com emoções que ainda não consegui escrever sobre. Com o choro ainda engasgado cada vez que revisito as imagens. Com a certeza de que estamos do lado certo da luta. E que vamos seguir.

Para mim, o momento alto da visita, foi quando o Dexter convenceu – no sapatinho – o diretor do presídio a cantar a última música do lado de dentro do pátio, com os detentos. Tal feito nunca havia acontecido no Presídio de Poços de Caldas. Ele conseguiu cantar a última canção – saudades mil – do lado de dentro e abraçar os detentos. Na emoção, pedi para ir junto e o diretor concedeu. Foi ainda mais emocionante poder estar ali. Esqueci que estava trabalhando, que deveria gravar com a gopro que estava na minha mão e curti, lindamente, o show de rap. Foi lindo. Foi inesquecível.

A visita acontece no último dia 04 de maio. Na ocasião, Dexter conversou com 150 detentos e fez um show de cerca de 1 hora. Ao término, autografou o uniforme de vários deles.

Com o material captado na ocasião, o Flipoços lança nesta sexta-feira (25) um webdoc com os momentos protagonizados pelo rapper Dexter dentro da unidade, bem como declarações dele sobre a importância deste trabalho. O projeto de vídeo teve a parceria da Ciclo Comunicação.

A iniciativa foi parte do Circuito Pegada Literária, ação do Flipoços em parceria com o Presídio de Poços de Caldas que tem como objetivo promover o acesso à literatura de diferentes formas. A visita também foi ao encontro do projeto “Como Vai seu Mundo” que o rapper desenvolve desde que está liberdade e visita jovens na Fundação Casa em São Paulo e detentos de presídios de várias cidades. Ele cumpriu pena preso por 13 anos, inclusive no Carandiru.

 “Eu sempre fui um sério candidato a morrer cedo, pela mão do crime, da polícia, né? O sistema planejou isso para mim. O hip-hop me deu uma outra história e poder ter estado no presídio no Flipoços é de uma importância muito grande. É imensurável, inclusive, o valor, porque eu já fui um deles, né?”, declarou o rapper  Dexter sobre a visita.

Para a diretora adjunta do presídio, Monique Xavier, a visita do rapper foi importante para a unidade, pois favoreceu às pessoas presas estímulos positivos, a fim de gerar crescimento pessoal.

“Os presídios geralmente são lugares opressivos e que roubam a individualidade da pessoa, são lugares nos quais há um aumento significativo de estímulos aversivos, que geram sentimentos e comportamentos que não são funcionais. A presença do Dexter despertou no presídio de Poços de Caldas um cenário que eu, mesmo após anos atuando neste lugar, nunca havia testemunhado: eles tiveram contato com uma pessoa que possui valores culturais semelhantes aos deles, que viveu experiências negativas semelhantes as que vivem no dia de hoje e principalmente superou todas as adversidades, sendo no momento atual uma referência positiva no quesito superação.
É importante para a pessoa presa as referências que dizem respeito aos cenários que lhe são próprios e o Dexter trouxe a eles uma alegria e identificação que eram até então inéditos neste ambiente. As consequências imperaram nos dias e semanas seguintes. De modo ininterrupto eles falavam sobre os momentos vivenciados. Alguns até mesmo passaram a fazer planos positivos diferentes inspirados nas palavras que o Dexter trouxe a eles”, destacou.

Já para a coordenadora do evento, Maíra Carvalho, a presença do rapper reforçou a importância do acesso à literatura. “O Dexter é um poeta nato. Os discos dele contém histórias, tal qual um livro. Quando o contatei para fazer a atividade no presídio, ele topou na hora e foi muito gratificante planejar e realizar isso. Nosso objetivo é levar a literatura até as pessoas, não importa onde elas estão. Acreditamos na ressocialização das pessoas que estão presas e atividades como esta só reforçam isso. A literatura é um poderoso instrumento de transformação e estou muito contente por ter participado deste processo”, comentou.

Sobre o Flipoços

O Flipoços 2018 e a 13ª Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas são realizados pela GSC Eventos Especiais e acontecem de 28 de abril a 06 de maio no Espaço Cultural da Urca. O Flipoços 2018 contou com o patrocínio do DME, Climepe, Codemge, BDMG Cultural, Suzano Papéis e Celulose, Fibrax e Prefeitura de Poços de Caldas. Parceiro Cultural Sesc Minas, Instituto Camões, Editoras Sextante, Dublinense, Malê, Faro Editorial, Aletria, Leya, Trilha Educacional, Edições Sesc São Paulo. Apoio da Universidade Paulista, Unip e CBA – Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). O Flipoços 2019 já começa a ser pensado e preparado e vai acontecer de 27 de abril a 05 de maio de 2019. Acompanhe tudo pelo site www.flipocos.com

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